Há dias assim, em que o mundo parece demasiado pesado.
segunda-feira, julho 16, 2007
sexta-feira, junho 22, 2007
Mini-maxi-obsessão
segunda-feira, junho 04, 2007
Dicionário de Sinónimos
domingo, maio 27, 2007
É pá, porque sim
Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me dió dos luceros que cuando los abro
Perfecto distingo lo negro del blanco
Y en alto cielo su fondo estrellado
Y en las multitudes el hombre [mujer] que yo amo
Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me ha dado el oído, que en todo su ancho
Traba noche y dia grillos y canarios
Martirios, turbinas, ladridos, chubascos
Y la voz tan tierna de mi bien amado
Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me ha dado el sonido y el abecedario
Con él las palabras que pienso y declaro
Madre, amigo, hermano y luz alumbrando
La ruta del alma del que estoy amando
Gracias a la vida,que me ha dado tanto
Me ha dado la marcha de mis pies cansados
Con ellos anduve ciudades y charcos
Playas y desiertos, montañas y llanos
Y la casa tuya, tu calle y tu patio
Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me dió el corazón que agita su marco
Cuando miro el fruto del cerebro humano
Cuando miro el bueno tan lejos del malo
Cuando miro el fondo de tus ojos claros
Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me ha dado la risa y me ha dado el llanto
Así yo distingo dicha de quebranto
Los dos materiales que forman mi canto
Y el canto de ustedes que es el mismo canto
Y el canto de todos que es mi propio canto
Gracias a la vida
Violeta Parra, para ouvir.
E´pá, porque a vida pode ser uma lição dura, mas a alternativa é muito pior
É pá...porque sim
sexta-feira, maio 04, 2007
Eles comem tudo
Está decidido. Para viver neste país só se pode ser pobre ou estupidamente rico. Ao contrário do que se passa em países civilizados, qualquer meio termo é suprimido à força de impostos e mais impostos.
Comprei a minha casa há quase 3 anos. Não beneficiei da isenção de pagamento à contribuição autáquica e tenho vindo a pagar religiosamente. Eis que agora sou surprendido por uma carta das finanças que diz qualquer coisa como "o valor declarado da sua casa é inferior à avaliação que entretanto efectuámos, por isso vai ter de pagar mais €€€€ de IMI (cont. autárquica)".
Ora, quem faz essa avaliação? A Câmara. Quer dizer, o interessado é que diz quanto vale a minha casa e quantop é que çhes devo pagar.
Como se já não bastasse o IRS, os descontos para segurança social e mais não sei o quê em troca de nada. Sim, porque para sermoms devidamente atendidos num hospital temos de ir para um privado. Dentista? Pagas! Tudo se paga, esquece lá as centenas ouu milhares de contos em impostos.
Na minha terra há uma palavra para isto mas vou aligeirá-la: VAMPIROS DE MERDA!
Em suma, para viver neste país não podes ter nada, tens de ser miserável porque se não vêm os senhorees do Estado roubar-te.
PS: Para esses senhores, uma dica: as minhas carótidas estão disponíveis, mas sejam gentis.
segunda-feira, abril 30, 2007
Revolução geriártrica
Há coisas que me tiram do sério. Uma delas é que me chamem velho. Não que não haja uma certa razão nessa tese, ou não fosse esta tendinite no ombro a gritar-me todos os momentos em que distraidamente tento mexer o braço esquerdo, que estou, de facto, além do meu auge.
Agora quando me dizem que sou velho porque reclamo com o "status quo", porque estou insatisfeito com a vida, porque quero mais e melhor para mim e para o meu país, que diabo, para o Mundo! Quando isso é ser velho...
Gostaria de saber quem é o mais velho: o velho que gostaria de mudar o mundo ou o jovem que, agarrado a um bidão de Coca-Cola, acha que está tudo muito bom desde que não lhe tirem as discotecas, a música de algodão doce e o açucarado "status quo".
Viva La Revolution! Diz que é um conceito idoso.
sexta-feira, abril 27, 2007
Supertubo para Deus
Finalmente! Após duas semanas de trabalho que cabem perfeitamente no top das piores da minha carreira, com os serviços mais merdosos que se pode imaginar, eis que estaciono o carro em Supertubos. Uma rápida olhadela para o mar, um sms rápido para o meu amigo Filipe Santos, enquanto enfio o fato e agarro na prancha. E siga para o areal que se faz tarde.
Talvez influenciado pela consulta ao Beachcam.com ou talvez cego pela ânsia de lavar a alma em água salgada, nem olho bem para o mar, mas reparo que não estava o meio-metro que o site anunciava. Ainda bem, estou a precisar de um desafio, penso. Calço os barbatos e atiro-me à água.
Estavam meia dúzia de malucos na confusão, quase todos bodyboarders e de grande nível, diga-se. Um par de ARS's e outro tanto de tubos bem encaixados convencem-me disso. É capaz de haver uns pros na água...
O primeiro contacto com a rebentação começa a sugerir que fiz merda. A coisa hoje está casca grossa. Inconscientemente, meio às escondidas, benzo-me e faço uma oração silenciosa. Nada como o mar para trazer ao de cima a educação religiosa de um tipo, mesmo se for do tipo informal, como a minha.
Não há de ser nada...começo a furar as ondas a caminho do "line up" e a sensação de estar a jogar fora do meu campeonato adensa-se: aquilo que ali vem não é, definitivamente meio-metro. Ou isso ou aquele surfista cuja cabeça é bem ultrapassada pelo "lip" da onda é anão. Hmmm...não, não é.
Isso e a sensação de estar metido numa máquina de lavar roupa com um programa puxado, começam a causar-me algum frio na espinha. E não é da água, que o fato é bom.
Mais uma estalada e sou enrolado para trás. Bolas, esta merda tem força! Mais um caldo e a coisa torna-se clara: é melhor saíres e procurares um spoot mais user friendly. Esta merda são ondas de metro e meio pesadíssimas e que rebentam em cima de ti como uma parede de cimento. Começo a pensar se o Molhe Leste, ali ao lado, não estará mais convidativo.
Bem, mas tenho de fazer uma onda para sair. Espero por uma boa, sempre furando as paredes que aí vêm a velocidade parva, e atiro-me à ponta de uma direita surfável. Surfável? O animal pega em mim, atira-me lá para cima e mostra-me o drop à minha frente: um buraco de dois metros de vazio. Merda! Puxo tudo para trás mas era tarde de mais. O "lip" empurra-me para baixo com toda a força, e eu vou...como se tivesse outro remédio.
É a sensação já familiar de ser um boneco de trapos no meio da onda, mas decuplicada. "Vou morrer", penso enquanto uma mão invisível me prende lá em baixo, no verde. Finalmente venho ao de cima, agarro a prancha, olho para o mar e...por alguma coisa lhes chamam "set" de ondas: Merda! vem aí outra! agarro-me à prancha com unhas e dentes e espero que a puta não me caia nas costas. Quando dou por isso, uma bomba explode atrás de mim e sou levado num mar de espuma para a frente, para a praia.
Saio ofegante, a rir à parva. Descarga de adrenalina ou a pura, bruta alegria de estar vivo. Não sei. Descalço as barbatanas e caminho para o carro. O Filipe acaba de chegar. Olha para o mar e insulta-me. "És louco, aquilo está tudo a fechar...e tá enorme!"
Fomos para o molho Leste, aí sim, com os tubos sem saída a serem substituídos por umas rampas mais negociáveis. Horas mais tarde e com a barriguinha cheia de surf, sozinho numa esplanada em frente ao mar, saboreando um café quente, negro e espesso, faço um telefonema para uma amiga. Mais do que uma amiga, o meu primeiro amor, coisa de adolescente, desastrada e pueril. Ela só soube anos mais tarde...
-- Oi, há que tempos, sim, desculpa, tenho andado cheio de trabalho
-- Sim, olha continuo no trabalho de sempre, mas agora vou ter outro emprego: vou ser mãe.
-- ... Ah!...Parabéns. Que bom, a sério, estou muito contente. Porra, nem sei que dizer. Parabéns, pois.
-- Ia mandar a ecografia para os meus amigos todos mas ainda não consegui digitalizar aquilo.
-- Pois, deixa, olha, é muito bom, vais ver que tudo vai correr bem. É pena que não estejas aqui, apetecia-me dar-te um beijo. Temos de tomar um café, quer dizer, um chá, agora tens de ter mais cuidado. Sabes ia morrendo há bocado...
-- O quê?
-- Nada, parvoíce, estava a pensar noutra coisa. Olha, vou ficar sem bateria nesta treta. Temos de nos encontrar. Beijos.
O sol está a pôr-se em Supertubos. Pois é, "nada como a proximidade do mar para trazer ao de cima a educação religiosa"... O sol parece ir passar uma fronteira qualquer e o céu fica mais perto, parece que o podemos tocar se esticarmos um pouco o braço. Deus, como o sol, parece tão mais perto hoje, aqui, ao pé do mar, onde as coisas acabam e começam.
Os gajos que passaram por experiência de quase morte dizem que se passa por um túnel que conduz à luz. É como nascer, né? Mas não acho que seja um túnel, é um tubo mesmo. Um Supertubo.
sábado, abril 21, 2007
Vítima do Pantera Negra
O cenário foi imediatamente desenhado na minha cabeça: maratonas à porta do Hospital da Luz. As primeiras informações deram-me alguma esperança: o velho ia sair no próprio dia. Puro engano. Afinal, a coisa era para durar.
Horas e horas a fio com apenas uma meta: o fim-de-semana de folga grande: sexta, sábado e domingo. E uma leitura rápida no www.wetsand.com: sexta-feira, ondulação de mais de um metro e sem vento. Meu Deus, dá-me forças para resistir até lá...
sexta-feira, março 16, 2007
Por amor
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Cheguei à redacção para o último dia de trabalho antes de umas mini-férias de três dias. Estou a precisar: uma semana de reportagem em Paris deixou marcas e estou mesmo a precisar de um estágio de mar para curar.
Estou a sentar-me e o meu editor aborda-me com um sorriso culpado: "Estás de folga este fim-de-semana, não estás?" Este é o tipo de pergunta assassina que significa invariavelmente mais uma viagem. Pelo caminho já me tinha colocado ao corrente do que ditou o sorteio da UEFA, o Espanyol de Barcelona. Uma cidade bonita, pois é.
Na balança pendia, de um lado, uma viagem e três ou quatro dias de reportagem numa das mais belas cidades da Europa; do outro uma deslocação até Peniche para dois dias de surfada com amigos. Boas ondas, sol, peixinho fresco grelhado...e já mencionei boas ondas?
Pois é. Sem dúvidas. Há escolhas que fazemos por amor. Vocês sabem o que respondi, não sabem?
terça-feira, fevereiro 20, 2007
De volta ao templo
A dor. A satisfação. No célebre documentário de culto "pumping iron", Arnold Schwarzenegger fala da sensação da "pump", que é como quem diz, aquela sensação que se tem depois de algumas séries com pesos. O músculo fica irrigado de sangue, congestionado. No fundo, tata-se de solicitar as fibras musculares de forma sucessiva danificando-as, obrigando o músculo a renovar-se, tornando-o mais forte, mais espesso, com mais fibras, para a próxima vez estar mais preparado para o esforço. A chamada "memória muscular".
Bonito não é? Mas dói. E por isso ainda é mais bonito. Eu explico:
Lembro-me da primeira vez que entrei num ginásio de musculação, daqueles "hardcore", em que se prepara malta para competições de culturismo. Nada destes "health clubs" da moda. Digamos que o tempo que lá passei foi extremamente útil para quando tenho de escrever sobre casos de "doping"...
O primeiro teino teve a sua piada. Já tinha experimentado fazer uns pesos há uns anos, mas nada sério e entretanto já tinha uma experiência interessante em kickboxing. Pensava que isso de "puxar ferro" era coisa para meninos, nada que acrescentasse ao meu título de vice-campeão nacional. Então, atirei-me com toda a gana e acompanhado por um maluco do ferro fiz um esquema pouco aconselhado para o meu corpo de corredor de fundo. Acabei o treino, cambaleei para o balneário e vomitei. Pois é...ganhei outro respeito à coisa. E os 69 kg e meio do kickboxer subiram para 82...
Já foram uns anitos e o vício do ginásio ficou comigo. Um vício que levei a limites pouco razoáveis antes de o incorporar mais pacificamente na minha rotina. Hoje, em vez do ritual de auto-massacre de outros tempos é mais como uma ida ao templo: revigorante. Mas nada de auto-complacente. Ainda gosto de sentir os músculos a arder.
E como ardem. Depois de três meses de interregno escolhi uma má semana para voltar. Na minha secção de 7 pessoas, uma está de férias, outra de baixa e eu...de rastos. Ando a fazer 12 horas por dia e a encaixar, teimosamente, uma hora de ginásio todos os dias (ter ginásio no condomínio facilita), normalmente às 11 da noite ou às 10 da manhã. O pior é andar a coxear como um velhinho cheio de dores nas pernas, suportar os socos amigáveis dos colegas nos braços ou as igualmente fraternas pancadas nas costas. Porra, como dói!
Enfim, é o regresso ao templo meus amigos. É que como naqueles tempos de estreia, não sei fazer nada, mas mesmo nada, a brincar.
Portanto, se me encontrarem na rua, podem cumprimentar-me, mas com cuidado...ouch!
sexta-feira, fevereiro 09, 2007
Porque sim
Há vários meses que ando a resistir escrever sobre isto, mas lá terá que ser:
SIM, porque a actual lei é socialmente cega
SIM, porque a actual lei defende a hipocrisia
SIM, porque toda a gente é conta o aborto, mas há quem também seja contra uma lei que penaliza mulheres já suficientemente penalizadas
SIM, porque ainda tenho a esperança que este seja um país que dá a mã a quem mais prcisa e não os condena
SIM, porque não aguento falsos moralismos de quem vai "fazer férias" a Londres ou Badajoz
SIM, porque não há medidas contraceptivas 100% eficazes
SIM, porque todas as crianças merecem ser queridas e amadas
SIM, porque SIM. E se a alternativa ganhar, então merda para este país, porque se houve 25 de Abril, então falhou mesmo
PS: E se ouço mais algum atrasado(a) mental dizer que a despenalização vai provocar uma corrida ao aborto, não respondo por mim.
SIM, porque a actual lei é socialmente cega
SIM, porque a actual lei defende a hipocrisia
SIM, porque toda a gente é conta o aborto, mas há quem também seja contra uma lei que penaliza mulheres já suficientemente penalizadas
SIM, porque ainda tenho a esperança que este seja um país que dá a mã a quem mais prcisa e não os condena
SIM, porque não aguento falsos moralismos de quem vai "fazer férias" a Londres ou Badajoz
SIM, porque não há medidas contraceptivas 100% eficazes
SIM, porque todas as crianças merecem ser queridas e amadas
SIM, porque SIM. E se a alternativa ganhar, então merda para este país, porque se houve 25 de Abril, então falhou mesmo
PS: E se ouço mais algum atrasado(a) mental dizer que a despenalização vai provocar uma corrida ao aborto, não respondo por mim.
quinta-feira, janeiro 18, 2007
My name is Tário, O-Tário
Átrio de hotel cinco estrelas. Aproveito o acaso de hoje ter vestido um blazer com etiqueta transalpina e até estar penteado para deslizar discretamente por entre o caldo internacional de um congresso. Inglês, italiano, francês…até algum português. Mas nada de português do Brasil, aquele que procuro.
É nestas alturas que penso o quão ridícula pode ser esta profissão. Procuro um empresário de futebol brasileiro. É tudo o que sei sobre o tipo. Isso e o facto de ele, alegadamente, estar em Portugal para negociar um avançado para o Benfica. Um brasileiro, claro, ou não fosse essa a origem favorita dos reforços de Inverno em Portugal. Bons e baratos. Pois, deve ser. A quimera dourada dos dirigentes lusos. Quase nunca acontece. Quase? Eu deveria saber, ainda há duas semanas escrevi um trabalho em que falava precisamente do mercado de Janeiro em Portugal. Uma merda. Engodo para índios que ainda teimam em acreditar no sucesso da sua equipa.
Mas isso era antigamente, quando eu ainda escrevia coisas interessantes, quando não estava demasiado ocupado a brincar aos agentes secretos. Pois.
Entretanto, já bebi um café, uma água com gás e estou a folhear a carta dos Whiskies. Completamente sóbrio isto é muito mais difícil. E nada de Veiga, nada de Vieira. Nunca se sabe, o próprio presidente poderia dar um ar da sua graça. Mas seria demasiada bandeira.
Único consolo é a presença de dos tipos que presumo jornalistas da concorrência. Apesar de não nos conhecermos, todos estamos mais ou menos conscientes da identidade uns dos outros. E fingimos que não nos apercebemos da presença uns dos outros, que não sabemos exactamente o que estamos ali a fazer.
Nada de empresário. Acho. Podia chocar de frente com o gajo que não o reconheceria. A informação de que disponho é, no mínimo, escassa. “O tipo é brasileiro. Olha, sei lá pergunta na recepção.” Claro. Estou mesmo a ver: “Boa tarde, por acaso os senhores têm cá algum empresário brasileiro hospedado?” O desespero é grande, faço uma tentativa desesperada junto do porteiro: “Boa tarde, combinei aqui um encontro com José Veiga, o do Benfica, sabe quem é, claro. E, por acaso, ele já passou por aqui?...” Hmmm…talvez um Jameson…
Foi mais ou menos nessa altura que saquei do computador e comecei a escrever. Só para manter a cabeça ocupada. Não tenho nenhum jornal aqui e não tenho mais nada para fazer que me ocupe o cérebro.
Finalmente o telefone toca: é o regresso à base. Vem aí mais um dia daqueles.
É nestas alturas que penso o quão ridícula pode ser esta profissão. Procuro um empresário de futebol brasileiro. É tudo o que sei sobre o tipo. Isso e o facto de ele, alegadamente, estar em Portugal para negociar um avançado para o Benfica. Um brasileiro, claro, ou não fosse essa a origem favorita dos reforços de Inverno em Portugal. Bons e baratos. Pois, deve ser. A quimera dourada dos dirigentes lusos. Quase nunca acontece. Quase? Eu deveria saber, ainda há duas semanas escrevi um trabalho em que falava precisamente do mercado de Janeiro em Portugal. Uma merda. Engodo para índios que ainda teimam em acreditar no sucesso da sua equipa.
Mas isso era antigamente, quando eu ainda escrevia coisas interessantes, quando não estava demasiado ocupado a brincar aos agentes secretos. Pois.
Entretanto, já bebi um café, uma água com gás e estou a folhear a carta dos Whiskies. Completamente sóbrio isto é muito mais difícil. E nada de Veiga, nada de Vieira. Nunca se sabe, o próprio presidente poderia dar um ar da sua graça. Mas seria demasiada bandeira.
Único consolo é a presença de dos tipos que presumo jornalistas da concorrência. Apesar de não nos conhecermos, todos estamos mais ou menos conscientes da identidade uns dos outros. E fingimos que não nos apercebemos da presença uns dos outros, que não sabemos exactamente o que estamos ali a fazer.
Nada de empresário. Acho. Podia chocar de frente com o gajo que não o reconheceria. A informação de que disponho é, no mínimo, escassa. “O tipo é brasileiro. Olha, sei lá pergunta na recepção.” Claro. Estou mesmo a ver: “Boa tarde, por acaso os senhores têm cá algum empresário brasileiro hospedado?” O desespero é grande, faço uma tentativa desesperada junto do porteiro: “Boa tarde, combinei aqui um encontro com José Veiga, o do Benfica, sabe quem é, claro. E, por acaso, ele já passou por aqui?...” Hmmm…talvez um Jameson…
Foi mais ou menos nessa altura que saquei do computador e comecei a escrever. Só para manter a cabeça ocupada. Não tenho nenhum jornal aqui e não tenho mais nada para fazer que me ocupe o cérebro.
Finalmente o telefone toca: é o regresso à base. Vem aí mais um dia daqueles.
terça-feira, janeiro 09, 2007
Presságio na água
Não acredito em muita coisa. De facto, cada vez acredito menos e em menos coisas. Não sou gajo de ler horóscopos nem sou adepto do sobrenatural. Mas baseio muito da minha vida na intuição. Aquele dia foi um desses momentos.
Estava de folga e já não sei bem porquê nem como, vi-me sozinho, de prancha às costas e a caminho de Seimbra. Bem, sei porque é que ia para Sesimbra: o mau tempo era a notícia do dia e o alerta amarelo que então imperava fazia com que a ondulação estivesse insurfável em praticamente toda a costa ocidental. Isto é, menos na abrigada aldeia de pescadores, refúgio da comunidade amante de ondas em dias de gigantes.
E, de facto, mesmo na pacífica Sesimbra, adivinhava-se que o dia não estava para comuns mortais. Ondas cheias com metrão e meio nos "sets" rolavam porto adentro. A praia estava cheia. Afinal, toda a gente sabe que em dias destes, só mesmo em Sesimbra.
Entrei. Os "sets" eram pesados mas com ritmo moderado e previsível. Não tive dificuldade. No entanto, estava estranhamente indisposto. Não sei se era a ausência do meu "guru" de ondas e habitual parceiro de surfada, o Garcia, ou a inusitada multidão, ou o simples nervoso miudinho normal numa onda nova. Só sabia que aquele não era um dos meus dias. Fiz-me a algumas mas sem convicção. Ou havia sempre um tipo mais bem colocado ou a onda não me parecia boa, ou...pois, algo não estava bem. Estava com medo.
Não era aquele nervoso miudinho normal, era um pavor que ameaçava emergir lá bem do fundo, uma sombra de pânico que espreitava pelo postigo da consciência.
Saí. Algo não estava bem e saí abanando a cabeça, envergonhado, a pedir desculpa à prancha.
Cheguei ao carro e comecei a despir o fato, quando, ainda com a pele de neoprene pela cintura o telemóvel tocou. Olhei e percebi que era o chefe de uma revista com quem colaboro esporadicamente a ligar. Apeteceu-me não atender, falávamos depois. Mas atendi.
- Então, #####, tudo bem? Então em que é que posso ajudar o meu amigo?
- Olá Carlos, então, já sabes mais alguma coisa do César?
- O César? O César está de férias pá! Mas o que é que querias do homem?
- ...Mas ainda não sabes de nada?
- Hã? Mas passou-se alguma coisa?
- Eh pá...acho que o César morreu.
- O quê?! Estás a brincar??
- Mas achas que ia brincar com uma coisa dessas?
-- Merda! Foda-se! Foda-se! Mas que raio?...desculpa...foda-se! filha da puta! Que é que raio aconteceu?! Porra!
-- Um acidente de avião e ia com outro colega vosso, um tal de André...
O resto do diálogo é irrelevante. Tudo o que ele me disse, e mais ainda, veio publicado nos jornais dos dias seguintes. Dois colegas, dois amigos tinham morrido num desastre de avião no fim do Mundo. Não, não acredito no sobrenatural mas, às vezes, o cérebro só serve para confirmar o que já sabemos. De alguma maneira. Mesmo que seja em Sesimbra, na água. O cheiro da dor esgueira-se por todo o lado
Estava de folga e já não sei bem porquê nem como, vi-me sozinho, de prancha às costas e a caminho de Seimbra. Bem, sei porque é que ia para Sesimbra: o mau tempo era a notícia do dia e o alerta amarelo que então imperava fazia com que a ondulação estivesse insurfável em praticamente toda a costa ocidental. Isto é, menos na abrigada aldeia de pescadores, refúgio da comunidade amante de ondas em dias de gigantes.
E, de facto, mesmo na pacífica Sesimbra, adivinhava-se que o dia não estava para comuns mortais. Ondas cheias com metrão e meio nos "sets" rolavam porto adentro. A praia estava cheia. Afinal, toda a gente sabe que em dias destes, só mesmo em Sesimbra.
Entrei. Os "sets" eram pesados mas com ritmo moderado e previsível. Não tive dificuldade. No entanto, estava estranhamente indisposto. Não sei se era a ausência do meu "guru" de ondas e habitual parceiro de surfada, o Garcia, ou a inusitada multidão, ou o simples nervoso miudinho normal numa onda nova. Só sabia que aquele não era um dos meus dias. Fiz-me a algumas mas sem convicção. Ou havia sempre um tipo mais bem colocado ou a onda não me parecia boa, ou...pois, algo não estava bem. Estava com medo.
Não era aquele nervoso miudinho normal, era um pavor que ameaçava emergir lá bem do fundo, uma sombra de pânico que espreitava pelo postigo da consciência.
Saí. Algo não estava bem e saí abanando a cabeça, envergonhado, a pedir desculpa à prancha.
Cheguei ao carro e comecei a despir o fato, quando, ainda com a pele de neoprene pela cintura o telemóvel tocou. Olhei e percebi que era o chefe de uma revista com quem colaboro esporadicamente a ligar. Apeteceu-me não atender, falávamos depois. Mas atendi.
- Então, #####, tudo bem? Então em que é que posso ajudar o meu amigo?
- Olá Carlos, então, já sabes mais alguma coisa do César?
- O César? O César está de férias pá! Mas o que é que querias do homem?
- ...Mas ainda não sabes de nada?
- Hã? Mas passou-se alguma coisa?
- Eh pá...acho que o César morreu.
- O quê?! Estás a brincar??
- Mas achas que ia brincar com uma coisa dessas?
-- Merda! Foda-se! Foda-se! Mas que raio?...desculpa...foda-se! filha da puta! Que é que raio aconteceu?! Porra!
-- Um acidente de avião e ia com outro colega vosso, um tal de André...
O resto do diálogo é irrelevante. Tudo o que ele me disse, e mais ainda, veio publicado nos jornais dos dias seguintes. Dois colegas, dois amigos tinham morrido num desastre de avião no fim do Mundo. Não, não acredito no sobrenatural mas, às vezes, o cérebro só serve para confirmar o que já sabemos. De alguma maneira. Mesmo que seja em Sesimbra, na água. O cheiro da dor esgueira-se por todo o lado
sexta-feira, dezembro 29, 2006
Virar a página DEZ
Lembro-me quando António Tadeia veio falar comigo para integrar a equipa de um projecto ainda sem nome. Falou-me de uma revista de grande reportagem, análise e opinião, uma publicação que ele desejava de referência. Eu ainda estava abalado pela maneira esquisita como tinha saído da secção de Sporting do jornal, uma das secções "fillet mignon" (como ficaram celebrizadas pela sempre expressiva verve do nosso director as secções de Benfica e Sporting do jornal), e não sabia o que esperar.
A responsabilidade parecia-me esmagadora mas a motivação também era grande. Eu adoro uma situação em que as probabilidades estão contra. E aquele parecia o caso: uma equipa de excelentes repórteres em que eu era, até ver, o menos experiente. Depois de mim apenas um estagiário que viria complementar o ramalhete. Tinha acabado de sair do "fillet mignon", é certo, mas estava ali para aprender. Regressar à escola. Havia, no entanto, um anzol: todos ou quase todos estavam ali em situação ingrata; por desavenças com a chefia, por alegada dificuldade "em jogar em equipa", por acidente.
Mas esse foi o factor que nos uniu. Um sentimento de luta contra a adversidade e a competência de todos catalizada e desmultiplicada pela liderança brilhante de António Tadeia.
Até que a fórmula cresceu, amadureceu, ganhou prestígio. Foi premiada, elogiada, reconhecida. O projecto ganhou pernas, resistiu a mudanças de elenco e até à saída do pai do projecto.
Por aqui passou a truculência irónica pontuada de humor e "fair play" de Paulo Renato Soares; a competência sóbria e o riso britânico de Miguel Costa Nunes; a irreverência promissora de Bruno Roseiro; o talento entretanto desperdiçado de Pedro Ferraz (esperemos que volte ao jornalismo), a liderança e assombrosa inteligência de António Tadeia...e o génio de César Oliveira. Um jovem jornalista e um ser humano tão brilhante que Deus o quis guardar consigo mais cedo.
Até agora, da equipa original dos "desterrados", apenas restavam o excelente jornalista e homem Paulo Jorge Pereira e eu. Agora eu parto. Novamente de regresso ao "Fillet Mignon", desta vez, de Benfica vestido.
O Paulo fica, para já. A DEZ também. Mas todos os que cá estão e todos os que por cá passaram fazem parte da alma de uma revista que durante 139 números fez parte de mim.
A vida continua e eu...aprendi. E viver é isso mesmo.
Até já.
A responsabilidade parecia-me esmagadora mas a motivação também era grande. Eu adoro uma situação em que as probabilidades estão contra. E aquele parecia o caso: uma equipa de excelentes repórteres em que eu era, até ver, o menos experiente. Depois de mim apenas um estagiário que viria complementar o ramalhete. Tinha acabado de sair do "fillet mignon", é certo, mas estava ali para aprender. Regressar à escola. Havia, no entanto, um anzol: todos ou quase todos estavam ali em situação ingrata; por desavenças com a chefia, por alegada dificuldade "em jogar em equipa", por acidente.
Mas esse foi o factor que nos uniu. Um sentimento de luta contra a adversidade e a competência de todos catalizada e desmultiplicada pela liderança brilhante de António Tadeia.
Até que a fórmula cresceu, amadureceu, ganhou prestígio. Foi premiada, elogiada, reconhecida. O projecto ganhou pernas, resistiu a mudanças de elenco e até à saída do pai do projecto.
Por aqui passou a truculência irónica pontuada de humor e "fair play" de Paulo Renato Soares; a competência sóbria e o riso britânico de Miguel Costa Nunes; a irreverência promissora de Bruno Roseiro; o talento entretanto desperdiçado de Pedro Ferraz (esperemos que volte ao jornalismo), a liderança e assombrosa inteligência de António Tadeia...e o génio de César Oliveira. Um jovem jornalista e um ser humano tão brilhante que Deus o quis guardar consigo mais cedo.
Até agora, da equipa original dos "desterrados", apenas restavam o excelente jornalista e homem Paulo Jorge Pereira e eu. Agora eu parto. Novamente de regresso ao "Fillet Mignon", desta vez, de Benfica vestido.
O Paulo fica, para já. A DEZ também. Mas todos os que cá estão e todos os que por cá passaram fazem parte da alma de uma revista que durante 139 números fez parte de mim.
A vida continua e eu...aprendi. E viver é isso mesmo.
Até já.
quinta-feira, dezembro 28, 2006
quarta-feira, dezembro 27, 2006
Cova do Vapor
Surfar uma onda nova é como ter sexo com uma desconhecida. Já sinto o nervoso miudinho. Vi a onda da Cova do Vapor pela primeira vez a semana passada: uma vaga mutante que pode ser tubular ou triangular, mas sempre tenebrosa. Amanhã vou "brincar" com ela pela primeira vez.
Sim, a primeira vez é sempre a primeira vez.
Sim, a primeira vez é sempre a primeira vez.
quarta-feira, dezembro 20, 2006
O Natal do saxofone
Porra! Estou farto! Desculpem o desabafo mas estou realmente farto do Natal. Tenho saudades do tempo em que isto me dizia qualquer coisa, mas a verdade é que quanto mais velho fico mais dificuldades tenho em sentir o "espírito natalício". Aquele sentimento morno que nascia na barriga e se espalhava pelo corpo todo, aquele sorriso parvo que se fazia por tudo e por nada. Parece amor, não é? A verdade é que era, pelo Mundo todo. Porque te sentias amado. Porque sabias que tinhas pessoas que, acontecesse o que acontecesse, nunca te desiludiriam.
Pois, como as coisas mudam. Dizem que um tipo nunca deve perder a capacidade de se surpreender. Pois, acho que ainda mantenho essa, já não tenho é a capacidade de me desiludir.
O Natal é a festa da família. Já praticamente não tenho família. Ok, tenho a minha mãe. O problema é que ela também está um pouco morta.
O Natal é a festa da família. Para mim já não é nada.
Este ano tentei, juro que tentei: este ano, pela primeira vez desde a morte do meu irmão, há sete anos, comprei uma árvore enorme, atirei-me às prateleiras das grandes superfícies comerciais a comprar enfeites e estive até às três da manhã a decorá-la. Ficou bonita mas não se pode enganar o espírito de Natal, não se pode comprá-lo.
Na verdade, todos os dias tenho assistido a procissões na Segunda Circular a caminho do Colombo a tentar comprar o espírito de Natal. Em tantos anos nunca vi uma voragem consumista tão grande, tanta gente embrenhada nas compras. Querem-nos vender o Natal e nós compramos, satisfeitos.
Só que amigos, não é assim tão fácil. Pois não. Ontem um amigo deu-me um CD do Miles Davis. Uma prenda desastrada entre dois tipos que não estão habituados a ter esse tipo de gesto entre si. E tão desastrada foi que o CD ainda trazia o preço: 11 euros.
Foi o momento mais próximo que tive de Natal nos últimos anos. Afinal, pensando bem, talvez até se possa comprar o espírito de Natal, não com 11 euros, mas com sorriso envergonhado e um gesto desastrado.
Obrigado, amigo. Talvez ainda haja esperança para mim.
Feliz Natal (ao som de Miles Davis)
Pois, como as coisas mudam. Dizem que um tipo nunca deve perder a capacidade de se surpreender. Pois, acho que ainda mantenho essa, já não tenho é a capacidade de me desiludir.
O Natal é a festa da família. Já praticamente não tenho família. Ok, tenho a minha mãe. O problema é que ela também está um pouco morta.
O Natal é a festa da família. Para mim já não é nada.
Este ano tentei, juro que tentei: este ano, pela primeira vez desde a morte do meu irmão, há sete anos, comprei uma árvore enorme, atirei-me às prateleiras das grandes superfícies comerciais a comprar enfeites e estive até às três da manhã a decorá-la. Ficou bonita mas não se pode enganar o espírito de Natal, não se pode comprá-lo.
Na verdade, todos os dias tenho assistido a procissões na Segunda Circular a caminho do Colombo a tentar comprar o espírito de Natal. Em tantos anos nunca vi uma voragem consumista tão grande, tanta gente embrenhada nas compras. Querem-nos vender o Natal e nós compramos, satisfeitos.
Só que amigos, não é assim tão fácil. Pois não. Ontem um amigo deu-me um CD do Miles Davis. Uma prenda desastrada entre dois tipos que não estão habituados a ter esse tipo de gesto entre si. E tão desastrada foi que o CD ainda trazia o preço: 11 euros.
Foi o momento mais próximo que tive de Natal nos últimos anos. Afinal, pensando bem, talvez até se possa comprar o espírito de Natal, não com 11 euros, mas com sorriso envergonhado e um gesto desastrado.
Obrigado, amigo. Talvez ainda haja esperança para mim.
Feliz Natal (ao som de Miles Davis)
segunda-feira, novembro 27, 2006
Não entendo
Lembro-me da primeira vez que, de facto, reparei no André. Foi nos primeiros tempos na redacção do Record, eu estava a fazer a reportagem de um jogo de hóquei em patins no antigo Pavilhão da Luz; há uma jogada polémica e toda a gente no público se levanta a gritar com o árbitro. Não sei bem porquê o meu olhar demorou um pouco tempo mais no André, irado, aos gritos, figura familiar mas ao mesmo tempo bem diversa daquela que já tinha visto sentado ao computador na secção "online", naquele tempo bem mais povoada.
No dia seguinte não perdi tempo e fui meter-me com ele: "Com que então o 'nosso' Benfica, hein...?" Foi o princípio de uma sincera amizade.
O André era um tipo tímido mas afável, um coração grande que apesar dos anos que partilhámos a trabalhar na mesma casa, apesar das conversas que tínhamos, da cumplicidade que floresceu com o tempo e que começou com uma conversa sobre o "nosso" Benfica, nunca cheguei a conhecer bem. Não tivemos tempo.
E tu, meu querido César? Que raio de filme absurdo é este? Não é um daqueles milhares que tu, apaixonado pelo cinema, viste, pois não?
Trabalhámos no mesmo jornal durante 7 anos, foste das primeiras pessas que conheci no Record, e desde há cerca de um ano e meio que estávamos (literalmente) lado a lado no mesmo projecto, a DEZ, a nossa DEZ. E, sabes, nunca me cansei de admirar a tua imaginação delirante, a tua coragem em assumir projectos que os mais ortodoxos apelidavam de "maluquices". Eram "maluquices", sim, de um maluco genial, daquele género de que o mundo precisa cada vez mais.
Estive no teu último aniversário. 34 anos. Só. E foi mesmo o teu último aniversário. Foi ali, naquele indiano do Bairro Alto que conhecias tão bem, trocando impressões sobre viagens com o dono, teu amigo. Falavas da Índia e do projecto de voltar à Patagónia. Bolas, amigo, cheguei a dizer-te que se estivesse de férias agora até ia contigo. O que são as coisas, amigo, o que são as coisas...
Estou aqui sentado, ao lado do teu lugar vazio, sem conseguir conceber que nunca mais verei a tua figura esguia debruçada no computador, o teu sorriso tranquilo ou aquele tique que tinhas com as mãos quando estavas a pensar em mais algums ideia brilhante ou, simplesmente, a tentar soltar a tensão com que, todos os dias, nos batemos.
Já perdi muita gemte querida, demais para uma vida só. Devia ser proibido. Só que custa muito, custa muito mais porque me faz perguntar o que é que Ele estava a fazer, o que é que Ele estava a pensar? Quando levou o meu irmão, quando vos levou a vocês, amigos. Todos jovens, todos cheios de vontade de viver.
No dia a seguir ao vosso acidente, também no Chile, Augusto Pinochet celebrava o 91º aniversário.
Eu estive no teu último, César. Não sabia, mas era mesmo o teu último. Tinhas só 34.
Não entendo. Perdoa-me mas não Te entendo.
No dia seguinte não perdi tempo e fui meter-me com ele: "Com que então o 'nosso' Benfica, hein...?" Foi o princípio de uma sincera amizade.
O André era um tipo tímido mas afável, um coração grande que apesar dos anos que partilhámos a trabalhar na mesma casa, apesar das conversas que tínhamos, da cumplicidade que floresceu com o tempo e que começou com uma conversa sobre o "nosso" Benfica, nunca cheguei a conhecer bem. Não tivemos tempo.
E tu, meu querido César? Que raio de filme absurdo é este? Não é um daqueles milhares que tu, apaixonado pelo cinema, viste, pois não?
Trabalhámos no mesmo jornal durante 7 anos, foste das primeiras pessas que conheci no Record, e desde há cerca de um ano e meio que estávamos (literalmente) lado a lado no mesmo projecto, a DEZ, a nossa DEZ. E, sabes, nunca me cansei de admirar a tua imaginação delirante, a tua coragem em assumir projectos que os mais ortodoxos apelidavam de "maluquices". Eram "maluquices", sim, de um maluco genial, daquele género de que o mundo precisa cada vez mais.
Estive no teu último aniversário. 34 anos. Só. E foi mesmo o teu último aniversário. Foi ali, naquele indiano do Bairro Alto que conhecias tão bem, trocando impressões sobre viagens com o dono, teu amigo. Falavas da Índia e do projecto de voltar à Patagónia. Bolas, amigo, cheguei a dizer-te que se estivesse de férias agora até ia contigo. O que são as coisas, amigo, o que são as coisas...
Estou aqui sentado, ao lado do teu lugar vazio, sem conseguir conceber que nunca mais verei a tua figura esguia debruçada no computador, o teu sorriso tranquilo ou aquele tique que tinhas com as mãos quando estavas a pensar em mais algums ideia brilhante ou, simplesmente, a tentar soltar a tensão com que, todos os dias, nos batemos.
Já perdi muita gemte querida, demais para uma vida só. Devia ser proibido. Só que custa muito, custa muito mais porque me faz perguntar o que é que Ele estava a fazer, o que é que Ele estava a pensar? Quando levou o meu irmão, quando vos levou a vocês, amigos. Todos jovens, todos cheios de vontade de viver.
No dia a seguir ao vosso acidente, também no Chile, Augusto Pinochet celebrava o 91º aniversário.
Eu estive no teu último, César. Não sabia, mas era mesmo o teu último. Tinhas só 34.
Não entendo. Perdoa-me mas não Te entendo.
quinta-feira, outubro 05, 2006
A triste sina de uma estrela porno
Nos primeiros anos do nosso périplo por este planeta de loucos, todos enfrentamos um sacramental questionário, atirado por tudo e por todos: começa com o "como te chamas" e passa pelo "quantos anos tens", sendo que nesta fase da conversa o progenitor que nos acompanha estimula-nos a esticar os deditos necessários até cumprir o diminuto total.
Então, dependendo do número de falanges orgulhosamente estendidas, a grande e definidora questão: "O que queres ser quando fores grande?"
Bem, no meu tempo, a malta dizia coisas como bombeiro, futebolista, astronauta, respostas que depois evoluiam para profissões mais consentâneas com as aspirações dos paizinhos: médico, advogado, arquitecto...enfim.
No meu caso, devo dizer que, acreditem ou não, a resposta que me lembro de dar por volta dos 10 anos era "arqueólogo". Coisas de quem lia coisas inadequadas para a idade e não tinha pais que lhe impusessem as suas expectativas.
Mas agora demos um salto até à adolescência. Aquela idade em que vivemos todos sob o efeito de um caldo hormonal que dita todas as acções e pensamentos. Pensamentos?, ok, um pensamento: Sexo (deliberadamente em caixa alta).
Então, se alguém perguntasse ao típico adolescente o que ele queria ser, a resposta seria em 9 de 10 casos: estrela porno.
A lógica era inatacável: o que o adolescente mais desejava era sexo e se havia uma carreira em que lhe pagavam para fazer o que ele mais queria, então, citando o grande Paulo Futre...espectáculo.
Só mais tarde o puto sabia que essa coisa de ser estrela porno não era a melhor profisssão do mundo, longe disso. Implicava "actuar" a pedido, debaixo de luzes sufocantes, em estúdios infectos, com uma câmara quase enfiada no rabo, uma dúzia de espectadores (a equipa técnica) a dar palpites e tudo isto com uma gaja meio pedrada que estava ali a fazer o frete.
Não, não era o que ele esperava.
Passou-se mais ao menos isto comigo. Só que eu realizei o sonho. Não, não me tornei estrela porno. Tornei-me jornalista.
Para quem acha que tem de voltar a ler o texto porque perdeu alguma linha, eu explico:
Quando percebi que não poderia ser professor de filosofia porque não tinha paciência para tirar o curso nem feitio para estar à espera de colocação em Freixo de Espada à Cinta, tive de pensar em alternativas. Então ocorreu-me: que tal ser jornalista, uma profisssão em que te pagam para fazeres algo que adoras, escrever? Pensei que tinha descoberto a pólvora, o crime perfeito.
Pois foi o crime perfeito mas em que a vítima sou eu. Também aqui temos de actuar a pedido, também aqui temos de estar com "actrizes" (temas ou pessoas) que não interessam a ninguém e nos tratam como um meio para chegar a um fim, também aqui o prazer se perde.
Escrever é como fazer amor. Jornalismo é, cada vez mais, pornografia. Ou, a espaços, a mais básica prostituição. Mesmo que aqui e ali tenhamos um orgasmo barato.
Uma triste lição. Só me resta o consolo de uma reforma afortunadamente antecipada. Para breve.
Então, dependendo do número de falanges orgulhosamente estendidas, a grande e definidora questão: "O que queres ser quando fores grande?"
Bem, no meu tempo, a malta dizia coisas como bombeiro, futebolista, astronauta, respostas que depois evoluiam para profissões mais consentâneas com as aspirações dos paizinhos: médico, advogado, arquitecto...enfim.
No meu caso, devo dizer que, acreditem ou não, a resposta que me lembro de dar por volta dos 10 anos era "arqueólogo". Coisas de quem lia coisas inadequadas para a idade e não tinha pais que lhe impusessem as suas expectativas.
Mas agora demos um salto até à adolescência. Aquela idade em que vivemos todos sob o efeito de um caldo hormonal que dita todas as acções e pensamentos. Pensamentos?, ok, um pensamento: Sexo (deliberadamente em caixa alta).
Então, se alguém perguntasse ao típico adolescente o que ele queria ser, a resposta seria em 9 de 10 casos: estrela porno.
A lógica era inatacável: o que o adolescente mais desejava era sexo e se havia uma carreira em que lhe pagavam para fazer o que ele mais queria, então, citando o grande Paulo Futre...espectáculo.
Só mais tarde o puto sabia que essa coisa de ser estrela porno não era a melhor profisssão do mundo, longe disso. Implicava "actuar" a pedido, debaixo de luzes sufocantes, em estúdios infectos, com uma câmara quase enfiada no rabo, uma dúzia de espectadores (a equipa técnica) a dar palpites e tudo isto com uma gaja meio pedrada que estava ali a fazer o frete.
Não, não era o que ele esperava.
Passou-se mais ao menos isto comigo. Só que eu realizei o sonho. Não, não me tornei estrela porno. Tornei-me jornalista.
Para quem acha que tem de voltar a ler o texto porque perdeu alguma linha, eu explico:
Quando percebi que não poderia ser professor de filosofia porque não tinha paciência para tirar o curso nem feitio para estar à espera de colocação em Freixo de Espada à Cinta, tive de pensar em alternativas. Então ocorreu-me: que tal ser jornalista, uma profisssão em que te pagam para fazeres algo que adoras, escrever? Pensei que tinha descoberto a pólvora, o crime perfeito.
Pois foi o crime perfeito mas em que a vítima sou eu. Também aqui temos de actuar a pedido, também aqui temos de estar com "actrizes" (temas ou pessoas) que não interessam a ninguém e nos tratam como um meio para chegar a um fim, também aqui o prazer se perde.
Escrever é como fazer amor. Jornalismo é, cada vez mais, pornografia. Ou, a espaços, a mais básica prostituição. Mesmo que aqui e ali tenhamos um orgasmo barato.
Uma triste lição. Só me resta o consolo de uma reforma afortunadamente antecipada. Para breve.
sexta-feira, setembro 29, 2006
LSP
Não, não é uma droga sintética nova. L.S.P. aka Late Surf Project. Uma expressão que um outro amigo na vizinhança dos 30, e que agora começou a fazer-se às ondas, me ensinou.
Os 30 têm esta grande virtude: é a idade em que (se tudo correr bem) um tipo obtém alguma independência financeira e estabilidade que lhe permite abraçar projectos que até ali tinha andado a adiar.
Os mais atentos sabem que fazer 30 anos foi pouco menos que um drama para este vosso ilustre, mas confesso agora que me está a sabere bem. Estou livre, (relativamente) equilibrado, tenho uma casa de que gosto muito, algum dinheiro no bolso, uma carreira que apesar de alguma saturação ainda vai dando, aqui e ali, um certo gozo...enfim, estou no "top of my game", no auge da forma, se quiserem.
Esta é a idade para aproveitar e cumprir os Late qualquer coisa projects que tínhamos na manga há tanto tempo. Pelo menos os mais fáceis. Há aí malucos que, por exemplo, desataram a ter filhos. Gabo-lhes a coragem e espero que tenham sucesso no caso de tentarem ser "Very Late qualquer coisa Projects". Porque a vida não espera por ninguém.
Os 30 têm esta grande virtude: é a idade em que (se tudo correr bem) um tipo obtém alguma independência financeira e estabilidade que lhe permite abraçar projectos que até ali tinha andado a adiar.
Os mais atentos sabem que fazer 30 anos foi pouco menos que um drama para este vosso ilustre, mas confesso agora que me está a sabere bem. Estou livre, (relativamente) equilibrado, tenho uma casa de que gosto muito, algum dinheiro no bolso, uma carreira que apesar de alguma saturação ainda vai dando, aqui e ali, um certo gozo...enfim, estou no "top of my game", no auge da forma, se quiserem.
Esta é a idade para aproveitar e cumprir os Late qualquer coisa projects que tínhamos na manga há tanto tempo. Pelo menos os mais fáceis. Há aí malucos que, por exemplo, desataram a ter filhos. Gabo-lhes a coragem e espero que tenham sucesso no caso de tentarem ser "Very Late qualquer coisa Projects". Porque a vida não espera por ninguém.
sexta-feira, setembro 22, 2006
Meter água
Há dias em que não me apetece escrever nada porque não tenho nada para dizer; outros em que nada me suscita uma palavrinha que seja. Hoje não é definitivamente o segundo caso. Bem pelo contrário.
Podia falar do facto de o dia internacional sem carros ter sido o primeiro em que, de facto, tive dificuldade em encontrar sítio para estacionar, o que significa que não fui o único a violar o espírito do dia, mas isso suscitava um "post" muito próprio sobre a falta de transportes públicos de qualidade no acesso a Lisboa, etc e tal.
Podia falar da candidatura de LFV à presidência do Benfica... não, não há pachorra.
Podia falar da desilusão que me invade todos os dias quando confrontado com a mediocridade da generalidade da Imprensa portuguesa, mas isso dava um livro que acabaria com a minha reforma antecipada.
Mas nada disso. Amanhã espera-se ondulação de três metros na Costa da Caparica. Vou morrer agarrado à prancha. Afogado ou esborrachado numas pedras. Mas talvez seja bom, não tenho feitio para velho.
Se não, prometo que o próximo post será mais interessante.
Podia falar do facto de o dia internacional sem carros ter sido o primeiro em que, de facto, tive dificuldade em encontrar sítio para estacionar, o que significa que não fui o único a violar o espírito do dia, mas isso suscitava um "post" muito próprio sobre a falta de transportes públicos de qualidade no acesso a Lisboa, etc e tal.
Podia falar da candidatura de LFV à presidência do Benfica... não, não há pachorra.
Podia falar da desilusão que me invade todos os dias quando confrontado com a mediocridade da generalidade da Imprensa portuguesa, mas isso dava um livro que acabaria com a minha reforma antecipada.
Mas nada disso. Amanhã espera-se ondulação de três metros na Costa da Caparica. Vou morrer agarrado à prancha. Afogado ou esborrachado numas pedras. Mas talvez seja bom, não tenho feitio para velho.
Se não, prometo que o próximo post será mais interessante.
segunda-feira, agosto 28, 2006
Sem título
Gostava de dizer que sinto
Mas não consigo
Gostava de dizer o quanto lamento
Juro-te que tento
Mas as cinzas que deixaste
Enchem a cova no meu peito
Asfixiam a vida, o alento
A chama, uma sombra
O fogo reduzido a nada
A memória de um sorriso
É sangue, escura, salgada
Grito de ódio impotente
Prisioneiro do conceito
Ditador, absurdo
Golpeio as paredes
Desta cela de dor
É verdade que partes?
É possível que abandones?
Sais do jogo sem acabar
Sais da vida sem jogar
Sais assim, sorrindo
O sorriso de sempre
Esse sorriso que só me faz
Chorar
Mas não consigo
Gostava de dizer o quanto lamento
Juro-te que tento
Mas as cinzas que deixaste
Enchem a cova no meu peito
Asfixiam a vida, o alento
A chama, uma sombra
O fogo reduzido a nada
A memória de um sorriso
É sangue, escura, salgada
Grito de ódio impotente
Prisioneiro do conceito
Ditador, absurdo
Golpeio as paredes
Desta cela de dor
É verdade que partes?
É possível que abandones?
Sais do jogo sem acabar
Sais da vida sem jogar
Sais assim, sorrindo
O sorriso de sempre
Esse sorriso que só me faz
Chorar
quinta-feira, agosto 24, 2006
News(?) magazines
Tenho de começar por dizer que apesar de estar na profissão e até ter colaborado algumas vezes para a revista Sábado (ninguém é perfeito), nunca fui fã das chamadas "news magazines".
No entanto, também por força das tais colaborações para a Sábado, e por receber gratuitamente aqui no meu estaminé tanto a Sábado como a Visão, comecei a prestar um pouco mais de atenção a este tipo de publicação.
E, repito, é verdade que nunca fui fã destas revistas de informação, mas de quando em quando comprava a Visão e era uma publicação que eu respeitava.
Pois, "respeitava", porque infelizmente as coisas estão a mudar. Desde que a Sábado apareceu, a concorrência feita à base de uma corrente pró-novo-rico arrastou a Visão para baixo. Assim, agora vemos, semana após semana, as capas com os roteiros de luxo no Alentejo, os hotéis de charme, os hóteis de luxo, as melhores praias...e a Visão que tenta resistir acaba por ir atrás, esta semana, com "a moda de ter casa no Brasil". Isto numa entrevista com o Nobel da literatura confessado ex-SS, Günter Grass.
Enfim, é o jornalismo que temos e o que cada vez mais penso abandonar.
No entanto, também por força das tais colaborações para a Sábado, e por receber gratuitamente aqui no meu estaminé tanto a Sábado como a Visão, comecei a prestar um pouco mais de atenção a este tipo de publicação.
E, repito, é verdade que nunca fui fã destas revistas de informação, mas de quando em quando comprava a Visão e era uma publicação que eu respeitava.
Pois, "respeitava", porque infelizmente as coisas estão a mudar. Desde que a Sábado apareceu, a concorrência feita à base de uma corrente pró-novo-rico arrastou a Visão para baixo. Assim, agora vemos, semana após semana, as capas com os roteiros de luxo no Alentejo, os hotéis de charme, os hóteis de luxo, as melhores praias...e a Visão que tenta resistir acaba por ir atrás, esta semana, com "a moda de ter casa no Brasil". Isto numa entrevista com o Nobel da literatura confessado ex-SS, Günter Grass.
Enfim, é o jornalismo que temos e o que cada vez mais penso abandonar.
segunda-feira, agosto 14, 2006
Ressaca da ressaca
Antes de mais, um pedido de desculpas. A ninguém em particular, ao tipo que um dia disse "não me arrependo de nada porque aprendo com os meus erros". Pois aprendo e é por isso que não me arrependo mesmo de nada. Se quiserem, desculpa Paula e, sobretudo, desculpa Hugo. Porque apesar dos nossos atritos (muitos, chatos, mas sempre pequenos), se me mentiste alguma vez, nunca me enganaste. Temos as nossas merdas, mas eu não me esqueço que já chorámos juntos.Ok, estávamos perdidamente bêbados, mas não há nada, mas mesmo nada que alguma vez me faça esquecer isso.
Porque o passado já foi, e os meus amigos não são os que não erram mas os que, errando, também estão cá para me corrigir quando sou eu que me engano.
Porque o passado já foi, e os meus amigos não são os que não erram mas os que, errando, também estão cá para me corrigir quando sou eu que me engano.
sexta-feira, agosto 11, 2006
Dia 11
Hoje apetecia-me escrever. Isso, só por si, é um acontecimento se se tiver em conta a saturação mental e física que me tem afligido nos últimos tempos.
A verdade é que não podia deixar passar este dia em branco.
Dia 11 de Agosto.
Porque ontem se recordou outro 11, o de Setembro, com mais uma gigantesca campanha de publicidade à estupidez e à selvajaria humana ( ?) a ser evitada.
Porque hoje dei uma volta por Leiria e Alcobaça e vi outra campanha, desta vez, levada às últimas consequências: os incêndios que o ministro António Costa diz serem obra da negligência. Eu permito-me corrigir: do crime. Como de costume.
Porque passei por uma territa que por mero acaso acabou por ser marcante na minha vida. Porque permanece símbolo de um conjunto de amizades estéreis. E doeu porque uma época que parecia tão bela deixa agora um travo amargo a desilusão e engano.
Chama-se Montes. De cacos de sonhos de juventude perdida.
Finalmente:
Porque dia 11 de Agosto já foi sinónimo de sorrisos, festa, felicidade.
Porque o meu irmão faria hoje 30 anos.
Trinta anos. A nova idade da razão. Não lhe assentaria bem.
Vai fazer sete anos que ele partiu. De forma tão estúpida.
Trinta anos. Porra, o puto faria 30 anos.
Não consigo deixar de pensar: quem serias tu hoje? Serias pai, serias magro, gordo, casado, solteiro, divorciado? Serias desempregado, rico, pobre, empregado, patrão, mais maduro, mais louco... serias feliz?
Não sei. Um dia destes alguém me disse que "pensava que eu já estava mais maduro". Ri-me. Como se soubessem o que é isso, essa noção que inventam, essa vida que inventam. Esses castelos de areia que constroem à beira da água.
E tu, puto, serias "maduro"? Não sei.
Mas de uma coisa sei: hoje, como ontem, como amanhã. Tu és o meu irmão, o meu puto, o meu mano.
O resto são os tais castelos à beira da água. O resto são cacos num lugarejo chamado Montes. Cacos de juventude. Montes. De nada.
A verdade é que não podia deixar passar este dia em branco.
Dia 11 de Agosto.
Porque ontem se recordou outro 11, o de Setembro, com mais uma gigantesca campanha de publicidade à estupidez e à selvajaria humana ( ?) a ser evitada.
Porque hoje dei uma volta por Leiria e Alcobaça e vi outra campanha, desta vez, levada às últimas consequências: os incêndios que o ministro António Costa diz serem obra da negligência. Eu permito-me corrigir: do crime. Como de costume.
Porque passei por uma territa que por mero acaso acabou por ser marcante na minha vida. Porque permanece símbolo de um conjunto de amizades estéreis. E doeu porque uma época que parecia tão bela deixa agora um travo amargo a desilusão e engano.
Chama-se Montes. De cacos de sonhos de juventude perdida.
Finalmente:
Porque dia 11 de Agosto já foi sinónimo de sorrisos, festa, felicidade.
Porque o meu irmão faria hoje 30 anos.
Trinta anos. A nova idade da razão. Não lhe assentaria bem.
Vai fazer sete anos que ele partiu. De forma tão estúpida.
Trinta anos. Porra, o puto faria 30 anos.
Não consigo deixar de pensar: quem serias tu hoje? Serias pai, serias magro, gordo, casado, solteiro, divorciado? Serias desempregado, rico, pobre, empregado, patrão, mais maduro, mais louco... serias feliz?
Não sei. Um dia destes alguém me disse que "pensava que eu já estava mais maduro". Ri-me. Como se soubessem o que é isso, essa noção que inventam, essa vida que inventam. Esses castelos de areia que constroem à beira da água.
E tu, puto, serias "maduro"? Não sei.
Mas de uma coisa sei: hoje, como ontem, como amanhã. Tu és o meu irmão, o meu puto, o meu mano.
O resto são os tais castelos à beira da água. O resto são cacos num lugarejo chamado Montes. Cacos de juventude. Montes. De nada.
sexta-feira, julho 28, 2006
Buraco
Hoje estou no buraco. Preso ao ecrã branco luto do processador de texto, tento ultrapassar o bloqueio e escrever algo que não me envergonhe quando sair para as bancas, de sábado a oito.
Impossível.
Impossível.
terça-feira, junho 06, 2006
Caça-fantasmas
Ninguém acredita nas instituições, está certo. Mas porque é que se chegou a este ponto? Porque as coisas não funcionam ou funcionam tão mal que chegam a paroxismos de anedota.
Hoje fui a casa da minha mãe e encontrei-a de cabeça perdida, indignada, furiosa. Antes de ter percebido o que se passava, dou com um postal da PSP, da Divisão de Investigação Criminal. Uma convocatória para o meu irmão.
Um pouco mais calma, a minha mãe explicou-me que já tinha telefonado para a PSP e falado com o agente encarregado do processo. De acordo com o agente Parada (cerebral), o meu irmão estava a ser acusado da autoria de um furto cometido em 2004.
Falta esclarecer que o meu irmão, Mário José Velez Monteiro Mariano, perfeitamente identificado no postal da convocatória, faleceu em 1999, cinco anos antes do alegado furto.
Ora, como se isso já não fosse suficiente, o agente Parada (cerebral) ainda perguntou à minha mãe onde é que o "autor do furto" estava enterrado. Como se a senhora o estivesse a enganar.
Porra! Quem é que são os atrasados mentais que se fazem passar pela autoridade neste país?! Quem são os filhos de uma puta que não sabem o que é ser uma mãe e perder um filho. Espero sinceramente que o mesmo não aconteça ao agente Parada (cerebral). Sem ironia. Para que nunca ninguém lhe pergunte onde é que parte dele está enterrada.
Hoje fui a casa da minha mãe e encontrei-a de cabeça perdida, indignada, furiosa. Antes de ter percebido o que se passava, dou com um postal da PSP, da Divisão de Investigação Criminal. Uma convocatória para o meu irmão.
Um pouco mais calma, a minha mãe explicou-me que já tinha telefonado para a PSP e falado com o agente encarregado do processo. De acordo com o agente Parada (cerebral), o meu irmão estava a ser acusado da autoria de um furto cometido em 2004.
Falta esclarecer que o meu irmão, Mário José Velez Monteiro Mariano, perfeitamente identificado no postal da convocatória, faleceu em 1999, cinco anos antes do alegado furto.
Ora, como se isso já não fosse suficiente, o agente Parada (cerebral) ainda perguntou à minha mãe onde é que o "autor do furto" estava enterrado. Como se a senhora o estivesse a enganar.
Porra! Quem é que são os atrasados mentais que se fazem passar pela autoridade neste país?! Quem são os filhos de uma puta que não sabem o que é ser uma mãe e perder um filho. Espero sinceramente que o mesmo não aconteça ao agente Parada (cerebral). Sem ironia. Para que nunca ninguém lhe pergunte onde é que parte dele está enterrada.
segunda-feira, maio 22, 2006
Fraquinho...
Quinto dia do pós-operatório. São cinco dias e meio a comer nada mais que sopa morna, iogurtes e gelado. Estou farto. Mas, mais importante, estou fraco. Não sou de medir calorias mas não é difícil perceber que se se passa de 5 refeições diárias bem nutritivas para um fluxo intermitente de sopa e iogurtes líquidos, o corpinho ressente-se.
Em suma, não posso com uma gata pelo rabo.
Em suma, não posso com uma gata pelo rabo.
terça-feira, maio 09, 2006
Prego a fundo
Tenho pouco tempo e paciência, por isso vou ser breve no boletim informativo:
1)Participei na Vodafone Cup, prova de automobilismo de resistência (6 horas) no circuito de Jerez de La Frontera. Uma experiência alucinante que ficou documentada nas páginas da Record DEZ do último sábado.
2) Vou regressar a Jerez, desta feita a convite da Porsche, para testar o novo 911. Estou ansioso. Afinal, nada como um "test drive" antes de comprar :)
3) Este sábado vou ao Guincho deixar-me apanhar por umas ondas. Quem quiser rir-se um pouco está convidado.
4) Até já
1)Participei na Vodafone Cup, prova de automobilismo de resistência (6 horas) no circuito de Jerez de La Frontera. Uma experiência alucinante que ficou documentada nas páginas da Record DEZ do último sábado.
2) Vou regressar a Jerez, desta feita a convite da Porsche, para testar o novo 911. Estou ansioso. Afinal, nada como um "test drive" antes de comprar :)
3) Este sábado vou ao Guincho deixar-me apanhar por umas ondas. Quem quiser rir-se um pouco está convidado.
4) Até já
terça-feira, abril 11, 2006
Para os nostálgicos
Sim, Hugo, porque não és só tu que tem saudades do passado, aqui vai:
www.misteriojuvenil.com
Para o pessoal que já dobrou os 30 ou está lá quase.
www.misteriojuvenil.com
Para o pessoal que já dobrou os 30 ou está lá quase.
segunda-feira, abril 03, 2006
Outra vez??
Este é um tema que não queria voltar a abordar neste espaço, mas sou obrigado pelo mau gosto e pura e simples estupidez de alguns auto-intitulados "defensores da vida".
Falo do aborto, da sua eventual despenalização, e de todos os que irracionalmente confundem despenalização com "incentivo".
O que me leva a passar por este caminho escorregadio é uma série de cartazes espalhados perto do meu local de trabalho. Os ditos cartazes mostram aquilo que alegadamente será um feto humano (duvidoso) e atiram com a frase: "Se está a ler isto é porque não foi abortado" (mais ou menos isto, porque não consegui olhar duas vezes para aquela barbaridade).
Quem é que esta gente pensa que é?!
Quem lhes deu o direito de falarem pelos outros, arrogarem-se de serem donos da vida alheia?
Quem lhes deu o direito de nos insultar com imagens despropositadas e chocantes?
Lembra-me certa vez em que numa conhecida perfumaria fui preesennteado "de brinde", com um dos célebres bonecos que, dizia em mensagem anexa, representava um feto humano (em tamanho real).
A hipocrisia continua.
Falo do aborto, da sua eventual despenalização, e de todos os que irracionalmente confundem despenalização com "incentivo".
O que me leva a passar por este caminho escorregadio é uma série de cartazes espalhados perto do meu local de trabalho. Os ditos cartazes mostram aquilo que alegadamente será um feto humano (duvidoso) e atiram com a frase: "Se está a ler isto é porque não foi abortado" (mais ou menos isto, porque não consegui olhar duas vezes para aquela barbaridade).
Quem é que esta gente pensa que é?!
Quem lhes deu o direito de falarem pelos outros, arrogarem-se de serem donos da vida alheia?
Quem lhes deu o direito de nos insultar com imagens despropositadas e chocantes?
Lembra-me certa vez em que numa conhecida perfumaria fui preesennteado "de brinde", com um dos célebres bonecos que, dizia em mensagem anexa, representava um feto humano (em tamanho real).
A hipocrisia continua.
segunda-feira, março 27, 2006
"Eles não gostam de celulite"
Confesso que a primeira vez que vi este anúncio ia tendo um acidente. Não porque tenha ficado encantado com a espampanante loura de bikini que o ilustra mas porque quando percebi do que se tratava, ia tendo uma apoplexia.
Com que então, "eles não gostam de celulite". Mas passou-me, afinal temos que conceder que os homossexuais também têm direito a publicidade específica. Hã, o quê? "Eles" não são homossexuais? Espera lá, agora é que não estou a perceber nada. É que só há uma hipótese de um gajo não deparar, de quando em quando, com um bocadinho de celulite. É só se dar com homens. Porque a biologia explica que a a celulite é uma consequência da existência de progestrona, a hormona responsável pelos caracteres femininos. Ou seja, a congénere da testosterona.
Com isto, diz-se que os seres humanos com maiores quantidades de progestrona têm, inevitavelmen te, celulite. Ou seja, as mulheres. Seja a peixeira do mercado ou a "top model" mais bem paga, todas a têm. Ok, só que umas mais que outras, afinal isso pode ser minimizado.
Com esta pequena explicação superficialmente científica quero dizer que os senhores publicitários que se lembraram de promover assim o tal instituto de beleza, são daquela espécie que dá mau nome à publicidade. Vender sonhos, ok, explorar as inseguranças de um determinado grupo é que é o diabo. E mais ainda quando esse grupo representa cerca de 50% da espécie humana.
"Eles não gostam de celulite"? Então "eles" não gostam de mulheres.
E sabem que mais? Eu não gosto é de estupidez, falsidade, hipocrisia, mentira, superficialidade, mediocridade. E infelizmente, ainda não há institutos nem clínicas para as tratar.
Com que então, "eles não gostam de celulite". Mas passou-me, afinal temos que conceder que os homossexuais também têm direito a publicidade específica. Hã, o quê? "Eles" não são homossexuais? Espera lá, agora é que não estou a perceber nada. É que só há uma hipótese de um gajo não deparar, de quando em quando, com um bocadinho de celulite. É só se dar com homens. Porque a biologia explica que a a celulite é uma consequência da existência de progestrona, a hormona responsável pelos caracteres femininos. Ou seja, a congénere da testosterona.
Com isto, diz-se que os seres humanos com maiores quantidades de progestrona têm, inevitavelmen te, celulite. Ou seja, as mulheres. Seja a peixeira do mercado ou a "top model" mais bem paga, todas a têm. Ok, só que umas mais que outras, afinal isso pode ser minimizado.
Com esta pequena explicação superficialmente científica quero dizer que os senhores publicitários que se lembraram de promover assim o tal instituto de beleza, são daquela espécie que dá mau nome à publicidade. Vender sonhos, ok, explorar as inseguranças de um determinado grupo é que é o diabo. E mais ainda quando esse grupo representa cerca de 50% da espécie humana.
"Eles não gostam de celulite"? Então "eles" não gostam de mulheres.
E sabem que mais? Eu não gosto é de estupidez, falsidade, hipocrisia, mentira, superficialidade, mediocridade. E infelizmente, ainda não há institutos nem clínicas para as tratar.
sexta-feira, março 24, 2006
A minha onda
Costumo dizer que a vida é regida por um senso de humor peculiar. Aos 15 anos fui trabalhar para uma fábrica de pão para ganhar uns trocos. Na altura, a minha grande ambição de adolescente era comprar uma prancha de bodyboard para poder rumar aos fins-de-semana até à Costa e apanhar umas ondas.
Entrava às 22h00 e saía às 09h00 da manhã. Era lixado para um puto chegar a casa e encontrar o irmão de pijama, cair na cama, ser acordado para almoçar, voltar a cair na cama e só sair um pouco a seguir ao jantar para poder estar a tempo de "pegar ao serviço".
Pois, numa altura em que o ordenado mínimo nacional era de cerca de 45 contos, mais coisa menos coisa, acabei por ser pago com uns miseráveis 26 contos e quinhentos. Foi a minha primeira experiência com as injustiças do sistema laboral. Afinal, o trabalho infantil tem destas coisas...
Escusado será dizer que nunca consegui o dinheiro suficiente. Mesmo trabalhando sempre até entrar para a faculdade, nunca consegui comprar a tal prancha.
Até que o ano passado, com a minha situação financeira muito diferente do puto que sacrificou os Verões da sua adolescência para perseguir uma onda, entrei numa loja e comprei tudo. Em meia-hora, a caça terminou.
Enfim, aos 30 anos comecei algo que devia ter começado aos 15. Quando se quer muito, a espera é irrelevante. Bem, quase.
Mas isto do bodyboard não é só material. Há que trabalhar para aprender. Há 15 dias, na Costa da Caparica, isso tornou-se dolorosamente evidente.
O mar estava mau; rebentação desordenada perto da praia , ondas decentes só muito longe, bem no "off-shore". Conclusão: uma trabalheira para lá chegar. Uma trabalheira dolorosa se se tiverem conta a temperatura da água. Em termos técnicos diz-se que estava "fria como o c#!@%&!!!).
Mas cheguei. O mar não estava especialmente grande. Cerca de metro e meio, mas com vagas muito cheias; verdadeiros autocarros verdes escuros.
E depois de algumas amostras mais ou menos conseguidas, depois de o meu parceiro de surfada ter apanhado a sua onda (a coisa estava tão má que praticamente só estávamos os dois na água), vi a minha presa. Um bicho! E já numa fase adiantada: ou a apanhava ou ela apanhava-me a mim.
Um duelo desvantajoso entre homem e parede de água. O primeiro golpe foi meu. Remei com raiva e apanhei a bicha. Mas o monstro virou o jogo cujas regras são, em última instância, dele. Fui levantado até ao lábio do monstro, no topo da onda e, num segundo penosamente longo, fitei a sua boca escancarada lá em baixo. Mergulhei.
Fui maltratado mas consegui não ir ao fundo de areia ( basta uma pedra lá em baixo e é a morte do artista). Pernas e braços arrastados em ângulos impossíveis durante mais tempo do que pensei ser possível, mas lá emergi. Consciente. A tempo de evitar o próximo edifício de água que caía.
Exausto e injectado de adrenalina até ao gargalo, cheguei à segurança da areia. Pernas a tremer do esforço, frio e medo, desato a rir que nem um perdido.
Tenho outra vez 15 anos e estou vivo. Mais vivo que nunca.
Entrava às 22h00 e saía às 09h00 da manhã. Era lixado para um puto chegar a casa e encontrar o irmão de pijama, cair na cama, ser acordado para almoçar, voltar a cair na cama e só sair um pouco a seguir ao jantar para poder estar a tempo de "pegar ao serviço".
Pois, numa altura em que o ordenado mínimo nacional era de cerca de 45 contos, mais coisa menos coisa, acabei por ser pago com uns miseráveis 26 contos e quinhentos. Foi a minha primeira experiência com as injustiças do sistema laboral. Afinal, o trabalho infantil tem destas coisas...
Escusado será dizer que nunca consegui o dinheiro suficiente. Mesmo trabalhando sempre até entrar para a faculdade, nunca consegui comprar a tal prancha.
Até que o ano passado, com a minha situação financeira muito diferente do puto que sacrificou os Verões da sua adolescência para perseguir uma onda, entrei numa loja e comprei tudo. Em meia-hora, a caça terminou.
Enfim, aos 30 anos comecei algo que devia ter começado aos 15. Quando se quer muito, a espera é irrelevante. Bem, quase.
Mas isto do bodyboard não é só material. Há que trabalhar para aprender. Há 15 dias, na Costa da Caparica, isso tornou-se dolorosamente evidente.
O mar estava mau; rebentação desordenada perto da praia , ondas decentes só muito longe, bem no "off-shore". Conclusão: uma trabalheira para lá chegar. Uma trabalheira dolorosa se se tiverem conta a temperatura da água. Em termos técnicos diz-se que estava "fria como o c#!@%&!!!).
Mas cheguei. O mar não estava especialmente grande. Cerca de metro e meio, mas com vagas muito cheias; verdadeiros autocarros verdes escuros.
E depois de algumas amostras mais ou menos conseguidas, depois de o meu parceiro de surfada ter apanhado a sua onda (a coisa estava tão má que praticamente só estávamos os dois na água), vi a minha presa. Um bicho! E já numa fase adiantada: ou a apanhava ou ela apanhava-me a mim.
Um duelo desvantajoso entre homem e parede de água. O primeiro golpe foi meu. Remei com raiva e apanhei a bicha. Mas o monstro virou o jogo cujas regras são, em última instância, dele. Fui levantado até ao lábio do monstro, no topo da onda e, num segundo penosamente longo, fitei a sua boca escancarada lá em baixo. Mergulhei.
Fui maltratado mas consegui não ir ao fundo de areia ( basta uma pedra lá em baixo e é a morte do artista). Pernas e braços arrastados em ângulos impossíveis durante mais tempo do que pensei ser possível, mas lá emergi. Consciente. A tempo de evitar o próximo edifício de água que caía.
Exausto e injectado de adrenalina até ao gargalo, cheguei à segurança da areia. Pernas a tremer do esforço, frio e medo, desato a rir que nem um perdido.
Tenho outra vez 15 anos e estou vivo. Mais vivo que nunca.
quarta-feira, março 22, 2006
Ridículos
O medo é das forças mais poderosas da psique humana. Eu tenho medo de muita coisa: medo de vespas, de alturas, medo de estar sozinho no mar, enfim, medo de muita coisa; alguns medos têm um fundo mais ou menos racional, outros nem por isso.
Todavia, há um medo que se sobrepõe a todos: medo do ridículo. E como se cai no ridículo, perguntam vocês?
De muitas maneiras. A pior, todavia, é mentir descaradamente, com mesuras e gentilezas, tecendo teias de hipocrisia tão diáfanas e transparentes como as das aranhas.
Detesto a hipocrisia, a falsidade, a lata de quem nos passa a mão pelo pêlo quando na realidade prefere ver-nos pelas costas. Ou não nos ver.
Só tenho pena de ser tão burro que só percebo a armadilha quando já lá caí. Várias vezes.
Enfim, acho que também lá cair tanta vez tem o seu quê de ridículo. E sendo assim já o fui. Também várias vezes. Porque há crimes em que a vítima é tão culpada quanto o criminoso.
Todavia, há um medo que se sobrepõe a todos: medo do ridículo. E como se cai no ridículo, perguntam vocês?
De muitas maneiras. A pior, todavia, é mentir descaradamente, com mesuras e gentilezas, tecendo teias de hipocrisia tão diáfanas e transparentes como as das aranhas.
Detesto a hipocrisia, a falsidade, a lata de quem nos passa a mão pelo pêlo quando na realidade prefere ver-nos pelas costas. Ou não nos ver.
Só tenho pena de ser tão burro que só percebo a armadilha quando já lá caí. Várias vezes.
Enfim, acho que também lá cair tanta vez tem o seu quê de ridículo. E sendo assim já o fui. Também várias vezes. Porque há crimes em que a vítima é tão culpada quanto o criminoso.
quinta-feira, março 16, 2006
Fim de tarde em Pozarevac
Estávamos em 2003. Ia como enviado especial à Jugoslávia para fazer a reportagem da participação do V.Guimarães numa eliminatória da "Top Teams Cup" de voleibol.
O destino era uma pequena localidade a cerca de 10o km de Belgrado chamada Pozarevac. Não sabia nada da terrinha, mas pressenti logo à chegada um ambiente estranho, opressivo. Primeiro pensei que talvez fosse o nevoeiro de tabaco à entrada do pavilhão, mas não, era qualquer coisa mais; o silêncio comprometido, o olhar dos mais velhos, que fixavam os estrangeiros como isso mesmo "estrangeiros". Não conseguíamos esquecer a nossa condição.
A atmosfera lembrava a época áurea do terror em Hollywood. Parecia quase normal que nos aparecesse o Boris Karloff ou o Christopher Lee enfeitados capa negra e caninos postiços.
Havia qualquer coisa. Como uma comichão que incomoda mas que não conseguimos localizar. Até que a peça que faltava no "puzzle" surgiu, da maneira mais prosaica: Uma tarja a anunciar uma festa numa discoteca local. Parecia estranho que houvesse uma discoteca num sítio tão cinzento. E no meio da conversa, a intervenção de um local:
--"É a discoteca do filho do Milosevic."
-- "De quem? Do Slobodan Milosevic?"
-- "Sim, esse mesmo. Nasceu aqui, não sabia?"
-- "Não, não sabia, mas agora faz sentido. Só não sei se foi a terra que transformou o tipo se foi a sina do tipo que marcou a terra."
Pozarevac. Nunca mais esqueci o nome, por muito que tentasse. E agora veio outra vez à baila. Como o local onde um dos demónios da História nasceu e onde será enterrado.
Pois, nunca mais esqueci Pozarevac. Esperemos que o Mundo também não esqueça, e que coloque este nome para aí ao lado de Auschwitz.
O destino era uma pequena localidade a cerca de 10o km de Belgrado chamada Pozarevac. Não sabia nada da terrinha, mas pressenti logo à chegada um ambiente estranho, opressivo. Primeiro pensei que talvez fosse o nevoeiro de tabaco à entrada do pavilhão, mas não, era qualquer coisa mais; o silêncio comprometido, o olhar dos mais velhos, que fixavam os estrangeiros como isso mesmo "estrangeiros". Não conseguíamos esquecer a nossa condição.
A atmosfera lembrava a época áurea do terror em Hollywood. Parecia quase normal que nos aparecesse o Boris Karloff ou o Christopher Lee enfeitados capa negra e caninos postiços.
Havia qualquer coisa. Como uma comichão que incomoda mas que não conseguimos localizar. Até que a peça que faltava no "puzzle" surgiu, da maneira mais prosaica: Uma tarja a anunciar uma festa numa discoteca local. Parecia estranho que houvesse uma discoteca num sítio tão cinzento. E no meio da conversa, a intervenção de um local:
--"É a discoteca do filho do Milosevic."
-- "De quem? Do Slobodan Milosevic?"
-- "Sim, esse mesmo. Nasceu aqui, não sabia?"
-- "Não, não sabia, mas agora faz sentido. Só não sei se foi a terra que transformou o tipo se foi a sina do tipo que marcou a terra."
Pozarevac. Nunca mais esqueci o nome, por muito que tentasse. E agora veio outra vez à baila. Como o local onde um dos demónios da História nasceu e onde será enterrado.
Pois, nunca mais esqueci Pozarevac. Esperemos que o Mundo também não esqueça, e que coloque este nome para aí ao lado de Auschwitz.
Vamos comê-los
Devo dizer que estou desiludido. Mas não muito. Não me surpreende que o Benfica tenha resultados pouco conseguidos. Estamos a falar de dois jogos (um empate com a Naval e uma derrota, com culpas do árbitro, ante o Vitória de Guimarães) com equipas manifestamente inferiores e fechadas lá atrás ou, como diria Mourinho, com o "autocarro à frente da baliza".
Isto nasce da própria anatomia do Benfica: uma equipa montada de trás para a frente, apoiada numa defesa coreácea, um meio-campo forte se bem que pouco criativo, e um ataque móvel e flexível mas com dificuldade no ataque planeado. Ou seja, o que se convencionou chamar uma equipa de contra-ataque. É por isso que se deu tão bem com equipas teoricamente mais fortes: Manchester United e Liverpool.
Quanto ao Barcelona, importa dizer que é uma equipa com "tracção à frente", que esbanja talento do meio-campo para diante mas que apresenta algumas lacunas na defesa. Em suma, um adversário ideal para um Benfica com um Simão, um Geovanni e um Miccoli em boa forma, apoiados na defesa brasileira e num meio-campo com Petit (obrigatório) e Beto ou Manuel Fernandes.
Tudo isto para dizer uma coisa: vamos comê-los. Agora só falta dar um tiro no joelho do Ronaldinho.
Isto nasce da própria anatomia do Benfica: uma equipa montada de trás para a frente, apoiada numa defesa coreácea, um meio-campo forte se bem que pouco criativo, e um ataque móvel e flexível mas com dificuldade no ataque planeado. Ou seja, o que se convencionou chamar uma equipa de contra-ataque. É por isso que se deu tão bem com equipas teoricamente mais fortes: Manchester United e Liverpool.
Quanto ao Barcelona, importa dizer que é uma equipa com "tracção à frente", que esbanja talento do meio-campo para diante mas que apresenta algumas lacunas na defesa. Em suma, um adversário ideal para um Benfica com um Simão, um Geovanni e um Miccoli em boa forma, apoiados na defesa brasileira e num meio-campo com Petit (obrigatório) e Beto ou Manuel Fernandes.
Tudo isto para dizer uma coisa: vamos comê-los. Agora só falta dar um tiro no joelho do Ronaldinho.
sexta-feira, março 10, 2006
Sorteio ingrato
Que porcaria de azar. Tinha que nos calhar o Barcelona para os quartos-de-final da Liga dos Campeões. É uma pena uma equipa com a categoria do Barça ter que ficar já pelo caminho.
quinta-feira, março 09, 2006
Vermelho e Negro
Vermelho e Negro. Duas cores que além de combinarem muito bem, reflectem o dia de hoje. Vermelho para o meu Benfica (cujo meio-sucesso não vou para já festejar por preferir esperar pela final) e negro de luto. Luto pelo 25 de Abril que o herdeiro (i)moral de Salazar subiu hoje ao poder.
quarta-feira, março 08, 2006
quinta-feira, fevereiro 16, 2006
Adeus, caracóis de prata
Lembras-te quando me levavas, pequeno e tímido, pela mão, nas tuas digressões pela cidade? O sítio que gostava mais era o mercado, "a praça", como ainda se chamava ao edifício mágico recheado de cores fortes, inundado pelo cheiro pungente e inconfundível do peixe, fruta e flores, todos casados numa atmosfera densa mas cristalina, partida aqui e ali pelo grito do pregão.
Depois, era a passagem pela Aurora florista, sempre à espera que a Belinha, a filha da simpática e rechonchuda senhora aparecesse. As febres da adolescência ainda estavam distantes, mas já pressentia naquela presença fresca um esboço das paixões que haveriam de sacudir o meu corpo adulto.
Inevitável também as visita ao senhor Isidro, "o bananeiro", comprar fruta, e ao depósito de pão da D. Marília para ir buscar a meia dúzia de papo-secos do costume, já para não falar nos deliciosos suspiros que se desfaziam na boca e ajudaram a uma infância e adolescência, bem,...robusta.
Foi também à porta da D. Marília que me ensinaste, à força do único estalo que me lembro, em 31 anos, ter recebido da tua mão (e se os merecia). Em causa estava um boneco do Super-Homem com pára-quedas. Foi a primeira e última birra de que me lembro.
Nunca me deste o tal boneco com pára-quedas, mas salvaste-me de cair muitas vezes. Foi a tua paciência e o teu carinho que me ensinou a amar as letras. Era um prazer ouvir-te ler-me as histórias do clube do rato Mickey que chegavam mensalmente pelo correio. Anos mais tarde, foste tu que me compraste o "Evangelho Segundo Jesus Cristo", o meu primeiro livro de adulto, longe dos clássicos de aventuras do Tom Sawyer, dos Três Mosqueteiros, ou do universo de Júlio Verne.
Lembro-me de, durante uma dessas digressões de compras quotidianas, me ter perdido de ti. Assustei-me e fui à tua procura. A primeira coisa que vi foram os teus caracóis prateados, sempre compostos e bem juntos num penteado disciplinado, como tu. A figura austera, sempre vestida de preto, num luto eterno pelo avô que não cheguei a conhecer, tinha guardada dentro dela um coração que amava o netinho como um filho nascido fora de tempo. Talvez por isso, às vezes dava comigo a chamar-te "mãe". Dizia que era engano, mas, se calhar, não.
Deus, o alívio que foi ver os teus caracóis de prata.
É essa a imagem que quero guardar de ti. Não quero sequer recordar muitas vezes a última vez que os nossos olhos se cruzaram, quando estavas já semi-paralisada e era eu a dar-te o comer à boca, devolvendo um gesto muitas vezes repetido no passado, quando o Carlos Mariano era apenas uma bola rechonchuda no teu colo; uma promessa de gente. Uma promessa que tenho medo de não ter cumprido como desejarias.
Não sabia que era o Adeus, avó, não sabia.
Mas foi. Perdoa mas não consigo ir ao hospital. Não consigo ir ver a tua casca, ali deitada na maca, suportada por máquinas e alimentada por tubos. Os médicos dizem que o AVC foi forte de mais, que o cérebro está morto e é só o coração que teimosamente resiste. Mas sempre fomos assim, né, querida? Dois corações teimosos que não sabem desistir.
Mas podes descansar, podes ir, o meu baterá por ti...mãe.
Depois, era a passagem pela Aurora florista, sempre à espera que a Belinha, a filha da simpática e rechonchuda senhora aparecesse. As febres da adolescência ainda estavam distantes, mas já pressentia naquela presença fresca um esboço das paixões que haveriam de sacudir o meu corpo adulto.
Inevitável também as visita ao senhor Isidro, "o bananeiro", comprar fruta, e ao depósito de pão da D. Marília para ir buscar a meia dúzia de papo-secos do costume, já para não falar nos deliciosos suspiros que se desfaziam na boca e ajudaram a uma infância e adolescência, bem,...robusta.
Foi também à porta da D. Marília que me ensinaste, à força do único estalo que me lembro, em 31 anos, ter recebido da tua mão (e se os merecia). Em causa estava um boneco do Super-Homem com pára-quedas. Foi a primeira e última birra de que me lembro.
Nunca me deste o tal boneco com pára-quedas, mas salvaste-me de cair muitas vezes. Foi a tua paciência e o teu carinho que me ensinou a amar as letras. Era um prazer ouvir-te ler-me as histórias do clube do rato Mickey que chegavam mensalmente pelo correio. Anos mais tarde, foste tu que me compraste o "Evangelho Segundo Jesus Cristo", o meu primeiro livro de adulto, longe dos clássicos de aventuras do Tom Sawyer, dos Três Mosqueteiros, ou do universo de Júlio Verne.
Lembro-me de, durante uma dessas digressões de compras quotidianas, me ter perdido de ti. Assustei-me e fui à tua procura. A primeira coisa que vi foram os teus caracóis prateados, sempre compostos e bem juntos num penteado disciplinado, como tu. A figura austera, sempre vestida de preto, num luto eterno pelo avô que não cheguei a conhecer, tinha guardada dentro dela um coração que amava o netinho como um filho nascido fora de tempo. Talvez por isso, às vezes dava comigo a chamar-te "mãe". Dizia que era engano, mas, se calhar, não.
Deus, o alívio que foi ver os teus caracóis de prata.
É essa a imagem que quero guardar de ti. Não quero sequer recordar muitas vezes a última vez que os nossos olhos se cruzaram, quando estavas já semi-paralisada e era eu a dar-te o comer à boca, devolvendo um gesto muitas vezes repetido no passado, quando o Carlos Mariano era apenas uma bola rechonchuda no teu colo; uma promessa de gente. Uma promessa que tenho medo de não ter cumprido como desejarias.
Não sabia que era o Adeus, avó, não sabia.
Mas foi. Perdoa mas não consigo ir ao hospital. Não consigo ir ver a tua casca, ali deitada na maca, suportada por máquinas e alimentada por tubos. Os médicos dizem que o AVC foi forte de mais, que o cérebro está morto e é só o coração que teimosamente resiste. Mas sempre fomos assim, né, querida? Dois corações teimosos que não sabem desistir.
Mas podes descansar, podes ir, o meu baterá por ti...mãe.
quarta-feira, janeiro 25, 2006
memória curta
Portugal é um país cheio de qualidades mas com um grande defeito: os portugueses.
Só assim se explica que 10 anos depois, o mesmo povo desmemoriado volte a eleger quem lhe fez tanto mal. É o grande amor que temos pelos ditadores. O povo português está cheio de saudades do Salazar e como o botas já a bateu, elegem o seu clone algarvio.
Eu por mim, apetece-me emigar para um país mais civilizado. Talvez o Burkina Faso.
Só assim se explica que 10 anos depois, o mesmo povo desmemoriado volte a eleger quem lhe fez tanto mal. É o grande amor que temos pelos ditadores. O povo português está cheio de saudades do Salazar e como o botas já a bateu, elegem o seu clone algarvio.
Eu por mim, apetece-me emigar para um país mais civilizado. Talvez o Burkina Faso.
sexta-feira, janeiro 06, 2006
Aos novos velhos amigos
Não queria começar este "post" com um lugar comum, mas, às vezes, é impossível evitar por isso, lá vai: A vida é uma montanha russa.
O ano de 2005 foi um ano especial porque (re)reencontrei (e não, não é erro, ela percebe), alguém que em tempos me marcou de forma muito significativa.
O reencontro foi atribulado, afinal, foram 15 anos e quando ela desapareceu do meu mapa (literalmente, pois sei agora que a moça esteve na Escócia, imagine-se), era pouco mais que uma criança com muita coisa para resolver e muito para crescer. Felizmente, o (re)reencontro foi mais suave. Ok, também teve algumas particularidades estranhas, mas também este ponto terá de ficar para uma qualquer biografia não autorizada :)
O certo é que hoje creio que posso dizer com alguma segurança que agora que os nossos caminhos se voltaram a cruzar, nunca mais vou permitir que ela desapareça assim do meu mapa. Até porque o meu mapa, assim como eu, cresceu significativamente.
Outra pessoa que reentrou no meu quotidiano também é um (re)reencontro. Este camarada, cúmplice, sacana, salafrário, judeu, amigo, irmão, também resolveu sair do meu mapa geográfico e foi para, imagine-se, Cabo Verde, mais precisamente para a ilha do Sal.
O reencontro foi inesquecível. Estava este vosso amigo em "stress" a tentar convencer um recepcionista de hotel a deixar-me usar a linha de fax para enviar um serviço, quando percebi uma figura sinistra que estava refastelada num sofá do "lobby". E só me apercebi da sua presença quando a dita personagem se levantou e se dirigiu para mium com um ar esgazeado. Não distingui imediatamente a sua identidade por tão improvável que seria a coincidência. Improvável mas possível. Era o dito salafrário! Abraços para aqui e gargalhadas para acolá, muitas perguntas depois percebi que o bandido estava a trabalhar em Cabo Verde, numa empresa de aluguer de automóveis. Perfeitamente instalado e adaptado.
Trocámos endereços de e-mail e a coisa ficou por aí. Só que há dois dias por outra coincidência recebi um e-mail do meu amigo. Está vivo, de boa saúde e respeitavelmente instalado, ainda, no Sal. Diz que só vem a Portugal entre Maio e Outubro, que o resto do ano na pátria lhe parece a Sibéria. De resto, continua o mesmo.
15 anos. 15 anos não são nada.
Com tudo isto, há uma frase que me martela insistentemente na cabeça: Afinal, há coisas que nunca mudam. Mesmo.
O ano de 2005 foi um ano especial porque (re)reencontrei (e não, não é erro, ela percebe), alguém que em tempos me marcou de forma muito significativa.
O reencontro foi atribulado, afinal, foram 15 anos e quando ela desapareceu do meu mapa (literalmente, pois sei agora que a moça esteve na Escócia, imagine-se), era pouco mais que uma criança com muita coisa para resolver e muito para crescer. Felizmente, o (re)reencontro foi mais suave. Ok, também teve algumas particularidades estranhas, mas também este ponto terá de ficar para uma qualquer biografia não autorizada :)
O certo é que hoje creio que posso dizer com alguma segurança que agora que os nossos caminhos se voltaram a cruzar, nunca mais vou permitir que ela desapareça assim do meu mapa. Até porque o meu mapa, assim como eu, cresceu significativamente.
Outra pessoa que reentrou no meu quotidiano também é um (re)reencontro. Este camarada, cúmplice, sacana, salafrário, judeu, amigo, irmão, também resolveu sair do meu mapa geográfico e foi para, imagine-se, Cabo Verde, mais precisamente para a ilha do Sal.
O reencontro foi inesquecível. Estava este vosso amigo em "stress" a tentar convencer um recepcionista de hotel a deixar-me usar a linha de fax para enviar um serviço, quando percebi uma figura sinistra que estava refastelada num sofá do "lobby". E só me apercebi da sua presença quando a dita personagem se levantou e se dirigiu para mium com um ar esgazeado. Não distingui imediatamente a sua identidade por tão improvável que seria a coincidência. Improvável mas possível. Era o dito salafrário! Abraços para aqui e gargalhadas para acolá, muitas perguntas depois percebi que o bandido estava a trabalhar em Cabo Verde, numa empresa de aluguer de automóveis. Perfeitamente instalado e adaptado.
Trocámos endereços de e-mail e a coisa ficou por aí. Só que há dois dias por outra coincidência recebi um e-mail do meu amigo. Está vivo, de boa saúde e respeitavelmente instalado, ainda, no Sal. Diz que só vem a Portugal entre Maio e Outubro, que o resto do ano na pátria lhe parece a Sibéria. De resto, continua o mesmo.
15 anos. 15 anos não são nada.
Com tudo isto, há uma frase que me martela insistentemente na cabeça: Afinal, há coisas que nunca mudam. Mesmo.
segunda-feira, janeiro 02, 2006
Ano Novo
Mastigadas as passas, emborcado o champanhe, vieram os abraços e os beijos. Acabou 2005, vem aí 2006.
Sensação estranha esta, a de parar para pensar. Estes truques do calendário fazem-nos cair na tentação de traçar objectivos e balanços. Como foi o ano que passou, o que esperamos para o ano que acaba de nascer.
Para 2006, apenas a certeza de que terei de ser operado. Nada de grave, mas muito chato. Sobre 2005, muita coisa. É normal ter mais a dizer sobre o passado do que sobre o futuro, é por isso que os velhos têm sempre muitas histórias.
2005 foi um ano muito bom: o primeiro ano de independência na minha casa; um ano de sucesso profissional, em que vi crescer um projecto editorial de grande pujança e que tenho o orgulho de integrar; um ano cheio de amor e amizade, em que reencontrei velhos amigos, em que conheci outros, em que percebi que outros ainda não o eram e que não merecia a pena lutar por quem não se mexe por nós; um ano de boas e más notícias; o ano em que comecei a entrever um bem-estar que há muito procuro.
Para 2006, bem, vou ser operado. Já sei que estou a ser chato e irritantemente medricas mas o que é que querem? É a única certeza para 2006 e, isso sim, é irritante.
Sensação estranha esta, a de parar para pensar. Estes truques do calendário fazem-nos cair na tentação de traçar objectivos e balanços. Como foi o ano que passou, o que esperamos para o ano que acaba de nascer.
Para 2006, apenas a certeza de que terei de ser operado. Nada de grave, mas muito chato. Sobre 2005, muita coisa. É normal ter mais a dizer sobre o passado do que sobre o futuro, é por isso que os velhos têm sempre muitas histórias.
2005 foi um ano muito bom: o primeiro ano de independência na minha casa; um ano de sucesso profissional, em que vi crescer um projecto editorial de grande pujança e que tenho o orgulho de integrar; um ano cheio de amor e amizade, em que reencontrei velhos amigos, em que conheci outros, em que percebi que outros ainda não o eram e que não merecia a pena lutar por quem não se mexe por nós; um ano de boas e más notícias; o ano em que comecei a entrever um bem-estar que há muito procuro.
Para 2006, bem, vou ser operado. Já sei que estou a ser chato e irritantemente medricas mas o que é que querem? É a única certeza para 2006 e, isso sim, é irritante.
quarta-feira, dezembro 28, 2005
Tumor
Tumor. A palavra é assustadora porque de tantas vezes ter sido utilizada como um eufemismo para cancro, acabou por lhe ficar umbilicalmente ligada.
Pois, mas a verdade é que tenho um. Um tumor. As palavras do dentista deixaram-me num transe meio pânico mas rapidamente explicou que não havia indícios de malignidade. Ou seja, nada aponta para que seja, pois, cancro.
Mas assusta.
Dizem agora que tenho que fazer uma operação em São José. Coisa com anestesia geral. "Implica abrir-lhe o palato e extrair a massa, o quisto"...pois, o tumor.
Assusta, pois assusta.
O médico diz que não corro risco significativo mas que terei mesmo de tratar isto o mais rapidamente possível. Diz para não me preocupar muito, mas para me preocupar. E estou preocupado.
Estou muito preocupado.
Que o pós-operatório será complicado, com 15 dias de "muito mal-estar", o que traduzindo quer dizer dor severa e dificuldades em alimentar-me, que só poderei "comer caldos e alimentos moles". Mas, sinceramente, nem me importo. Quero esta massa fora do meu corpo, este...tumor.
Confesso: estou com medo. Rio, brinco com isto mas estou com medo. "Não há sinais de malignidade." Uma única frase que me dá segurança, mesmo contra a que a completou: "Mas só teremos a certeza absoluta quando abrirmos." Pois...medo.
Pois, mas a verdade é que tenho um. Um tumor. As palavras do dentista deixaram-me num transe meio pânico mas rapidamente explicou que não havia indícios de malignidade. Ou seja, nada aponta para que seja, pois, cancro.
Mas assusta.
Dizem agora que tenho que fazer uma operação em São José. Coisa com anestesia geral. "Implica abrir-lhe o palato e extrair a massa, o quisto"...pois, o tumor.
Assusta, pois assusta.
O médico diz que não corro risco significativo mas que terei mesmo de tratar isto o mais rapidamente possível. Diz para não me preocupar muito, mas para me preocupar. E estou preocupado.
Estou muito preocupado.
Que o pós-operatório será complicado, com 15 dias de "muito mal-estar", o que traduzindo quer dizer dor severa e dificuldades em alimentar-me, que só poderei "comer caldos e alimentos moles". Mas, sinceramente, nem me importo. Quero esta massa fora do meu corpo, este...tumor.
Confesso: estou com medo. Rio, brinco com isto mas estou com medo. "Não há sinais de malignidade." Uma única frase que me dá segurança, mesmo contra a que a completou: "Mas só teremos a certeza absoluta quando abrirmos." Pois...medo.
quinta-feira, dezembro 15, 2005
Luce vers Tenebrae
Uma carta que não chega (sim, porque ainda há quem escreva cartas), uma foto que assombra uma casa, uma memória que escorre pelos recantos da alma.
O velho inimigo assume muitas formas e tem muitas caras. É por isso que nos apanha quase sempre quando não estamos preparados, quando não dá jeito, quando o seu potencial para nos virar a vida do avesso é maior.
O velho inimigo assume muitas formas e tem muitas caras. É por isso que nos apanha quase sempre quando não estamos preparados, quando não dá jeito, quando o seu potencial para nos virar a vida do avesso é maior.
sexta-feira, dezembro 09, 2005
Ídolos com pés de ouro
Portugal parou de boca aberta quando, na quarta-feira passada, Cristiano Ronaldo ergueu bem alto o ded
o médio da mão direita, em direcção aos adeptos que o assobiavam.
Muita gente ficou espantada. Mas perguntol porquê? Houve quem dissesse que se "se consegue tirar o homem das barracas, não se espere que se consiga tirar as barracas do homem". Não vou por aí.
O problema é que quando falamos de futebolistas deste nível falamos, na maior parte das vezes (Rui, és uma brilhante excepção), falamos de jovens com etapas de crescimento obliteradas, com dinheiro a mais, educação a menos e egos sobredesenvolvidos.
Espera-se que estes jovens sejam exemplos de conduta, exemplos de sucesso. Porquê? Porque são excelentes a jogar futebol. Mas mais uma vez a amnésia ataca. São excelentes apenas a jogar futebol. Só isso. Não são ídolos com pés de barro mas ídolos de barro com pés de ouro.
PS: Já agora, um dia destes hei-de vos contar a história de um desses milionários da bola que pediu um portátil de míseros 2500 euros para dar uma entrevista. Não vos digo quem é, apenas que é o mesmo tipo que quando ainda viajava de avião de carreira levava a própria mãe em classe económica, enquanto o próprio viajava confortavelmente instalado em executiva.
o médio da mão direita, em direcção aos adeptos que o assobiavam.
Muita gente ficou espantada. Mas perguntol porquê? Houve quem dissesse que se "se consegue tirar o homem das barracas, não se espere que se consiga tirar as barracas do homem". Não vou por aí.
O problema é que quando falamos de futebolistas deste nível falamos, na maior parte das vezes (Rui, és uma brilhante excepção), falamos de jovens com etapas de crescimento obliteradas, com dinheiro a mais, educação a menos e egos sobredesenvolvidos.
Espera-se que estes jovens sejam exemplos de conduta, exemplos de sucesso. Porquê? Porque são excelentes a jogar futebol. Mas mais uma vez a amnésia ataca. São excelentes apenas a jogar futebol. Só isso. Não são ídolos com pés de barro mas ídolos de barro com pés de ouro.
PS: Já agora, um dia destes hei-de vos contar a história de um desses milionários da bola que pediu um portátil de míseros 2500 euros para dar uma entrevista. Não vos digo quem é, apenas que é o mesmo tipo que quando ainda viajava de avião de carreira levava a própria mãe em classe económica, enquanto o próprio viajava confortavelmente instalado em executiva.
quinta-feira, novembro 24, 2005
O sexo dos anjos
Fui recentemente surpreendido por um forum na SIC Notícias subordinado ao tema: "Padres homossexuais". Aparentemente, o Vaticano emitiu um documento a recusar a ordenação de padres homossexuais.
Ora bem, são coisas como esta que me recordam porque é que não sou católico praticante. A distinrta lata destes senhores que se acham no direito de barrar uma qualquert potencial vocação baseados num preconceito ignóbil e profundamente hipócrita. Então e o que fazer aos muitos homossexuais padres? E, já agora, aos outros tantos "Padres Amaros" que aí andam, que mantém relações conjugais não sancionadas?
Falamos de uma Igreja que pretende como assexuados os seus padres, afinal o que interessa se o homem em causa (e o facto de ser só homens também tem que se lhe diga) é heterossexual ou não? Não pode explanar a sua sexualidade, o que, aliás é, isso sim, contra-natura.
Outra curiosidade foi a de uma participação de uma senhora que a Igreja católica poderia impor pré-requisitos para o sacerdócio. O que significa que a heterossexualidade deveria ser um pré-requisito. Para quê? E depois vêm todos os outros preconceitos e disparates que poluem a cabecinha de tanta gente.
Falamos de uma Igreja cujo fundador espiritual quereria para todos os Homens, ou será que quando Ele morreu na cruz "pelos pecadores", deveria ter acrescentados para os cronistas bíblicos: "ah, mas atenção, só os heterossexuais?".
Ora bem, são coisas como esta que me recordam porque é que não sou católico praticante. A distinrta lata destes senhores que se acham no direito de barrar uma qualquert potencial vocação baseados num preconceito ignóbil e profundamente hipócrita. Então e o que fazer aos muitos homossexuais padres? E, já agora, aos outros tantos "Padres Amaros" que aí andam, que mantém relações conjugais não sancionadas?
Falamos de uma Igreja que pretende como assexuados os seus padres, afinal o que interessa se o homem em causa (e o facto de ser só homens também tem que se lhe diga) é heterossexual ou não? Não pode explanar a sua sexualidade, o que, aliás é, isso sim, contra-natura.
Outra curiosidade foi a de uma participação de uma senhora que a Igreja católica poderia impor pré-requisitos para o sacerdócio. O que significa que a heterossexualidade deveria ser um pré-requisito. Para quê? E depois vêm todos os outros preconceitos e disparates que poluem a cabecinha de tanta gente.
Falamos de uma Igreja cujo fundador espiritual quereria para todos os Homens, ou será que quando Ele morreu na cruz "pelos pecadores", deveria ter acrescentados para os cronistas bíblicos: "ah, mas atenção, só os heterossexuais?".
terça-feira, novembro 22, 2005
Democracia oca
A base da democracia é a escolha. Óbvio. Mas para escolher é preciso ter dados. Não se deve tomar uma determinada opção ou enveredar por um certo caminho porque nos parece mais agradável, deve-se optar, isso sim, pelo mais correcto.
Democracia sem conhecimento, e este implica educação, é um sistema sem sangue, sem entranhas; é oco.
No tempo da ditadura, cultivava-se o analfabetismo entre as massas populares como garantia de perpetuação do sistema; hoje o mesmo acontece por desleixo, o que é ainda pior.
O que significa que nas próximas presidenciais damos por pessoas a votar em Cavaco Silva com os argumentos que "o sacana do bochechas está velho, não gosto do Manuel Alegre e o Louçã, sei lá, não conheço". Não, não é ficção mas um diálogo real, daqueles que se ouve, com certeza, em muitos lares daquele que se convencionou chamar o "Portugal real".
Estou farto deste país de ignorantes. Será que além dos sucessivos incompetentes no governo, ainda vamos ter de levar com o Cavaco Silva na presidência?
Democracia sem conhecimento, e este implica educação, é um sistema sem sangue, sem entranhas; é oco.
No tempo da ditadura, cultivava-se o analfabetismo entre as massas populares como garantia de perpetuação do sistema; hoje o mesmo acontece por desleixo, o que é ainda pior.
O que significa que nas próximas presidenciais damos por pessoas a votar em Cavaco Silva com os argumentos que "o sacana do bochechas está velho, não gosto do Manuel Alegre e o Louçã, sei lá, não conheço". Não, não é ficção mas um diálogo real, daqueles que se ouve, com certeza, em muitos lares daquele que se convencionou chamar o "Portugal real".
Estou farto deste país de ignorantes. Será que além dos sucessivos incompetentes no governo, ainda vamos ter de levar com o Cavaco Silva na presidência?
quinta-feira, novembro 17, 2005
Produtividade
Produtividade. Eis um conceito esquisito em Portugal. Esquisito porque tem muitas perspectivas, dependendo do lugar que se ocupa na cadeia socio-laboral.
Os patrões queixam-se que os empregados produzem pouco e por isso não lhes podem pagar muito.
Os empregados dizem que como são mal pagos não têm motivação nem condições para produzir mais
Os sucessivos governos lamentam a pouca produtividade do aparelho económico português, queixam-se que nos faz ficar mal na estatísticas europeias, mas enfim, como cobram impostos proporcionalmente mais elevados do que no resto da Europa, tanto lhes dá.
Uma pescadinha de rabo na boca: não produzimos, não recebemos, não recebemos, não produzimos. Mas, curiosamente, há algumas empresas que florescem no meio do estrume deste país.
As empresas de Comunicação Social são exemplo mais que perfeito deste peculiar silogismo. Aproveitam o excesso de recursos humanos que as universidades fabricam todos os anos (independentemente da qualidade do ensino, que é invariavelmente baixa, e é-o desde o ensino básico), para poderem manobrar os aumentos de forma indecentemente avarenta. Não lhes interessa a qualidade do produto mas o quanto podem lucrar com ele.
É por isso que se vê tanta barbaridade, tanta falta de qualidade. E não falo em nenhum género específico, pois este é um fenómeno transversal que não poupa títulos, nem sequer os ditos "de referência".
Estou farto de palmadinhas nas costas, elogios e promessas. É oficial, estou a planear uma mudança de rumo. Assistente editorial numa famosa casa livreira parece-vos bem, não?
Vamos ver.
Os patrões queixam-se que os empregados produzem pouco e por isso não lhes podem pagar muito.
Os empregados dizem que como são mal pagos não têm motivação nem condições para produzir mais
Os sucessivos governos lamentam a pouca produtividade do aparelho económico português, queixam-se que nos faz ficar mal na estatísticas europeias, mas enfim, como cobram impostos proporcionalmente mais elevados do que no resto da Europa, tanto lhes dá.
Uma pescadinha de rabo na boca: não produzimos, não recebemos, não recebemos, não produzimos. Mas, curiosamente, há algumas empresas que florescem no meio do estrume deste país.
As empresas de Comunicação Social são exemplo mais que perfeito deste peculiar silogismo. Aproveitam o excesso de recursos humanos que as universidades fabricam todos os anos (independentemente da qualidade do ensino, que é invariavelmente baixa, e é-o desde o ensino básico), para poderem manobrar os aumentos de forma indecentemente avarenta. Não lhes interessa a qualidade do produto mas o quanto podem lucrar com ele.
É por isso que se vê tanta barbaridade, tanta falta de qualidade. E não falo em nenhum género específico, pois este é um fenómeno transversal que não poupa títulos, nem sequer os ditos "de referência".
Estou farto de palmadinhas nas costas, elogios e promessas. É oficial, estou a planear uma mudança de rumo. Assistente editorial numa famosa casa livreira parece-vos bem, não?
Vamos ver.
quarta-feira, novembro 02, 2005
Amena cavaqueira
Era uma vez um país que adorava ditadores. Amou um durante 40 anos e teve que esperar que ele caísse de podre para largar cravos nas ruas. O povo desesperou pelo seu regresso durante vinte anos e fizeram-lhe a vontade. O ditador regressou, não numa manhã de nevoeiro, nem do Norte de África. Veio do Algarve, a fazer a rodagem do carro novo até à Figueira da Foz. Aí nasceu o rebento laranja podre e o povo rejubilou.
O ditador reinou durante quase uma década, encheu o país de cimento e de elefantes brancos, mas também apodreceu no lugar. Um punhado de resistentes veio para a rua gritar. Também lá estive a gritar contra uma prova fascista, outros foram para a ponte e o país abanou a laranjeira e a coisa caiu, mais uma vez de podre. Com um tabú pelo meio. O ditador tentou regressar mas o povo não deixou e ele foi para a caverna, esperar.
O século virou, outros poderes subiram à cadeira de onde o primeiro ditador tinha caído. Os homens do governo eram outros, a cor também era outra, mas quem manda são sempre os mesmos.
Agora, o ditador que estava escondido na caverna quer voltar. E o povo, saudosista dos ditadores, parece disposto a aceitar o chicote. Contra ele levanta-se um rei velho, um poeta, um operário e um professor que falça muito alto.
Não aparece ninguém para matar o dragão e a cavaqueira continua, amena, para mais um regresso do ditador. E não há cadeira que nos salve.
O ditador reinou durante quase uma década, encheu o país de cimento e de elefantes brancos, mas também apodreceu no lugar. Um punhado de resistentes veio para a rua gritar. Também lá estive a gritar contra uma prova fascista, outros foram para a ponte e o país abanou a laranjeira e a coisa caiu, mais uma vez de podre. Com um tabú pelo meio. O ditador tentou regressar mas o povo não deixou e ele foi para a caverna, esperar.
O século virou, outros poderes subiram à cadeira de onde o primeiro ditador tinha caído. Os homens do governo eram outros, a cor também era outra, mas quem manda são sempre os mesmos.
Agora, o ditador que estava escondido na caverna quer voltar. E o povo, saudosista dos ditadores, parece disposto a aceitar o chicote. Contra ele levanta-se um rei velho, um poeta, um operário e um professor que falça muito alto.
Não aparece ninguém para matar o dragão e a cavaqueira continua, amena, para mais um regresso do ditador. E não há cadeira que nos salve.
terça-feira, novembro 01, 2005
Porque foi inventado o bolo de chocolate
O dia nem começou mal, com aquela confortável sensação de feriado. É certo que venho trabalhar na mesma, mas estes dias têm, ainda assim, um sabor diferente.
Mas depois, sem perceber bem o que se estava a passar ou porquê, a força começou a escorregar. Aquela sensação de estar a mover-me num poço de alcatrão, espesso e negro, invadiu-me. Primeiro, de mansinho, depois, com a subtileza de um martelo a esmagar uma parede de vidro. Ah, pois, é dia de Todos os Santos.
Tenho-me na conta de tipo racional, cristão sim, mas à minha maneira: crente mas sem ligação à instituição eclesiástica, gosto de pensar que cada homem tem um templo em si mesmo. Logo, nem ligo ao calendário religioso. Não? Bem, acho que há coisas que se nos entranham na pele sem darmos por isso, e quando temos tanto da nossa história pessoal do outro lado da linha, é quase inevitável.
Um dia mau, e apesar de ser tantas vezes acusado de ser um fanático de uma dieta que não contempla doces nem outros "bichos", hoje é daqueles dias que percebo porque é que alguém inventou coisas como o Whisky ou o bolo de chocolate.
Mas depois, sem perceber bem o que se estava a passar ou porquê, a força começou a escorregar. Aquela sensação de estar a mover-me num poço de alcatrão, espesso e negro, invadiu-me. Primeiro, de mansinho, depois, com a subtileza de um martelo a esmagar uma parede de vidro. Ah, pois, é dia de Todos os Santos.
Tenho-me na conta de tipo racional, cristão sim, mas à minha maneira: crente mas sem ligação à instituição eclesiástica, gosto de pensar que cada homem tem um templo em si mesmo. Logo, nem ligo ao calendário religioso. Não? Bem, acho que há coisas que se nos entranham na pele sem darmos por isso, e quando temos tanto da nossa história pessoal do outro lado da linha, é quase inevitável.
Um dia mau, e apesar de ser tantas vezes acusado de ser um fanático de uma dieta que não contempla doces nem outros "bichos", hoje é daqueles dias que percebo porque é que alguém inventou coisas como o Whisky ou o bolo de chocolate.
quinta-feira, outubro 20, 2005
Sabe bem
Se existisse um "ranking" de profissões ingratas, o jornalismo figuraria de certeza entre as primeiras cinco, sendo que nem me passa pela cabeça quais seriam as outras quatro. Não vou sequer falar dos salários que por aí se pagam (prometi que não ia escrever obscenidades neste espaço sagrado de reflexão), não, vou antes concentrar-me no difícil equilibrismo a que nos obriga esta profissão que não poucas vezes é caracterizada como missão. Missão no sentido religioso mas por vezes também militar.
Encontrar a verdade e publicá-la equilibrando valores como o respeito pela privacidade e o legítimo interesse público é cada vez mais difícil, e há até uma indústria montada na promiscuidade entre a esfera pública e a privada. Mas, enfim...ao contrário do que li há uns tempos, nem todo o jornalismo "é a mesma merda". Há jornalismo e há outras coisas. E se existe a tentação de distinguir o trigo do joio a partir dos títulos, deve dizer-se que a maior diferença faz-se pelos nomes de quem assina e não pela instituição que lhes paga o ordenado. Enfim, há bons jornalistas, há maus jornalistas e há escribas que não são nem uma coisa nem
outra.
"But I digress", o que eu queria mesmo falar era de outra coisa, de outro problema bem mais corriqueiro, mas que penaliza bastante gajos inseguros como eu: a falta de reconhecimento. Nos meus primeiros dias a trabalhar para um diário de divulgação nacional, uma das lições que imediatamente aprendi resumia-se a uma frase muitas vezes repetida: "Não te preocupes se não te disserem nada acerca do teu trabalho, é sinal que estava bom; porque se estivesse mau, então sim, vinham falar contigo."
E assim estive perdido durante alguns anos. De vez em quando recebi alguns elogios, alguns recados de senhores que apesar de não conhecer pessoalmente sabia que teriam importância. Contam-se pelos dedos de uma mão: o dia em que João Marcelino "gostou muito" de um dos meus primeiros trabalhos como enviado especial, um trabalhito modesto nas competições europeias de basquetebol em Valencia. Um elogio que me ficou na memória pelo que significou na minha então embrionária carreira. Já na altura o agora todo-poderoso director do "Correio da Manhã" e director-editorial da "Sábado" era pouco menos que Deus no meu jornal e a sua palavra transformou-me de estagiário despassarado em "jovem promessa". Um estatuto que teimou em permanecer apenso ao meu nome apesar de cada vez menos jovem...
E depois veio a DEZ. Mais que uma revista, um espaço de análise, de comentário e, sobretudo, reportagem, a minha menina dos olhos. Cresci muito neste último ano e meio a trabalhar com uma equipa fantástica. Privar com alguns dos melhores jornalistas desportivos do país e mesmo com aquele que considero o melhor (António Tadeia), permitiu-me crescer e assumir a promessa com que me haviam ungido. Embora o diga sem falsas modéstias que nesta profissão nunca se sabe tudo. Será assim em muitas actividades, mas nesta mais que em nenhuma outra.
Mas sim, no meio disto tudo, sempre a trabalhar e sempre sem reconhecimento, sempre sem a confiança que um crónico inseguro como eu padece, todos os diasa provar que sou bom. A mim e ao mundo. Em cada palavra, em cada parágrafo, em cada vírgula, o jogo entre uma carreira e a prateleira. Não é por nada que há tantos profissionais desta área em consultas na Av. do Brasil...
Uma luta inglória mas que, de vez a vez, tem descanso: quando acabamos um trabalho ou quando ligamos para um conhecido comentador e recebemos do outro lado um "Eh pá, li um seu trabalho muito bom no outro dia. Geralmente nem reparo em quem assina mas neste caso até voltei ao início para ver quem era. Muito bom, sinceramente."
Pois é, às vezes esquecemos os maus salários, as muitas horas e tudo o resto. Porque há dias assim. Sabe bem.
Encontrar a verdade e publicá-la equilibrando valores como o respeito pela privacidade e o legítimo interesse público é cada vez mais difícil, e há até uma indústria montada na promiscuidade entre a esfera pública e a privada. Mas, enfim...ao contrário do que li há uns tempos, nem todo o jornalismo "é a mesma merda". Há jornalismo e há outras coisas. E se existe a tentação de distinguir o trigo do joio a partir dos títulos, deve dizer-se que a maior diferença faz-se pelos nomes de quem assina e não pela instituição que lhes paga o ordenado. Enfim, há bons jornalistas, há maus jornalistas e há escribas que não são nem uma coisa nem
outra.
"But I digress", o que eu queria mesmo falar era de outra coisa, de outro problema bem mais corriqueiro, mas que penaliza bastante gajos inseguros como eu: a falta de reconhecimento. Nos meus primeiros dias a trabalhar para um diário de divulgação nacional, uma das lições que imediatamente aprendi resumia-se a uma frase muitas vezes repetida: "Não te preocupes se não te disserem nada acerca do teu trabalho, é sinal que estava bom; porque se estivesse mau, então sim, vinham falar contigo."
E assim estive perdido durante alguns anos. De vez em quando recebi alguns elogios, alguns recados de senhores que apesar de não conhecer pessoalmente sabia que teriam importância. Contam-se pelos dedos de uma mão: o dia em que João Marcelino "gostou muito" de um dos meus primeiros trabalhos como enviado especial, um trabalhito modesto nas competições europeias de basquetebol em Valencia. Um elogio que me ficou na memória pelo que significou na minha então embrionária carreira. Já na altura o agora todo-poderoso director do "Correio da Manhã" e director-editorial da "Sábado" era pouco menos que Deus no meu jornal e a sua palavra transformou-me de estagiário despassarado em "jovem promessa". Um estatuto que teimou em permanecer apenso ao meu nome apesar de cada vez menos jovem...
E depois veio a DEZ. Mais que uma revista, um espaço de análise, de comentário e, sobretudo, reportagem, a minha menina dos olhos. Cresci muito neste último ano e meio a trabalhar com uma equipa fantástica. Privar com alguns dos melhores jornalistas desportivos do país e mesmo com aquele que considero o melhor (António Tadeia), permitiu-me crescer e assumir a promessa com que me haviam ungido. Embora o diga sem falsas modéstias que nesta profissão nunca se sabe tudo. Será assim em muitas actividades, mas nesta mais que em nenhuma outra.
Mas sim, no meio disto tudo, sempre a trabalhar e sempre sem reconhecimento, sempre sem a confiança que um crónico inseguro como eu padece, todos os diasa provar que sou bom. A mim e ao mundo. Em cada palavra, em cada parágrafo, em cada vírgula, o jogo entre uma carreira e a prateleira. Não é por nada que há tantos profissionais desta área em consultas na Av. do Brasil...
Uma luta inglória mas que, de vez a vez, tem descanso: quando acabamos um trabalho ou quando ligamos para um conhecido comentador e recebemos do outro lado um "Eh pá, li um seu trabalho muito bom no outro dia. Geralmente nem reparo em quem assina mas neste caso até voltei ao início para ver quem era. Muito bom, sinceramente."
Pois é, às vezes esquecemos os maus salários, as muitas horas e tudo o resto. Porque há dias assim. Sabe bem.
segunda-feira, outubro 10, 2005
Chuva na Frente Oriental
O dia nasceu chuvoso, talvez para limpar a merda que atingiu as nortenhas Gondomar, Felgueiras e a solarenga Oeiras. Em dias como este, acordo com a declarada esperança que a água que cai em barda seja suficiente. Mas nunca é.
Da madeira e ar das colunas da aparelhagem, a guitarra de Jack Johnson materializa-se e deambula sem destino pelas paredes do apartamento, colorindo-as de azul marinho.
Saio da janela e troco a água que cai lá fora pela água quente do chuveiro. Respiro o vapor e o cheiro a lençóis mornos que abandona de mansinho a minha pele.
Pequeno-almoço tomado, hora higiénica no ginásio cumprida e preparo a saída: tiro as peças da armadura têxtil com que vou atacar o dragão quotidiano, recolho as chaves de casa, as chaves do carro, o comando da garagem, o telemóvel, a caneta, os óculos escuros...a parafernália de objectos com que tenho de me armar e saio para a batalha. Para a chuva que não vai limpar tanto esterco.
Já perto do trabalho, o habitual exame dos jornais revela que tudo está na mesma no país. Tudo na mesma na Frente Oriental. E a Leste do Paraíso também.
Da madeira e ar das colunas da aparelhagem, a guitarra de Jack Johnson materializa-se e deambula sem destino pelas paredes do apartamento, colorindo-as de azul marinho.
Saio da janela e troco a água que cai lá fora pela água quente do chuveiro. Respiro o vapor e o cheiro a lençóis mornos que abandona de mansinho a minha pele.
Pequeno-almoço tomado, hora higiénica no ginásio cumprida e preparo a saída: tiro as peças da armadura têxtil com que vou atacar o dragão quotidiano, recolho as chaves de casa, as chaves do carro, o comando da garagem, o telemóvel, a caneta, os óculos escuros...a parafernália de objectos com que tenho de me armar e saio para a batalha. Para a chuva que não vai limpar tanto esterco.
Já perto do trabalho, o habitual exame dos jornais revela que tudo está na mesma no país. Tudo na mesma na Frente Oriental. E a Leste do Paraíso também.
quinta-feira, outubro 06, 2005
Bob Dylan...sempre actual
Come you masters of war
You that build all the guns
You that build the death planes
You that build the big bombs
You that hide behind walls
You that hide behind desks
I just want you to know
I can see through your masks
You that never done nothin'
But build to destroy
You play with my world
Like it's your little toy
You put a gun in my hand
And you hide from my eyes
And you turn and run farther
When the fast bullets fly
Like Judas of old
You lie and deceive
A world war can be won
You want me to believe
But I see through your eyes
And I see through your brain
Like I see through the water
That runs down my drain
You fasten the triggers
For the others to fire
Then you set back and watch
When the death count gets higher
You hide in your mansion
As young people's blood
Flows out of their bodies
And is buried in the mud
You've thrown the worst fear
That can ever be hurled
Fear to bring children
Into the world
For threatening my baby
Unborn and unnamed
You ain't worth the blood
That runs in your veins
How much do I know
To talk out of turn
You might say that I'm young
You might say I'm unlearned
But there's one thing I know
Though I'm younger than you
Even Jesus would never
Forgive what you do
Let me ask you one question
Is your money that good
Will it buy you forgiveness
Do you think that it could
I think you will find
When your death takes its toll
All the money you made
Will never buy back your soul
And I hope that you die
And your death'll come soon
I will follow your casket
In the pale afternoon
And I'll watch while you're lowered
Down to your deathbed
And I'll stand o'er your grave
'Til I'm sure that you're dead
You that build all the guns
You that build the death planes
You that build the big bombs
You that hide behind walls
You that hide behind desks
I just want you to know
I can see through your masks
You that never done nothin'
But build to destroy
You play with my world
Like it's your little toy
You put a gun in my hand
And you hide from my eyes
And you turn and run farther
When the fast bullets fly
Like Judas of old
You lie and deceive
A world war can be won
You want me to believe
But I see through your eyes
And I see through your brain
Like I see through the water
That runs down my drain
You fasten the triggers
For the others to fire
Then you set back and watch
When the death count gets higher
You hide in your mansion
As young people's blood
Flows out of their bodies
And is buried in the mud
You've thrown the worst fear
That can ever be hurled
Fear to bring children
Into the world
For threatening my baby
Unborn and unnamed
You ain't worth the blood
That runs in your veins
How much do I know
To talk out of turn
You might say that I'm young
You might say I'm unlearned
But there's one thing I know
Though I'm younger than you
Even Jesus would never
Forgive what you do
Let me ask you one question
Is your money that good
Will it buy you forgiveness
Do you think that it could
I think you will find
When your death takes its toll
All the money you made
Will never buy back your soul
And I hope that you die
And your death'll come soon
I will follow your casket
In the pale afternoon
And I'll watch while you're lowered
Down to your deathbed
And I'll stand o'er your grave
'Til I'm sure that you're dead
terça-feira, outubro 04, 2005
Piadinha
Um adepto do Porto chega a uma loja de material desportivo e depara-se com uma infinidade de camisolas de clubes de futebol. Só não via a do seu clube.
Meio sem graça, pergunta ao vendedor:
- Quanto custa a camisola do Real Madrid?
- 50 EUR
- E a do Chelsea?
- Essa custa 75 EUR
- E a do Benfica?
- Oh meu amigo... Essa é a mais cara da loja por se tratar do melhor clube do Mundo, e custa 100EUR.
Aí, o pobre arrisca:
- Você não tem aí a do Porto?
- Tenho sim. Está do outro lado, na prateleira das liquidações e custa 9,50 EUR.
- Pooo!!! Só 9,50 Euros!!!!!!
- É promoção para queima de stock, essas porcarias não se vendem...
- Então dê-me uma - estendendo uma nota de 10 Euros.
O vendedor vai então à caixa registadora, coça a cabeça e meio atrapalhado pergunta:
- Desculpe, mas eu estou sem troco. Quer levar uma camisola do Sporting para completar os 10 Euros?
Meio sem graça, pergunta ao vendedor:
- Quanto custa a camisola do Real Madrid?
- 50 EUR
- E a do Chelsea?
- Essa custa 75 EUR
- E a do Benfica?
- Oh meu amigo... Essa é a mais cara da loja por se tratar do melhor clube do Mundo, e custa 100EUR.
Aí, o pobre arrisca:
- Você não tem aí a do Porto?
- Tenho sim. Está do outro lado, na prateleira das liquidações e custa 9,50 EUR.
- Pooo!!! Só 9,50 Euros!!!!!!
- É promoção para queima de stock, essas porcarias não se vendem...
- Então dê-me uma - estendendo uma nota de 10 Euros.
O vendedor vai então à caixa registadora, coça a cabeça e meio atrapalhado pergunta:
- Desculpe, mas eu estou sem troco. Quer levar uma camisola do Sporting para completar os 10 Euros?
quarta-feira, setembro 28, 2005
Amor na ponta da pena
Primeiro foram os livros. Desde que me lembro, mesmo antes de aprender a ler, que retiro muito prazer do simples actos de os desfolhar. Logo a seguir, comecei a perceber que até tinha jeito para juntar as palavras, que até tinha coisas para dizer e que, mais importante, as sabia dizer.
Tudo isto para dizer que adoro ler e adoro escrever. Tanto que quando se me proporcionou a oportunidade de fazer o que amo e ser (mal) pago por isso, não vacilei.
Todavia, nos dias que correm, estou a ser atacado pela doença profissional das prostitutas: faço aquilo que gosto, mas faço-o com tanta frequência, a pedido e, muitas vezes num contexo que me diz pouco ou nada, que depois quando o tenho de fazer por amor, falta um pouco a vontade.
Pois, estou a abrir o flanco a piadinhas parvas, eu sei, mas é um risco: confiar.
Tudo isto para justificar a preguiça na contribuição para este espaço. Vamos tentar...prometo.
Tudo isto para dizer que adoro ler e adoro escrever. Tanto que quando se me proporcionou a oportunidade de fazer o que amo e ser (mal) pago por isso, não vacilei.
Todavia, nos dias que correm, estou a ser atacado pela doença profissional das prostitutas: faço aquilo que gosto, mas faço-o com tanta frequência, a pedido e, muitas vezes num contexo que me diz pouco ou nada, que depois quando o tenho de fazer por amor, falta um pouco a vontade.
Pois, estou a abrir o flanco a piadinhas parvas, eu sei, mas é um risco: confiar.
Tudo isto para justificar a preguiça na contribuição para este espaço. Vamos tentar...prometo.
terça-feira, agosto 23, 2005
Haja saúde
Aproveitando as minhas ainda recentes incursões nos desportos aquáticos, quero dizer aos meus amigos que vou entrar nesta onda: hospitais.
Infelizmente, o meu conhecimento dos hospitais públicos deste país já tem anos. Não por minha causa, que graças aos céus tenho uma saúde de ferro, mas por causa do meu pai.
Os muitos problemas de saúde de que padecia forçaram-me a longas noites nas salas de espera do Curry Cabral. Para não falar nas visitas semanais, sempre acompanhado da minha avó octogenária. E, digo-vos, eram experiências inolvidáveis.
Um hospital não é, não pode ser, um sítio agradável. Mas não acredito que a Ocidente dol Bangladesh e a Norte do Sudão existam hospitais tão maus como os portugueses.
Como passaram alguns anos desde aqueles tempos, e o meu pai já está muito além dos hospitais, cheguei a pensar que as coisas tivessem melhorado. Mas eis que uma ameaça de AVC da minha avó me levaram mais uma vez à sala de espera das urgências do Curry Cabral. A primeira impressão foi de que tudo, afinal, estava melhor. A senhora foi rapidamente atendida e o problema despistado. O pior foi que teve de ser submetida a uns exames.
Para encurtar uma história agoniadamente longa, resumo: estivemos quatro horas à espera da senhora porque a médica que a observou se esqueceu de passar os impressos para uma colheita de sangue. Assim, enquanto a velhota esteve numa maca num corredor, assustada e desorientada, e eu estava na sala de espera, a senhora médica, acompannhada de alguns colegas, conversava e fumava à espera que o tempo do turno se esgotasse. Pois, porque a noite era tranquila e o movimento era escasso. E por isso estivemos QUATRO HORAS depois da primeira observação, à espera de nada. No final, ao constatarem o erro grosseiro, o chefe do serviço disse que afinal as análises não eram necessárias e podíamos ir para casa.
Em suma: quatro horas, QUATRO! para nada.
E o pior é que todos os portugueses têm, pelo menos, uma história destas. Pois é, o país está doente. Terminal. E neste caso sou pela eutanásia.
PS: Segundo um estudo do Banco Central Europeu, e se o actual ritmo de crescimento se mantiver, em 2025 a Espanha será o país mais desenvolvido da Europa, à frente da Alemanha, França ou Inglaterra. Pois é, se ao menos o Afonso Henriques não tivesse espancado a mãe...
Infelizmente, o meu conhecimento dos hospitais públicos deste país já tem anos. Não por minha causa, que graças aos céus tenho uma saúde de ferro, mas por causa do meu pai.
Os muitos problemas de saúde de que padecia forçaram-me a longas noites nas salas de espera do Curry Cabral. Para não falar nas visitas semanais, sempre acompanhado da minha avó octogenária. E, digo-vos, eram experiências inolvidáveis.
Um hospital não é, não pode ser, um sítio agradável. Mas não acredito que a Ocidente dol Bangladesh e a Norte do Sudão existam hospitais tão maus como os portugueses.
Como passaram alguns anos desde aqueles tempos, e o meu pai já está muito além dos hospitais, cheguei a pensar que as coisas tivessem melhorado. Mas eis que uma ameaça de AVC da minha avó me levaram mais uma vez à sala de espera das urgências do Curry Cabral. A primeira impressão foi de que tudo, afinal, estava melhor. A senhora foi rapidamente atendida e o problema despistado. O pior foi que teve de ser submetida a uns exames.
Para encurtar uma história agoniadamente longa, resumo: estivemos quatro horas à espera da senhora porque a médica que a observou se esqueceu de passar os impressos para uma colheita de sangue. Assim, enquanto a velhota esteve numa maca num corredor, assustada e desorientada, e eu estava na sala de espera, a senhora médica, acompannhada de alguns colegas, conversava e fumava à espera que o tempo do turno se esgotasse. Pois, porque a noite era tranquila e o movimento era escasso. E por isso estivemos QUATRO HORAS depois da primeira observação, à espera de nada. No final, ao constatarem o erro grosseiro, o chefe do serviço disse que afinal as análises não eram necessárias e podíamos ir para casa.
Em suma: quatro horas, QUATRO! para nada.
E o pior é que todos os portugueses têm, pelo menos, uma história destas. Pois é, o país está doente. Terminal. E neste caso sou pela eutanásia.
PS: Segundo um estudo do Banco Central Europeu, e se o actual ritmo de crescimento se mantiver, em 2025 a Espanha será o país mais desenvolvido da Europa, à frente da Alemanha, França ou Inglaterra. Pois é, se ao menos o Afonso Henriques não tivesse espancado a mãe...
sexta-feira, agosto 05, 2005
Danças de fumo
Isto há dias assim. Depois de uma semana preenchida por um dos trabalhos mais difíceis que já levei a cabo na minha carreira (e, de certa forma, dos mais frustrantes), e na antecâmara de uma reportagem de contornos e desfecho ainda mais incertos do que é costume, tenho algum tempo para dar ao "gatilho". Cá vai:
1) Acabou o ballet Gulbenkian. Mais uma demonstração de menoridade de um país em que se desvaloriza a excelência, sobretudo na cultura, onde se gasta milhões nas Casas da Música e nos Centros Culturais de Belém e afins (e não que não façam falta, atenção), e depois se poupam tostões (cerca de dois milhões de euros ano) nos outros edifícios, aqueles de tijolos humanos e que são, afinal, os que mais fazem por essa coisa da cultura. Mas como não dá votos nem enche os bolsos a ninguém...
2) E por falar em encher os bolsos. De cinzas. Esta noite (ou madrugada, para ser rigoroso), quando regressava a casa, dei por mim mergulhado numa piscina de fumo. A cidade de Lisboa inteira e arredores estava mergulhada num manto cinzento que tudo sufocava. Tudo menos a indignação. Há por aí monstros com cara de homem que andam a queimar florestas, casas, o país inteiro. E o que faz o governo? Não sei. O que fazem as autarquias? Não sei. O que faço eu? Também não sei. Não sei o que fazer se não indignar-me. Merda.
3) Finalmente, umas derradeiras palavras para o circo das presidenciais. Digo circoi porque é o que está montado, muito por culpa também da Comunicação Social, que tanto aprecia a política espectáculo, o duelo de titãs. Soares e Cavaco. Bucha e Estica. Lobo e raposa. Resta saber quem é o quê. E no meio de todo este circo quem são os palhaços? Desconfio que nós, os eleitores, que são aqueles que se querem distraídos enquanto se faz aquela política menos vistosa que é, afinal, a que decide o nosso dia-a-dia.
1) Acabou o ballet Gulbenkian. Mais uma demonstração de menoridade de um país em que se desvaloriza a excelência, sobretudo na cultura, onde se gasta milhões nas Casas da Música e nos Centros Culturais de Belém e afins (e não que não façam falta, atenção), e depois se poupam tostões (cerca de dois milhões de euros ano) nos outros edifícios, aqueles de tijolos humanos e que são, afinal, os que mais fazem por essa coisa da cultura. Mas como não dá votos nem enche os bolsos a ninguém...
2) E por falar em encher os bolsos. De cinzas. Esta noite (ou madrugada, para ser rigoroso), quando regressava a casa, dei por mim mergulhado numa piscina de fumo. A cidade de Lisboa inteira e arredores estava mergulhada num manto cinzento que tudo sufocava. Tudo menos a indignação. Há por aí monstros com cara de homem que andam a queimar florestas, casas, o país inteiro. E o que faz o governo? Não sei. O que fazem as autarquias? Não sei. O que faço eu? Também não sei. Não sei o que fazer se não indignar-me. Merda.
3) Finalmente, umas derradeiras palavras para o circo das presidenciais. Digo circoi porque é o que está montado, muito por culpa também da Comunicação Social, que tanto aprecia a política espectáculo, o duelo de titãs. Soares e Cavaco. Bucha e Estica. Lobo e raposa. Resta saber quem é o quê. E no meio de todo este circo quem são os palhaços? Desconfio que nós, os eleitores, que são aqueles que se querem distraídos enquanto se faz aquela política menos vistosa que é, afinal, a que decide o nosso dia-a-dia.
sexta-feira, julho 22, 2005
Reinventar
Estava eu a fazer a habitual ronda pelos blogues dos meus correlegionários quando dei com uma interessante reflexão do meu amigo Hugo Alves (alcateialouca.blogs.sapo.pt)
Primeiro pensei ques estivesse a falar de engenharia genética e reprodução assistida ou algo da área, já que estava a falar de "clones".
Como achei que era um tema pouco "huguesco", perseverei na leitura e acabei com as dúvidas: o meu amigo estava a passar uma sentença sobre as questões do crescimento.
Não sei se ele sabia sequer que era de crescimento que se tratava o texto. Acho que ele até suspeitava, já que fez questão de o negar algumas vezes.
Que não, que não era contra a evolução, que não era contra o crescimento, que não era disso. Pois, mas só é.
O meu amigo diz que não percebe porque é que as pessoas que ele conheceu em tempos estão tão diferentes. Que já não as reconhece. E que por causa disso estarão, necessariamente, piores.
Ora essa amigo! Como acontece na maior parte das vezes, tenho de discordar.
Crescer é evoluir, não de uma forma suave e continuada, mas através de rupturas.
Como escrevi num "post" anterior, e que, suspeito, tem as mesmas raízes do texto do meu amigo, "crescer é violar". Todos crescemos à custa do nosso passado. Todos matamos o pai (ou a mãe, como ele diz) para crescer, todos rompemos com a pele antiga para crescer.
É claro que há quem tente manter as coisas inalteradas, mas é como agarrar areia da praia: mais tarde ou mais cedo, ela escorre pelos dedos e as mãos ficam vazias.
Também tenho nostalgia, é óbvio. Até porque, permitam-me a pretensão, já perdi mais do que a maior parte das pessoas. Porque a vida me fez perder, porque me foi roubado ou até porque, pura e simplesmente, abri mão.
O universo é feito de mudança. Nem sequer o tempo ou o espaço são constantes. Como é que alguém pode ter a pretensão de o ser?
Ok, podem tentar, mas correm o risco de parecer inadequados, um pouco ridículos ou pior.
Agora podia dizer que os dinossauros desapareceram porque não evoluíram. Mas a verdade é que sobreviveram: são aves. Reinventar, amigo. Crescer é reinventar, mesmo que à custa do que fomos.
Primeiro pensei ques estivesse a falar de engenharia genética e reprodução assistida ou algo da área, já que estava a falar de "clones".
Como achei que era um tema pouco "huguesco", perseverei na leitura e acabei com as dúvidas: o meu amigo estava a passar uma sentença sobre as questões do crescimento.
Não sei se ele sabia sequer que era de crescimento que se tratava o texto. Acho que ele até suspeitava, já que fez questão de o negar algumas vezes.
Que não, que não era contra a evolução, que não era contra o crescimento, que não era disso. Pois, mas só é.
O meu amigo diz que não percebe porque é que as pessoas que ele conheceu em tempos estão tão diferentes. Que já não as reconhece. E que por causa disso estarão, necessariamente, piores.
Ora essa amigo! Como acontece na maior parte das vezes, tenho de discordar.
Crescer é evoluir, não de uma forma suave e continuada, mas através de rupturas.
Como escrevi num "post" anterior, e que, suspeito, tem as mesmas raízes do texto do meu amigo, "crescer é violar". Todos crescemos à custa do nosso passado. Todos matamos o pai (ou a mãe, como ele diz) para crescer, todos rompemos com a pele antiga para crescer.
É claro que há quem tente manter as coisas inalteradas, mas é como agarrar areia da praia: mais tarde ou mais cedo, ela escorre pelos dedos e as mãos ficam vazias.
Também tenho nostalgia, é óbvio. Até porque, permitam-me a pretensão, já perdi mais do que a maior parte das pessoas. Porque a vida me fez perder, porque me foi roubado ou até porque, pura e simplesmente, abri mão.
O universo é feito de mudança. Nem sequer o tempo ou o espaço são constantes. Como é que alguém pode ter a pretensão de o ser?
Ok, podem tentar, mas correm o risco de parecer inadequados, um pouco ridículos ou pior.
Agora podia dizer que os dinossauros desapareceram porque não evoluíram. Mas a verdade é que sobreviveram: são aves. Reinventar, amigo. Crescer é reinventar, mesmo que à custa do que fomos.
quinta-feira, julho 21, 2005
Grande Bruce
DARKNESS ON THE EDGE OF TOWN
They're still racing out at the Trestles
But that blood it never burned in her veins
Now I hear she's got a house up in Fairview
And a style she's trying to maintain
Well if she wants to see me
You can tell her that I'm easily found
Tell her there's a spot out `neath Abram's Bridge
And tell her there's a darkness on the edge of town
Everybody's got a secret Sonny
Something that they just can't face
Some folks spend their whole lives trying to keep it
They carry it with them every step that they take
Till some day they just cut it loose
Cut it loose or let it drag `em down
Where no one asks any questions
Or looks too long in your face
In the darkness on the edge of town
Some folks are born into a good life
Other folks get it anyway anyhow
I lost my money and I lost my wife
Them things don't seem to matter much to me now
Tonight I'll be on that hill `cause I can't stop
I'll be on that hill with everything I got
Lives on the line where dreams are found and lost
I'll be there on time and I'll pay the cost
For wanting things that can only be found
In the darkness on the edge of town
They're still racing out at the Trestles
But that blood it never burned in her veins
Now I hear she's got a house up in Fairview
And a style she's trying to maintain
Well if she wants to see me
You can tell her that I'm easily found
Tell her there's a spot out `neath Abram's Bridge
And tell her there's a darkness on the edge of town
Everybody's got a secret Sonny
Something that they just can't face
Some folks spend their whole lives trying to keep it
They carry it with them every step that they take
Till some day they just cut it loose
Cut it loose or let it drag `em down
Where no one asks any questions
Or looks too long in your face
In the darkness on the edge of town
Some folks are born into a good life
Other folks get it anyway anyhow
I lost my money and I lost my wife
Them things don't seem to matter much to me now
Tonight I'll be on that hill `cause I can't stop
I'll be on that hill with everything I got
Lives on the line where dreams are found and lost
I'll be there on time and I'll pay the cost
For wanting things that can only be found
In the darkness on the edge of town
quarta-feira, julho 20, 2005
Nú com a mão no bolso
A liberdade é um reino vasto, com muitas quintas. A minha é recém-adquirida: andar nú em casa.
Não há sensação melhor que andar à vontade dentro do meu próprio domínio completamente livre dos empecilhos têxteis. É claro que gosto de roupa e prezo sobremaneira a sua protecção e a enorme possibilidade de expressão que esta nos dá. Mas andar nú faz-nos sentir mais puros e em contacto com a nossa verdadeira Natureza. Ok, e há a insubstituível sensação da aragem na genitália.
Pode parecer um disparate mas depois de viver em casa da mãe até aos 30 anos, com a privacidade obviamente limitada, não há coisa melhor do que poder usufruir deste pequeno grande prazer sem correr o risco de chocar o olhar materno com as (evidentes) alterações que este corpinho sofreu desde que a senhora nos expeliu para o frio do extra-útero.
Mas, e há sempre um "mas". Além de gostar de andar nú, também gosto de ter as janelas abertas. E apesar de não ser um gajo friorento e de estarmos no Verão, acabei por pagar o preço de dormir com o meu fato de nascimento: uma brutal gripe.
Já estou há perto de uma semana a acordar com a garganta dorida, o nariz permanentemente entupido e a voz de uma octogenária cantora de cabaré berlinense reformada.
Estou um bocado farto, mas há quem diga que a maior parte dos prazeres pagam-se.
Pelos vistos, até aqueles que são gozados a sós.
Não há sensação melhor que andar à vontade dentro do meu próprio domínio completamente livre dos empecilhos têxteis. É claro que gosto de roupa e prezo sobremaneira a sua protecção e a enorme possibilidade de expressão que esta nos dá. Mas andar nú faz-nos sentir mais puros e em contacto com a nossa verdadeira Natureza. Ok, e há a insubstituível sensação da aragem na genitália.
Pode parecer um disparate mas depois de viver em casa da mãe até aos 30 anos, com a privacidade obviamente limitada, não há coisa melhor do que poder usufruir deste pequeno grande prazer sem correr o risco de chocar o olhar materno com as (evidentes) alterações que este corpinho sofreu desde que a senhora nos expeliu para o frio do extra-útero.
Mas, e há sempre um "mas". Além de gostar de andar nú, também gosto de ter as janelas abertas. E apesar de não ser um gajo friorento e de estarmos no Verão, acabei por pagar o preço de dormir com o meu fato de nascimento: uma brutal gripe.
Já estou há perto de uma semana a acordar com a garganta dorida, o nariz permanentemente entupido e a voz de uma octogenária cantora de cabaré berlinense reformada.
Estou um bocado farto, mas há quem diga que a maior parte dos prazeres pagam-se.
Pelos vistos, até aqueles que são gozados a sós.
Animais
Essa coisa de ser humano tem muito que se lhe diga. Crescemos a ouvir grandes lições sobre a superioridade moral do ser humano, rei e senhor do planeta e de todas as bestas, mas de vez em quando há coisas...
"Na madrugada de 14 de Julho, alguém entrou nas instalações do canil-gatil de Évora presume-se que por cima da vedação, escolheu dois cães tidos como dos mais agressivos para os gatos, libertou-os das coleiras que os prendiam e abriu a entrada do gatil.
Depois, os cães foram largados e seguiu-se uma horrorosa chacina.
Quando, pelas nove horas da manhã, o tratador dos animais Marco Rebocho chegou às instalações, deparou-se com uma imagem indescritível. Ao ataque só sobreviveram quatro gatas adultas e uma cria. Pelo chão ficaram espalhados pedaços de 15 gatos adultos e crias.
Um dos dois cães envolvidos na macabra luta estava morto de fadiga. Mas outros quatro canídeos não envolvidos na matança apresentaram-se bastante debilitados e acabaram por morrer, aparentemente vítimas de envenenamento..."
in Público de quarta-feira, dia 20 de Julho, por Carlos Dias
Afinal, quem são as bestas?
"Na madrugada de 14 de Julho, alguém entrou nas instalações do canil-gatil de Évora presume-se que por cima da vedação, escolheu dois cães tidos como dos mais agressivos para os gatos, libertou-os das coleiras que os prendiam e abriu a entrada do gatil.
Depois, os cães foram largados e seguiu-se uma horrorosa chacina.
Quando, pelas nove horas da manhã, o tratador dos animais Marco Rebocho chegou às instalações, deparou-se com uma imagem indescritível. Ao ataque só sobreviveram quatro gatas adultas e uma cria. Pelo chão ficaram espalhados pedaços de 15 gatos adultos e crias.
Um dos dois cães envolvidos na macabra luta estava morto de fadiga. Mas outros quatro canídeos não envolvidos na matança apresentaram-se bastante debilitados e acabaram por morrer, aparentemente vítimas de envenenamento..."
in Público de quarta-feira, dia 20 de Julho, por Carlos Dias
Afinal, quem são as bestas?
terça-feira, julho 19, 2005
Cristais de açúcar
Dias de inocência
de açucar polvilhados
Sorrisos cúmplices
de ignorância maquilhados
Abraços fraternos
corações agrilhoados
Crescer é violar
de açucar polvilhados
Sorrisos cúmplices
de ignorância maquilhados
Abraços fraternos
corações agrilhoados
Crescer é violar
sexta-feira, julho 15, 2005
Dez para as nove e meia
Rasgas o peito e a vaidade
Vestes a fria pele do lagarto
da cor do desgosto
mal curado
As manhãs da vida parecem distantes
e o fim ao virar de uma esquina rugosa
que acena desbragada
dos confins da depressão
Olhas para os espelhos
que quebraste
para as portas que não fechaste
e aumenta a confusão
Os métodos que não seguiste
perseguem-te e tentam
marcar na tua nova pele de
lagarto-da-cor-do-desgosto
o cunho da normalidade
A normal normalidade normalizadora
que é pior que nada, mas o próprio esmagador
nada
Trânsito, filhos, café instantâneo
torradas com margarina fina
que delícia
E os ombros que descaem
E os olhos que embaciam
prisioneiros
do nevoeiro sujo
das palavras sujas
desta vida suja
em que afocinhas
e te esfregas
Os lençois suados de lágrimas
e semen que te puxam para baixo
que te seduzem para o escuro
são a doce armadilha, o intenso mosto
a toca de um homem com pele de lagarto
da cor do desgosto
Vestes a fria pele do lagarto
da cor do desgosto
mal curado
As manhãs da vida parecem distantes
e o fim ao virar de uma esquina rugosa
que acena desbragada
dos confins da depressão
Olhas para os espelhos
que quebraste
para as portas que não fechaste
e aumenta a confusão
Os métodos que não seguiste
perseguem-te e tentam
marcar na tua nova pele de
lagarto-da-cor-do-desgosto
o cunho da normalidade
A normal normalidade normalizadora
que é pior que nada, mas o próprio esmagador
nada
Trânsito, filhos, café instantâneo
torradas com margarina fina
que delícia
E os ombros que descaem
E os olhos que embaciam
prisioneiros
do nevoeiro sujo
das palavras sujas
desta vida suja
em que afocinhas
e te esfregas
Os lençois suados de lágrimas
e semen que te puxam para baixo
que te seduzem para o escuro
são a doce armadilha, o intenso mosto
a toca de um homem com pele de lagarto
da cor do desgosto
segunda-feira, julho 11, 2005
(Des)equilíbrios
As férias acabaram. Uma constatação por demais evidente quando te vês reintegrado na monótona procissão rodoviária até à capital.
Enquanto percorria a Segunda Circular, instalado na minha modesta carripana, fui fazendo contas às tarefas que tinha pela frente: esgalhar um artigo sobre a campanha portuguesa de qualificação para o Mundial de voleibol; digerir mais algumas ideias de trabalho, limpar a minha caixa de e-mail e, já agora, acabar com o meu blogue.
Pois é. A verdade é que nunca me senti muito à vontade em despir-me em público. Algo que se tem tornado cada vez mais penoso nos últimos tempos.
Também nunca fui gajo para perder o meu precioso tempo a dedilhar banalidades em cima de generalidades. Se, aqui e ali, o fiz o peço desculpa.
E se digo que me tenho despido em público, a verdade é que este "público" são amigos, conhecidos e alguns estranhos.
O problema é que na vida tudo muda e essas categorias são tudo menos fixas.
Aquele a quem hoje chamas amigo, pode muito bem ser um estranho. Ou então gostarias que fosse. A verdade é que de conhecido, és obrigado a perceber, tem muito pouco.
Tudo isto gira à volta de um conceito escorregadio: o equilíbrio. Palavra que sugere estabilidade, solidez, equidade, a verdade é que, na vida, e no que às pessoas diz respeito, o equilíbrio é tudo menos sólido, mas antes fluido, adaptável.
E é na falta dessa adaptabilidade, que surgem os desequilíbrios. Desequilíbrios de quem não se adapta, de quem não vive bem com a mudança. Porque não tem capacidade, ou coragem, para o fazer.
Confesso que também padeço, por vezes, desse mal. Às vezes desculpo-me com essa deficiência com as circunstâncias atribuladas da minha vida. Mas também quem se pode gabar de ter uma vida fácil? Acho que ninguém.
Assim, bem ou mal, com muitos trambolhões, cabeçadas e hesitações, tiros no pé e muitas segundas oportunidades e ajudas, lá fui levando a água ao meu moinho. Como toda a gente. Ou não?
Uma das razões que me levam a considerar encerrar aqui esta participação virtual, talvez mesmo a mais forte, é perceber que aquilo que deveria ser um espaço de reflexão, de troca de ideias e até, porque não, de tentativas mais ou menos conseguidas de fazer literatura, está a transformar-se numa praça de troca, não de ideias, mas de insultos, de recadinhos (e o diminuitivo refere-se à mesquinhez dos textos e seus autores, e porque não, à menoridade intelectual) e mal destiladas invejas.
Não quero entrar nesse jogo. Não vou entrar nesse jogo. Não tenho feitio nem paciência.
Esta página está com a cabeça no cepo. Como a minha paciência.
Enquanto percorria a Segunda Circular, instalado na minha modesta carripana, fui fazendo contas às tarefas que tinha pela frente: esgalhar um artigo sobre a campanha portuguesa de qualificação para o Mundial de voleibol; digerir mais algumas ideias de trabalho, limpar a minha caixa de e-mail e, já agora, acabar com o meu blogue.
Pois é. A verdade é que nunca me senti muito à vontade em despir-me em público. Algo que se tem tornado cada vez mais penoso nos últimos tempos.
Também nunca fui gajo para perder o meu precioso tempo a dedilhar banalidades em cima de generalidades. Se, aqui e ali, o fiz o peço desculpa.
E se digo que me tenho despido em público, a verdade é que este "público" são amigos, conhecidos e alguns estranhos.
O problema é que na vida tudo muda e essas categorias são tudo menos fixas.
Aquele a quem hoje chamas amigo, pode muito bem ser um estranho. Ou então gostarias que fosse. A verdade é que de conhecido, és obrigado a perceber, tem muito pouco.
Tudo isto gira à volta de um conceito escorregadio: o equilíbrio. Palavra que sugere estabilidade, solidez, equidade, a verdade é que, na vida, e no que às pessoas diz respeito, o equilíbrio é tudo menos sólido, mas antes fluido, adaptável.
E é na falta dessa adaptabilidade, que surgem os desequilíbrios. Desequilíbrios de quem não se adapta, de quem não vive bem com a mudança. Porque não tem capacidade, ou coragem, para o fazer.
Confesso que também padeço, por vezes, desse mal. Às vezes desculpo-me com essa deficiência com as circunstâncias atribuladas da minha vida. Mas também quem se pode gabar de ter uma vida fácil? Acho que ninguém.
Assim, bem ou mal, com muitos trambolhões, cabeçadas e hesitações, tiros no pé e muitas segundas oportunidades e ajudas, lá fui levando a água ao meu moinho. Como toda a gente. Ou não?
Uma das razões que me levam a considerar encerrar aqui esta participação virtual, talvez mesmo a mais forte, é perceber que aquilo que deveria ser um espaço de reflexão, de troca de ideias e até, porque não, de tentativas mais ou menos conseguidas de fazer literatura, está a transformar-se numa praça de troca, não de ideias, mas de insultos, de recadinhos (e o diminuitivo refere-se à mesquinhez dos textos e seus autores, e porque não, à menoridade intelectual) e mal destiladas invejas.
Não quero entrar nesse jogo. Não vou entrar nesse jogo. Não tenho feitio nem paciência.
Esta página está com a cabeça no cepo. Como a minha paciência.
quarta-feira, junho 08, 2005
Pés de barro
Durante a vida de um homem, existem algumas questões que pairam insistentes. Nuvens etéreas que, de quando em quando se fazem sentir, como um arrepio...
No meu caso, uma dessas questões tem a ver com...(rufar dos tambores)...os pés.
A primeira vez que tomei conhecimento deste problema fundamental foi graças a uma mulher. Que não gostava dos pés e tal. Desvalorizei. Mas mais tarde voltei a encontrar esse "problema", com outra mulher. Modelo fotográfico, atleta, gira e tal, corpo escultural e...pés feios. Feios? Ela dizia que sim, mas quem estava a olhar para os pés?
E como toda a problemática da pedicultura me foi apresentada por mulheres, cheguei a pensar que fosse uma daquelas coisas de gaja, como a síndrome pré-menstrual e as revistas que dizem coisas como "conquiste o seu homem na cama".
Puro engano.
De repente, ao conversar com alguns amigos daqueles bem machos que bebem cerveja ao litro e curtem futebol, recebi um soco no estomâgo: "Pés? Eh pá, muito importante. Digo-te mais, era incapaz de fazer o que fosse com, deixa ver...a Angelina Jolie por exemplo (silêncio reverentemente religioso) se ela tivesse os pés feios. Só de imaginar uns pés feios a tocar-me..."
Ok, este foi o caso mais extremo. Mas o que é certo é que depois, após apurada investigação, descobri toda uma tribo de adoradores de pés, de amantes de sandálias, de fanáticos dos saltos altos.
Gosto de pensar que sou dotado de apurado sentido estético, logo até distingo o que é isso de um pé bonito. Mas será assim tão relevante?
E as mãos? E os cotovelos? E os pulsos? Sei lá, de repente, todo um universo anatómico pouco explorado se abre diante dos meus olhos. Não como partes discretas bem integradas num todo que se quer harmonioso, mas como elementos valiosos "per se".
Tudo isto porque hoje o 24 Horas trazia na manchete que Daniela Cicarelli tinha "pés feiosos". Sim? e daí?
Será que a beleza, esse valor esguio e vaporoso, depende da "perfeição" (outro conceito perigosíssimo) anatómica de coisas como os pés?
A beleza é uma coisa estranha. Uns perseguem-na obsessivamente, outros não. Uns pensam que são belos sem o ser quando quem o é geralmente nem percebe. Porque a verdadeira beleza não pode depender da perfeição de uns pés. Não pode.
E depois existem ainda outros casos: os daqueles que pensamos que são belos. E, curiosamente, eles também pensam que o são; e vivemos todos nessa entorpecedora ilusão. Até lhes olharmos para os pés e percebemos que são feios...de barro.
No meu caso, uma dessas questões tem a ver com...(rufar dos tambores)...os pés.
A primeira vez que tomei conhecimento deste problema fundamental foi graças a uma mulher. Que não gostava dos pés e tal. Desvalorizei. Mas mais tarde voltei a encontrar esse "problema", com outra mulher. Modelo fotográfico, atleta, gira e tal, corpo escultural e...pés feios. Feios? Ela dizia que sim, mas quem estava a olhar para os pés?
E como toda a problemática da pedicultura me foi apresentada por mulheres, cheguei a pensar que fosse uma daquelas coisas de gaja, como a síndrome pré-menstrual e as revistas que dizem coisas como "conquiste o seu homem na cama".
Puro engano.
De repente, ao conversar com alguns amigos daqueles bem machos que bebem cerveja ao litro e curtem futebol, recebi um soco no estomâgo: "Pés? Eh pá, muito importante. Digo-te mais, era incapaz de fazer o que fosse com, deixa ver...a Angelina Jolie por exemplo (silêncio reverentemente religioso) se ela tivesse os pés feios. Só de imaginar uns pés feios a tocar-me..."
Ok, este foi o caso mais extremo. Mas o que é certo é que depois, após apurada investigação, descobri toda uma tribo de adoradores de pés, de amantes de sandálias, de fanáticos dos saltos altos.
Gosto de pensar que sou dotado de apurado sentido estético, logo até distingo o que é isso de um pé bonito. Mas será assim tão relevante?
E as mãos? E os cotovelos? E os pulsos? Sei lá, de repente, todo um universo anatómico pouco explorado se abre diante dos meus olhos. Não como partes discretas bem integradas num todo que se quer harmonioso, mas como elementos valiosos "per se".
Tudo isto porque hoje o 24 Horas trazia na manchete que Daniela Cicarelli tinha "pés feiosos". Sim? e daí?
Será que a beleza, esse valor esguio e vaporoso, depende da "perfeição" (outro conceito perigosíssimo) anatómica de coisas como os pés?
A beleza é uma coisa estranha. Uns perseguem-na obsessivamente, outros não. Uns pensam que são belos sem o ser quando quem o é geralmente nem percebe. Porque a verdadeira beleza não pode depender da perfeição de uns pés. Não pode.
E depois existem ainda outros casos: os daqueles que pensamos que são belos. E, curiosamente, eles também pensam que o são; e vivemos todos nessa entorpecedora ilusão. Até lhes olharmos para os pés e percebemos que são feios...de barro.
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