sábado, julho 31, 2004

Mortos que andam

Não, isto não é o argumento para um filme de terror série B, só que não sei como descrever aquelas pessoas que vemos todos os dias passearem-se pelas ruas e pelos corredores das empresas, nas filas do banco, nos "guichets" das repartições públicas, e em todos os becos mais escuros da nossa existência.
Algumas trazem pastas de plástico a imitar cabedal, sorrisos de plástico a imitar vida.
Sabem, afinal enganei-me, isto é mesmo o argumento para um filme de terror. Tenho medo do silêncio que escorre de dentro do espaço vazio das palavras que sopram as bocas vazias de beijos e cheias de dentes. Tenho medo dos seus apertos de mão flácidos e dos olhares interessados que passam directo por aquele espaço ainda sem nome entre o meu ombro e a minha orelha. Tenho medo da sua política de direita, a intelectualidade de esquerda, e a moral indecisa de "zigue-zague". Tenho medo dos seus parceiros "Ken" e as suas parceiras "Barbie" e das suas crias rebentos de carne-plástico.

É aquela estranha sensação de ser a única mente sã dentro de um manicómio ou uma ovelha extraterrestre de visita a um matadouro. Olho para as filas das minhas irmãs imaculadamente brancas à espera de depositar a cabeça no cepo e o sangue na tina. Confrontado com este estranho cenário, sacudo a minha lã irrepreensivelmente negra e viro costas, afastando-me cada vez mais dos balidos tristes do rebanho.

Um conselho às restantes ovelhas: sejam lobos.

4 comentários:

Hugo disse...

Não é lobos...é ovelhas ngras!
LOL

Anónimo disse...

Li o teu comentário e lembrei-me de uma canção recriada pela Adriana Calcanhotto que era cantada pela Amália. É simples mas parece-me que resume bem o que é tentar sair do "rebanho".


Velha Fábula em Bossa Nova

Minuciosa formiga
não tem que se lhe diga:
leva a sua palhinha
asinha, asinha.

Assim devera eu ser
e não esta cigarra
que se põe a cantar
e me deita a perder.

Assim devera eu ser:
de patinhas no chão,
formiguinha ao trabalho
e ao tostão.

Assim devera eu ser
se não fora
não querer.

Alexandre O´Neill

Assinado Mandras

Anónimo disse...

Ovelhas?!?!

;)

...eheheh!!! Que retrato tão... "lãzudo"!

Ana Abreu

Carla disse...

Na maior parte das vezes, a nossa lã irrepreensivelmente negra é aos olhos dos outros absolutamente branca. E somos iguais até nisso, no facto de que nos vemos sempre diferentes dos outros. Na verdade, todos temos em parte que ceder às rotinas plásticas do mundo que nós mesmos fabricámos. O que importa é sentirmo-nos a ovelha negra, porque se acreditarmos nisso, de vez em quando é mesmo verdade.