terça-feira, abril 15, 2008

Lagido ou a atracção do abismo



Desde que comecei nesta treta de descer ondas (que, convenhamos, não foi assim há tanto tempo) que o meu amigo Garcia me fala do Lagido como um desafio "para homens".

De facto, falamos de uma onda que quebra ao largo do Baleal, em Peniche. Uma esquerda rasa e triangular, ouvi dizer. Raramente a vi como deve ser, também porque, convenhamos, o spot é pequeno e sempre cheio de penicheiros avarentos.

Mas também porque falamos de um pico em que, graças à laje que lhe dá o nome, podemos estar com água pela cintura no meio do mar. O que significa que em caso de queda, temos para aí meio-metro de H2O para nos aparar a queda e depois...a pedra.

Para homens, diz o Garcia. Acho que já estou preparado. A questão é se o meu crânio também...

E há (mais) dias assim




Ia escrever qualquer coisa mas, honestamente, estou exaurido de força, de paciência, de entusiasmo.

Nota: O mar vai crescer mas o vento está ao contrário do ideal (há dias assim)

quinta-feira, abril 03, 2008

Memórias

Interrompo a marcha escadas acima, em direcção à casa da minha avó. Espero por ela agarrado ao corrimão, com o queixo pousado na madeira escura, polida e macia: "Vó, estive a pensar...não quero deixar de ser criança. Os adultos só pensam em dinheiro e só trabalham, não brincam nem aprendem nada. Não precisava de crescer mais. Sei que vou crescer, mas mesmo quando for grande vou ser criança. Acha que dá?..."

Porra, avó, não me disseste que seria tão difícil...

Nunca a dor foi tão divertida

quarta-feira, março 26, 2008

Pelos Cães

Vamos fazer qualquer coisa contra a eugenia canina enquanto os fascistas não fazem o mesmo connosco.

http://www.peloscaes.org/

domingo, março 23, 2008

Paris:Luce vers Tenebrae



Se não contarmos com as escalas no Charles de Gaulle, esta é a quarta vez que estou em Paris. Paris…
Só o nome faz ressoar uma escala de referências literárias, cinematográficas, plásticas. Como uma escala numa espécie de teclado de piano civilizacional. Porque se Nova Iorque é a Roma da actualidade e Roma é a Roma de sempre... Paris é Paris.
É a cidade com que o Mundo sonha quando sonha. Não são os cafés de esquina -- tão “charmant”, não acha querida? -- não são as lojas, os museus, as pernas das parisienses, emblematicamente quase sempre magras e despidas, mesmo no Inverno (Bem-vindo milagre de nylon, as meias de senhora…)

Não, também não são os monumentos esmagadores, as grandes avenidas ou, por harmonioso contraste, os bairros históricos dos artistas e das prostitutas que os alimentavam e nutriam, sim, que são coisas bem diferentes. Afinal, o seio que beijamos também é a mama que nos dá o leite. É tudo uma questão de perspectiva.

Ah, essas maravilhosas ruelas tão estreitas, recurvas e misteriosas como os caprichos das mulheres. Bem, pelo menos de algumas que conheci…

Não e sim. Paris é tudo isso, mas também é tão mais que isso, bolas.
Paris é sempre a primeira vez que cá passamos. Quando somos jovens, embora já não inocentes. Quando insistimos naquelas parvoíces que se fazem quando vivemos o sonho dos outros: Lanchamos nas esplanadas dos tais cafés de esquina, perdemo-nos em Montparnasse, visitamos a Defence e a Bastilha, Notre Dame, o Quartier Latin e claro, a senhora de toda a cidade, a Torre Eiffel. Lá está ela, ponta-de-lança, literalmente, de uma tecnologia que hoje não é mais que arte em ferro e até romance.

Mas o que não é romance em Paris?

Subimos ao cimo da torre a pé, pelo menos a parte que é permitida sem recorrer ao elevador, entupido por intermináveis filas de turistas americanos e espanhóis e italianos e portugueses e…não, nós? Não, somos jovens, estamos apaixonados e não somos como ninguém, não é?
Lembras-te como chorei quando pensei que o “puto” não ia ver aquilo nunca? Que era dono do Mundo e nunca tinha sequer vindo a Paris? Pensando bem, deve ter sido das últimas vezes que consegui chorar. Já lá vão quase 10 anos. Merda, como o tempo passa.
Menos para Paris. A cidade Luz…pois.
Uma Luz fria como o Inverno que resiste lá fora. Acho que ninguém lhe explicou que aqui em França a Primavera também começa dia 21 de Março.

Nunca fui grande adepto da Luz. Vá, piadas clubísticas aqui não…
A verdade é que a escuridão era mais o meu género. Aquela que me escondia debaixo da cama ou a que vertia para o papel nos meus tempos de adolescente. A idade do armário…pois…sempre achei que devia ser rebaptizada como a idade da gaveta, pelo menos para todos aqueles, e não são assim tão poucos, que guardam papéis rabiscados nas gavetas. Escuras, claro.

Tão escuras como os cabelos da minha mãe. Ela tinha longos cabelos negros que lhe davam pelas costas.
Agora, o cabelo é mais curto e apesar de algum, pouco, esforço, e muita tinta, percebe-se que já estaria raiado de branco. A escuridão agora é lá dentro. Mas não é uma escuridão protectora: é açambarcadora, sufocante, que engoliu a minha mãe com ela. Desde que o “puto” partiu.

Que diabo, quem diria que uma viagem do café para casa, ainda por cima de mota, que é um veículo tão ágil, haveria de demorar 10 anos?

Raios te partam.Tenho saudades.

A verdade é que esta é a minha quarta vez em Paris e percebo que cada vez gosto mais…de Roma. É mais quente, mais aconchegante. E quanto à luz? Os ocres das paredes das casas romanas valem bem as luzes de Paris. A única cor que bate isso é a de Lisboa quando passamos o Tejo de barco. Mas depois chegamos ao Cais do Sodré e o rosa-azul-dourado (à falta de melhor descrição) transforma-se noutros tons bem menos poéticos. Mas, enfim, é o amor-ódio que caracteriza todos os portugueses pelo que é deles.

E eu, em algumas coisas, sou muito português.

sexta-feira, março 14, 2008

Cães danados



Começo por confessar que votei no PS nas últimas eleições legislativas.

Ok, arrumada essa questão, deixem-me ARRASAR esses fascistas de merda!

Então, agora querem proibir a importação, criação e posse de 7 raças perigosas de cães. A saber, o cão de fila brasileiro, o Pit Bull Terrier, o Staffordshire Terrier, o Rotweiller, o dogue argentino, o bull terrier e o Tosa Inu.

Três palavras: mas estão malucos?!

O que é isso de raças perigosas? Porque são maiores e têm uma dentada mais forte? Um Labrador poode ser tão perigoso como um Rotweiller se for treinado para isso. Aliás, há poucos cães com temperamento tão equilibrado como o Rottweiller.

Costumo dizer que não há cães perigosos, há donos perigosos. Mesmo uma arma de fogo só mata se apertarem o gatilho. É pá, e nenhum cão é uma arma. É-o tanto como um carro. Se atirar um automóvel contra alguém...

Estas raças têm todas grandes qualidades físicas, temperamentos valentes e fidelidade ao dono. Tão fiéis que se o dito dono for (esse sim) uma besta eles não percebem. Também há o dono fraco que não se sabe impor ao cão e isso também é uma fonte de problemas.
Em suma, se não tens mãos para um carro rápido, compra um Polo 1.2 (private joke).

O grande (único) problema são os donos. Porque, infelizmente, 90% das pessoas que compram um pitbull ou um Rotweiller têm graves problemas de afirmação (ou uma pila pequena) e compensam com o animal. Os cães são o espelho do dono, pela raça que o dono escolhe e pela própria socialização do animal. Um dono tímido tem um cão tímido um dono afável e sociável tem um cão com as mesmas características, etc.

E nem me ponham a falar dos fdp que se metem nas lutas de cães e criam verdadeiros criminosos de 4 patas.

Agora se vamos pelas "raças perigosas"...daqui a anos vamos estar a falar de "racismo" animal.

Post Scriptum (por razões óbvias nem uso a abreviatura desta expressão): O PS também quer proibir os piercings na língua...a seguir, quem sabe, definir o que fazemos oiuo não na cama e com quem. Porque não?

Post Scriptum 2: a foto que ilustra este post é de um perigosíssimo Rottweiler. Agora somos todos obrigados a ter Golden Retrievers e Cocker Spaniels.

E dizem-se socialistas??? Foda-se, agora percebo porque é que o Cavaco curte estes gajos.

quinta-feira, março 13, 2008

Um mini clube



A primeira vez, até pensei que fosse coincidência. Mas seria? Haveria outro mini azul e branco perto da minha casa com quem o gajo me confundisse? Mas à segunda vez não havia dúvidas.

Aconteceu-me duas vezes ao sair de casa cruzar-me com um mini preto que de ambas as vezes me saudou com os máximos. A minha reacção foi sempre a mesma: perplexo com o gesto, apenas acenei a cabeça, tentando perceber se o conhecia de algum lado.

O facto é que não. O tipo estava a saudar um tipo que, como ele, tomou a opção apaixonada (leia-se irracional) de comprar um mini.

Adoro o meu carro, mas reconheço que é uma escolha pouco lógica. Senta quatro pessoas (à frente tem espaço em barda mas os passageiros atrás não podem ter mais de 1'75 se não ficam um pouco desconfortáveis), e a bagageira é excelente para levar um saco de viagem. Ponto.

De resto, anda muito bem (0 aos 100km em 9,9s 190km/h velocidade de ponta anunciada, embora já tenha dado 185 km/h e com muita rotação para dar na 6ª...) arruma-se bem, é seguro, dá um gozo do caraças de conduzir (curva que é um sonho) e, porque não dizê-lo, é lindo.

Mas agora, começo a perceber que mais do que um carro comprei um bilhete para um clube. É que por ser um carro pouco racional...até porque não é barato...há poucos, e os donos partilham um sentimento de solidariedade ou, porque não dizê-lo, fraternidade. Como se a nossa opção de veículo nos distinguisse do resto do mundo.

Enfim, da próxima vez, respondo-lhe com máximos também. Afinal, nós dos minis temos que ser uns para os outros.

quarta-feira, março 12, 2008

Can I Play With Madness?

Can I?

Sonhar

Boa pergunta

Alguém tenta responder?

segunda-feira, março 10, 2008

Fuga

Às vezes fugir é não sair do mesmo sítio.

domingo, março 09, 2008

Estou grávido


E que tal se eu largasse este engano que todos os dias me engana? Que tal se me despedisse, largasse tudo, refugiasse num buraco cheio de luz e sal e escrevesse o livro de que estou grávido? Sim, porque estou grávido e ando a matar a minha criança todos os dias. Aos bocadinhos.

É uma criança belíssima de feia e grotesca de bela. É ensurdecedora e silenciosa, ofuscante de escuridão. É sangue e tripas, penas de anjo e bolas de sabão; é lágrimas e saliva misturadas numa taça de vinho amargo de saudade e dulcérrimo de amor.

Quero abrir o peito e deixá-la sair pelas bocas dos meus dedos. Como um coro.

E que tal? Que achas?

Há monstros entre nós


"Os dois homens terão actuado de cara descoberta tanto no homicídio de Alexandra Neno como no de Diogo Ferreira, ambos mortos com a mesma arma mas em zonas distantes nos arredores de Lisboa e com quatro horas de intervalo."

Correio da Manhã, 08 Março

quarta-feira, março 05, 2008

Para a Xana

Descansa em paz.

domingo, março 02, 2008

sábado, março 01, 2008

Náusea

Quando me disseram que a esposa do Fernando Santos da SportTV foi morta a tiro, fiquei chocado.

Quando percebi que tinha sido na terra onde nasci e vivi durante 30 anos, num sítio onde passo quase diariamente, fiquei siderado.

Quando me disseram que a "Alexandra Santos" era da UAL, fiquei assustado.

Quando me explicaram que tinham morto a Alexandra Neno, a Xana...

Há dias em que me revolta já não ter lágrimas, apenas uma náusea doentia.

quarta-feira, fevereiro 27, 2008

Porquê?


A vida, às vezes, mas só às vezes, podia ser previsível também nas coisas que correm bem.

terça-feira, fevereiro 19, 2008

Coração de Polipropi...quê?




Polipropileno. PP para os amigos. Para os não iniciados, devo explicar que é uma das duas substâncias usadas no núcleo (core) de todas as pranchas de bodyboard. Sendo a outra o polietileno (PE).

Ainda para os não iniciados: não desistam já de ler, bocejando, ou com um "lá está este gajo com a merda do bodyboard, irra!" (Citação à la Hugo Alves)

Esta foi a minha primeira prancha "a sério", um pedaço de pp com o qual fiz as minhas primeiras ondas "a sério", arranquei o meu primeiro 360º, apanhei o maior susto da minha vida (Praia Grande, num qualquer sábado de manhã, 3 ondas de set na cabeça e a sensação que "era desta").

Alegrias e sustos, algumas frustações, muita emoção.

Um pedaço de PP que para mim foi uma fuga para muita coisa má, um bilhete para um sonho adiado, uma teima resolvida (menos uma).

Mas falo no passado porque há coisa de uma semana fiz um buraco na minha menina. Uma ferida feita numa qualquer pedra traiçoeira.

Agora o problema é estudar uma sucessora, já que o sacana do australiano que dá o nome à tábua mudou o "shape" (formato) e já não se adapta tanto às minhas necessidades.

Agora, e ainda sem herdeira à vista, uma coisa garanto: a minha companheira com coração de PP vai ser a primeira de uma colecção de gloriosas "reformadas" com que pretendo decorar a minha sala de troféus.

Pode parecer estúpido, mas ninguém é inocente no que concerne a guardar objectos com "importância sentimental".

Descansa em paz, menina

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

Onde está o wally?

Mais um vídeo do Special Edition 2007 com a presença de um vosso conhecido. Pista: o único otário num campeonato de bodyboard que trazia uma mala de designer italiano visivelmente identificada com o nome da marca na correia. Mau aspecto, eu sei...

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

Ouvi Dizer

domingo, fevereiro 10, 2008

Montanhas de Água II (Parabéns Miguel)





Na altura devida não coloquei esta foto porque o Miguel não a queria a circular na net. Mas agora é tarde, né? ;) Parabéns ao 3º classificado da categoria Action Sports do World Press Photo.

Uma foto memorável para marcar um dia inesquecível.

PS: Curiosamente, na altura em que publicámos a reportagem negaram-me as duas páginas porque "este jornal não é para exibir portfolios". Pois...engulam esta!

sábado, fevereiro 09, 2008

Catedral de vidro

Não se pode explicar, mas pode-se mostrar. Diz que Deus está lá dentro.

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

A missão do trovador

Dar voz a quem não a tem

Terceiro Mandamento



Wrath is everything

Segundo Mandamento




Wrath is your father, your mother, you lover.

Primeiro Mandamento




Wrath is your best friend

domingo, fevereiro 03, 2008

It´s a long way



IT'S a long way the sea-winds blow

Over the sea-plains blue, --

But longer far has my heart to go

Before its dreams come true.



It's work we must, and love we must,

And do the best we may,

And take the hope of dreams in trust

To keep us day by day.



It's a long way the sea-winds blow --

But somewhere lies a shore --

Thus down the tide of Time shall flow

My dreams forevermore.



William Stanley Braithwaite
"Punctuality is the thief of time."

- Oscar Wilde

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Ridículo


Sabemos que um país bateu no fundo quando se dá mais importância ao novo visual da Floribela, a estreia de Makukula (nos treinos) ou ao golo "histórico" do Cristiano Ronaldo, do que à instabilidade no Quénia, a subida taxas de juro, o aumento de 150% do pão, a pandemia de gripe, sei lá, o que seja.

Estamos no paroxismo do "pão e circo", sendo que não havendo pão, há circo. os palhaços são as Floribelas, os Ronaldos, as Merches, os Castel-Branco e os Morangos com ou sem açucar deste mundo. Não, os palhaços somos mesmo nós, os que perpetuamos o circo,alimentando-o na produção (como eu, confesso)ou no consumo.

Bater no fundo...não chega. Em tempos demos novos mundos ao mundo, agora damos novos fundos, porque todos os dias batemos mais abaixo do limite.

domingo, janeiro 13, 2008

A Caparica não é longe...



Poderá andar-se metido num amor a contragosto?
Claro que sim.

Um amor a contragosto é um amor em relação ao qual o sujeito que o sofre /palpita que está numa perspectiva catastrófica e que, em princípio, nada poderá fazer para evitar a catástrofe, que esta o espera no fim de tudo e se prepara para o mastigar sem contemplações, reduzindo-o a cisco.

" Reconquista-me!", diz o objecto desse amor a contragosto, entremostrando-se e furtando-se logo de seguida. E o sofrente do amor a contragosto compraz-se (afinal com imenso gosto!) em esfalfar-se e em arruinar-se nessa descida aos inferninhos do amor infeliz.

Como se chega- e para quê- a uma situação destas?
Por muitos caminhos e para muitos fins. Mas o que importa aqui dizer é que o amor a contragosto não é um amor partilhado. O sofrente nunca é igual a quem lhe inflige o sofrimento. É mais. Mais sentimento, mais tormento.

" Mas que figurões!", dirão as rãs que, na circunstância, sempre se juntam para fazer coro. É que eles- o sofrente e o que faz sofrer- não sabem que estão, na sua luta (assalto e defesa), a dar-se em espectáculo aos que, e ainda por cima isentos, assistem a essa terrível devoração afectiva.

De um amor a contragosto dificilmente se sai. É como um vício arraigado, é como um redemoinho que puxa irresistivelmente para baixo.

Talvez a única maneira, como ensinam certos nadadores experimentados em águas traiçoeiras, seja o sofrente deixar-se ir até ao fundo e aí, com um golpe rápido de braços e de pernas, sair do medonho vórtice. Então, poderá voltar à superfície, nadar para terra, sentar-se na areia e dizer:
- Olha do que me safei!- O mundo recobrará cor e significado.

Quem tiver na situação de sofrente, metido num amor a contragosto, pode treinar esse processo de salvação. A Caparica não é longe.

Alexandre O'Neill ( Uma coisa em forma de assim)

terça-feira, janeiro 08, 2008

Medo




Nunca primei pela coragem. Sou demasiado inteligente para ser corajoso. É-se herói muito mais facilmente quando se é, se não burro, pelo menos, inconsciente.

Nunca fui (assim tão) burro e fui atirado para as águas frias da consciência muito cedo.

A morte do meu irmão, a dois dias de eu fazer 25 anos, foi um episódio (re)fundador: ensinou-me o valor da vida e mostrou-me que morrer é fácil. Demasiado fácil.

A maior parte das pessoas passa pela maior parte da vida abençoado com a ignorância deste facto.

Desde que me dediquei à nobre arte de descer ondas (é a única referência), confrontei-me algumas vezes com situações limite. Houve mesmo uma vez em que pensei, mesmo, que ia morrer. O facto de ter tido tempo para pensar nisso debaixo de água diz muita coisa...

O medo pesa. Duplamente. Porque nos impele a viver mas, ao mesmo tempo, impede-nos de viver irreflectida e intensamente.

E esse é o seu paradoxo.

A vida seria muito mais simples se eu fosse burro.

segunda-feira, dezembro 17, 2007

Montanhas de Água

Tenho recebido algumas críticas de amigos que me acusam de estar a reduzir este espaço (e a minha cabeça) a um repositório de ondas surfadas e poor surfar.

Talvez. Quem me conhece bem, sabe que sou dado a paixões arrebatadoras. É verdade, não riam. E a verdade é que estou apaixonado pelo mar. Não, não vou elaborar sobre isto para não dizer grandes disparates.

Mas tenho de vos falar do 3º Special Edition da Nazaré: para os leigos, apenas dizer que...como descrever...?

Ok,imaginem 20 loucos a mandarem-se abaixo de montanhas de água com 6 e 7 metros (que é como quem diz 10 metros em medida não-surfista) com o recurso a, apenas, pranchas de bodyboard e barbatanas.

Montanhas de água, foi o que eu vi ontem na Praia do Norte, Nazaré. Não vos peço esforços de imaginação. Seguem algumas fotos.









sexta-feira, dezembro 07, 2007

Finalmente...a foto


E deviam ter visto no dia anterior...

sexta-feira, novembro 30, 2007

Mãos atadas


Prometi que nunca mais deixaria que me manietassem, que me enclausurassem, de corpo ou espírito. Porque os que partiram deram-me as chaves das algemas para que, assim que lavasse a água que me queimava os olhos, pudesse nunca mais chorar.

Em parte, resultou. Nunca mais chorei e, creio, nunca mais o farei. Mesmo que quisesse acho que me esqueci de como se faz.

Mas falhei. Deixei que me atassem novamente as mãos e cá estou, mais uma vez, prisioneiro nem sei bem do quê, objecto de intrigas, invejas e afogado num asco sufocante.

Tenho as mãos atadas. Mas libertar-me-ei. E não faço promessas. Não preciso.

sexta-feira, novembro 23, 2007

Sem palavras


As palavras são um empecilho. Uma ponte que rui, ruidosamente, cada vez que te tento explicar, mostrar quem (o quê, porquê) sou. Apetece-me rasgar o peito, abrir as costelas para cada lado, como de um livro se tratasse, arrancar o músculo palpitante e esfregá-lo, sangrento, numa folha de papel. Eis o meu testamento e a minha carta de amor.

A mais bela balada

Porque (também e cada vez mais) há dias assim...

quinta-feira, novembro 08, 2007

quarta-feira, novembro 07, 2007

segunda-feira, novembro 05, 2007

domingo, novembro 04, 2007

Jornal+ismo, Capital+ismo

Nunca quis discutir trabalho neste espaço. Sempre achei que era preferível guardar temas mais elevados ou mesmo mais limpos que a escravatura do homem pelo homem, termo marxista para o que é mais conhecido nos moldes modernos, e num termo também herdado pelo tio Karl, como Capitalismo (desculpem a asneira).

Capitalismo que, nos dias que correm, rima cada vez mais com jornalismo. Pelo menos com a indústria de produzir conteúdos que é ao que o jornalismo foi reduzido. Ou, como lhe chamo: charcutaria fina.

Exploração. Despedir os que ganham muito, manter os que ganham pouco e trabalham muito. A qualidade do produto é secundário, o que interessa é encher o chouriço (daí a charcutaria).

Recentemente, os administradores do grupo a que o meu jornal pertence -- e a merda começou precisamente com os grupos e para os "lobbies" políticos que legislam por sua encomenda --, vieram explicar que agora vamos ter de produzir conteúdos extra para o "site". E sim, claro, pelo mesmo preço. Um aumento de...contributo. A contrapartida era a formação em programas que se aprendem a dominar num par de horas. Ah...e mantermos os empreegos, o que hoje em dia... Vampiros de merda.

Hoje estive a falar com um empregado da SIC (somos todos operários agora) que explicou que agora trabalham para a SIC, para a SIC Notícias, para a SIC online, e ainda fazem uns "bicos" (a terminologia não é inocente) para o Expresso.

Temos de traçar a linha em algum lado. Infelizmente, como temos um sindicato que não existe, e que boicota sucessivamente a formação de uma Ordem dos jornalistas (perdiam os tachos), acho que a solução que se coloca a quem não está disposto a ser mais vampirizado e rebaixado é sair.

A porta está aberta.

quarta-feira, outubro 31, 2007

O maior dos crimes


A traição é o maior dos crimes porque pressupõe que também somos culpados...por confiar.

sábado, outubro 20, 2007

Há dias assim...




Animais


Passamos a vida a rejeitar o que de mais verdadeiro há em nós. O animal. A besta. O solo escuro e espesso que se esconde debaixo da fina camada de cultura que há em nós e que, ao mesmo tempo a suporta e alimenta.


Tudo o que fizemos desde que deixámos as cavernas há coisa de 50 mil anos não é mais que ecos do que somos. Feitos de cultura. De verniz.


Somos animais. Sim, e daí? Porque bestas só as humanas.

domingo, outubro 14, 2007

Tempo para respirar


Peço desculpa mas, para os mais distraídos, chegou o vento Leste...

segunda-feira, outubro 08, 2007

Pois, exactamente como Beverly Hills


Um amigo meu ( e sei que esta é uma expressão que tem o seu quê de pleonástico, mas faz sentido poético) teve uma gripe. Uma mística doença que o levou a fazer aquilo que chamo arqueologia das gavetas, e que descobertas ele fez!

Aparentemente, foi dar com cartas e mais do que isso, memórias, de tempos idos, os dos primeiros anos de faculdade, em que essa histórias dos e-mails era para ricos que tinham essa misteriosa internet em casa (os telemóveis estavam também a começar a aparecer em força). Sim, eram os primeiros anos da década de 90. Eu disse arqueologia, não foi?

Ora, passando os olhos por essas ditas cartas, muitas vezes, como ele diz, entregues em mão, porque faziam sentido não pela distância física, mas pela proximidade espiritual que permitiam, ele recordou. E escrevendo sobre isso, fez-me recordar também.

Escreve, com uma lucidez que nos vai sendo rara (sobretudo nele ;) ), que dizia, então que a amizade daquele grupo era como a de "Beverly Hills", numa referência à série norte-americana "Beverly Hills 90210" , pelo menos, acho que era esse o código postal...

Meu amigo, a razão pela qual não guardo mais do que recordações dessa época, é por que as tuas palavras foram exactas e proféticas. Afinal, não é por coincidência que na foto que colocaste no teu "post", não está lá a minha grata figura. É que como na tal série, havia amizades, mas também romances, traições e sim, até os maus da fita...

Tenho penaa que tudo tenha terminado assim (pelo menos para alguns), porque guardo muitas e gratas recordações desses tempos. E até as más foram marcantes e produtivas. Foram anos intensos e marcantes. Por tudo o que se passou dentro mas também, e sobretudo, fora do grupo.

Cresci. Crescemos todos. Mas as minhas gavetas estão vazias, amigo, tenho muito mais para lá meter. No Futuro.

sábado, setembro 15, 2007

Honestidade


Diz-se que o valor de um bem é inversamente proporcional à sua abundância. Detesto economia mas não deixo de reconhecer a inteligência desta regra. O meu único consolo é pensar, perdão, saber, que uma verdade tão indiscutível deve ter precedido a invenção da troca de bens da mesma maneira que o Homem precedeu o cidadão.


A prova que esta regra é universal e fundamental é que tal se aplica a mais que valores materiais.


Vejam a Honestidade. É com caixa alta mesmo. A Honestidade é preciosa. E rara.


Tenho uma amiga que é minha Amiga, ainda hoje, numa altura em que muitos outros já se ficaram pelo caminho, precisamente porque consegue ser honesta. Honesta até à brutalidade. Às vezes exagera, mas só porque acredita naquilo que diz, e quando honesto, até o erro se perdoa.


Gosto dela e invejo-a precisamente porque consegue ser honesta. Porque eu não consigo.


Poderia dizer que tem a ver com a minha complexa personalidade, com as proverbiais camadas de cebola que envolvem o meu precioso mal tratado ego.


Não. Não sou honesto porque sou fraco. Porque tenho medo de ficar só. Porque preciso de quem me estenda a mão ou, pura e simplesmente, esteja. Que não me deixe só no quarto escuro em que entrei e de onde tenho medo de sair se não a espaços, como um insecto que não pode estar demasiado tempo fora da toca sob pena de secar e arder.


Tenho inveja da minha amiga. Invejo-a pela sua força. Não aquela que persigo nos ferros que levanto fechado no ginásio. Não é a força da carne mas a que está debaixo e além desta.


No fundo sou fraco. Triste e enganadoramente fraco. Porque gostaria de ser honesto. Honestamente fraco em vez de debilmente honesto.

terça-feira, setembro 11, 2007

9/11

Porque às vezes as palavras são ridículas

domingo, setembro 09, 2007

Carta aberta à RTP*

Quero apenas manifestar a minha profunda revolta, e vergonha, pela profunda falta de critério, ignorância e até falta de patriotismo de uma empresa que eu e todos os portugueses financiamos. Assisto, neste momento, aos primeiros momentos do Portugal-Escócia, primeiro encontro da selecção nacional PORTUGUESA (o termo deve ser-vos familiar poprque faz parte do nome da empresa que todos os anos me leva parte dos impostos e que também deveria ser a minha) no Mundial de râguebi. O maior evento desportivo do ano e que foi olimpicamente ignorado pela televisão pública. Infelizmente, há apenas duas coisas que posso fazer: manifestar o meu profundo desagrado e legítima indignação e dessintonizar a RTP da minha televisão. O primeiro passo está tomado e o segundo terá de esperar pelo final do jogo.

Cumprimentos

* Nota: Cópia de um e-mail dirigido à empresa

sábado, setembro 08, 2007

Produção? LOL

Para um amigo meu que gosta imenso de músicas "com produção". Discordamos muitas vezes, mas desta vez vais ter de me dar a palma: uma voz, uma guitarra e percussão. Poderoso

sexta-feira, setembro 07, 2007

Um documento

Heranças

Tinha para aí 12 ou 13 anos quando ouvi falar de Luciano Pavarotti pela primeira vez. Uma dádiva (mais uma) do meu padrinho para a minha educação. O meu padrinho foi uma espécie de pai intelectual para mim, muito porque, ansioso pela sua aprovação, andava a ouvir música clássica, com o esforço de um adolescente orfão que queria que gostassem dele.

Um esforço que me revelou aquela voz possante e figura simpática mas, mais do que isso, alguns dos mais preciosos tesouros da música (clássica e não só).

O meu padrinho morreu, mas deixou-me muita coisa. Deixou-me livros, discos, uma cultura geral. Agora foi a vez de Pavarotti, mas tal como o meu padrinho, ele também nos deixa a sua voz...e a emoção.

domingo, setembro 02, 2007

Vrummmmmmm!!!!


Sem comentários. Estou apaixonado.

sábado, setembro 01, 2007

Como Cristo


Diga trinta-e-três. Trinta e três anos. Como é possível?! Bem, deve ser. Por enquanto, sinto-me bem longe da velhice mas é curios0 que só agora que chego à idade de Cristo sinto a cruz tão mais distante.

quarta-feira, agosto 22, 2007

English rose


A natureza humana tem destas coisas: passei a semana em Inglaterra, stressado, a escrever coisas que, sinceramente, já nem me lembro. Diariamente travando um duelo silencioso com o portátil que às vezes parecia olhar para mim, reclamando a minha atenção, como um pequeno ditador, silenciosamente sentado nas várias secretárias dos vários quartos de hotel por onde passei.

Pouco olhei para a paisagem, pouco apreciei esta oportunidade de viajar por um país estrangeiro, de beber a experiência. E é, agora, nas últimas horas, cruzando a verde e chuvosa paisagem de um Agosto que não o é (pelo menos para mim, que me redescubro latino e amante do tempo quente…quem diria), que os dedos me escorregam para o teclado. Finalmente, como uma prostituta que não sendo obrigada pelo dever profissional, redescobre o prazer e o amor.

Hoje em dia já não acontece frequentemente, escrever por prazer, quero dizer… o facto de passar a vida a escrever o que os outros querem acaba por ter esse efeito. Esquecemo-nos do que queremos, nós próprios dizer.
Não sei o que foi que me fez abrir o computador para brincar agora com as letras. Talvez o encanto de uma viagem de comboio pela verde ilha inglesa, o facto de não ter de trabalhar hoje, a perspectiva do regresso a casa ou a cara de anjo desta criança inglesa que está sentada à minha frente.

“Anjo”. Pois. Sou vítima dos arquétipos que me impingem desde puto. Uma lindíssima menina inglesa: não deve ter mais de 14 anos e prepara-se para aquela que é, provavelmente, a sua primeira viagem sozinha. A mãe esperou fora do comboio até ela partir, visivelmente ansiosa e preocupada com a aventura. E o facto de ter dois estrangeiros (sim, não enganamos) sentados à frente do seu tesouro não ajuda. Dois tipos de pele escura (é a primeira vez que me sinto escuro) e barba de três dias não é uma visão tranquilizadora.

Voltemos à criança. Gestos comoventemente inseguros levam-na a guardar os bilhetes de comboio e o passaporte num saquinho plástico. É magrinha como só as inglesas magras sabem ser. Está ainda à espera que as hormonas da adolescência façam a sua magia, mas adivinha-se que vai ser uma daquelas mulheres que provocará muitos torcicolos ao longo dos anos que aí vêm. Os nórdicos olhos azuis e os cabelos louros são mais ou menos vulgares por aqui, mas ela tem qualquer coisa de indefinível… Leva um coração de plástico multifacetado no fecho da mala, um amuleto de criança que um destes dias trocará por corações a sério.
Inocência, é isso. Já não me lembrava como era.
Não ajuda o facto de estar a ler uma revista cor-de-rosa com a curvilínea modelo Jordan na capa, nem as gomas que vai debicando. Quem sabe não se torna um daqueles hipopótamos louros que vi por cá. É impressionante a quantidade de mulheres obesas (e não digo gordinha, é obesa mesmo, na casa dos 100 kg) que andam por estas terras. Os genes britânicos parecem apontar para estruturas ósseas estreitas e longilíneas, mas a alimentação à americana anda a dar cabo deles.
Há outra hipótese: que se transforme numa daquelas desmioladas que também vi: bêbedas como cachos, em grupos de meia-dúzia, desfilando nas noites geladas e chuvosas de Agosto (não, não é engano) com mini-saias até ao pescoço e decotes até ao umbigo.
Espero que não. A imagem da miúda leva-me a outra que nos tem perseguido a todos. A de Madeleine McCann. Não, nem vou entrar por aí. Tenho uma opinião muito própria sobre o assunto e não me apetece sequer começar.

Vou apenas pensar que se as coisas fossem diferentes, esta podia ser a pequena Maddie daqui a uns anos, a viajar num comboio, sozinha, a caminho da idade adulta. Com um coração de plástico na mala e outro, que já foi menos plástico, escondido num peito estrangeiro à sua frente, atravessando a verde Inglaterra em cima de um risco de ferro.

quarta-feira, agosto 08, 2007

Como era mesmo aquele slogan...?


No início dos anos 90, quando me apercebi, tal como a esmagadora maioria dos miúdos da minha geração, que havia uns desportos que não metiam bola e se praticavam nas ondas, a brasileira Lightning Bolt lançava um "slogan" de sucesso: "Destrói as ondas não as praias".


Hoje, no Barbas, um dos meus "spots" de eleição nos dias que correm, essas sábias palavras de um qualquer genial publicitário surgiram na minha cabeça. Estava feliz da vida no pico à espera de umas ondas, quando vejo boiar à minha frente uma garrafa de detergente de lavar louça e outra, de cerveja, que boiava caprichosamente, de gargalo para cima, meio cheia de, suponho, água salgada.


O meu primeiro pensamento, confesso, foi de que a maldita garrafa de vidro podia facilmente partir a cabeça a algum incauto. Leia-se, a mim. Olhei à minha volta e percebi que nenhum dos cem (exagero literário, mas eram muitos) malucos que comigo partilhavam o pico nesta bela manhã de Agosto não desviava o olhar do horizonte, alheio aos objectos que, sinceramente, me estavam a estragar o idílio.


Colocou-se-me um dilema: Ou esquecer a cena e esperar que o mar arrastasse os objectos de forma inofensiva até à areia, ou agarrar na merda das garrafas, apanhar uma onda até à praia, fazer um "slalom" entre os quinhentos (ok, esta não é exagero) banhistas que povoavam o areal e depositar a dita merda das garrafas num contentor apropriado. Ah, sim, e depois remar os cerca de 250 metros contra a rebentação que me separavam do pico.


O dilema durou um minuto. Digamos que se, um dia destes, um amigo vosso vos disser que viu um gajo surgir do mar, empurrado por uma onda, com duas garrafas na mão, não se admirem. Era um anúncio da Lightning Bolt...


PS: Hoje na rádio ouvi que o golfinho branco chinês foi declarado extinto, vítima da poluição. Segundo o folclore local, estes graciosos mamíferos fluviais eram a reencarnação de princesas que se tinham afogado no rio. Os fósseis mais antigos desta espécie datam de há 30 milhões de anos. Habituem-se. A partir de agora, só os poderão ver como fósseis mesmo.

quinta-feira, agosto 02, 2007

Gone Bodyboarding

Só para ver se percebem :)

terça-feira, julho 31, 2007

Romance


Perguntaram-me se não era romântico. É claro que sou, acredito na perenidade do amor verdadeiro: O amor é mesmo eterno...enquanto dura. Porque o tempo é mesmo relativo.

sábado, julho 21, 2007

Sobreviver


O último grande cagaço da minha vida foram três. Não, não é engano, foram três ondas de set em cima dos cornos, na Praia Grande. A última das quais fez-me pensar que aquele era "o dia". Bem, desde aí, nunca mais consegui entrar na Praia Grande sem stressar. Mais, nunca mais consegui surfar lá como deve ser. E isto, num local que já me deu grande prazer em cima da prancha.


Pois bem, amanhã vou tentar novamente. Vai entrar um swell novo e espero que o vento ajude para a coisa estar ordenada. Se não, bem...a gente se vê.

segunda-feira, julho 16, 2007

Fraco


Há dias assim, em que o mundo parece demasiado pesado.

sexta-feira, junho 22, 2007

Mini-maxi-obsessão




Confesso: estou obcecado. Mas não faz mal, já está encomendado. Para gozar imensamente e sem preocupações. Mas só por alturas do meu aniversário. Uma bela prenda para mim próprio.

segunda-feira, junho 04, 2007

Voragem


E que fazer se um dia acordar com uma incontrolável necessidade de devorar o Mundo?

Dicionário de Sinónimos


Alegria: Ilusão; delírio; confusão; bebedeira

Beleza: Poesia; harmonia, licor; Verdade; Deus (o único); tu

(...)

Vida: Ruptura; desordem; vinho; oceano; pulsão; conflito

(...)

(...ver versão integral publicada pela editora "Já vos atendo um dia destes quando me reformar")

domingo, maio 27, 2007

É pá, porque sim


Gracias a la vida, que me ha dado tanto

Me dió dos luceros que cuando los abro

Perfecto distingo lo negro del blanco

Y en alto cielo su fondo estrellado

Y en las multitudes el hombre [mujer] que yo amo

Gracias a la vida, que me ha dado tanto

Me ha dado el oído, que en todo su ancho

Traba noche y dia grillos y canarios

Martirios, turbinas, ladridos, chubascos

Y la voz tan tierna de mi bien amado

Gracias a la vida, que me ha dado tanto

Me ha dado el sonido y el abecedario

Con él las palabras que pienso y declaro

Madre, amigo, hermano y luz alumbrando

La ruta del alma del que estoy amando

Gracias a la vida,que me ha dado tanto

Me ha dado la marcha de mis pies cansados

Con ellos anduve ciudades y charcos

Playas y desiertos, montañas y llanos

Y la casa tuya, tu calle y tu patio

Gracias a la vida, que me ha dado tanto

Me dió el corazón que agita su marco

Cuando miro el fruto del cerebro humano

Cuando miro el bueno tan lejos del malo

Cuando miro el fondo de tus ojos claros

Gracias a la vida, que me ha dado tanto

Me ha dado la risa y me ha dado el llanto

Así yo distingo dicha de quebranto

Los dos materiales que forman mi canto

Y el canto de ustedes que es el mismo canto

Y el canto de todos que es mi propio canto

Gracias a la vida

Violeta Parra, para ouvir.


E´pá, porque a vida pode ser uma lição dura, mas a alternativa é muito pior


É pá...porque sim

sexta-feira, maio 04, 2007

Eles comem tudo


Está decidido. Para viver neste país só se pode ser pobre ou estupidamente rico. Ao contrário do que se passa em países civilizados, qualquer meio termo é suprimido à força de impostos e mais impostos.


Comprei a minha casa há quase 3 anos. Não beneficiei da isenção de pagamento à contribuição autáquica e tenho vindo a pagar religiosamente. Eis que agora sou surprendido por uma carta das finanças que diz qualquer coisa como "o valor declarado da sua casa é inferior à avaliação que entretanto efectuámos, por isso vai ter de pagar mais €€€€ de IMI (cont. autárquica)".


Ora, quem faz essa avaliação? A Câmara. Quer dizer, o interessado é que diz quanto vale a minha casa e quantop é que çhes devo pagar.


Como se já não bastasse o IRS, os descontos para segurança social e mais não sei o quê em troca de nada. Sim, porque para sermoms devidamente atendidos num hospital temos de ir para um privado. Dentista? Pagas! Tudo se paga, esquece lá as centenas ouu milhares de contos em impostos.


Na minha terra há uma palavra para isto mas vou aligeirá-la: VAMPIROS DE MERDA!


Em suma, para viver neste país não podes ter nada, tens de ser miserável porque se não vêm os senhorees do Estado roubar-te.


PS: Para esses senhores, uma dica: as minhas carótidas estão disponíveis, mas sejam gentis.

segunda-feira, abril 30, 2007

Revolução geriártrica


Há coisas que me tiram do sério. Uma delas é que me chamem velho. Não que não haja uma certa razão nessa tese, ou não fosse esta tendinite no ombro a gritar-me todos os momentos em que distraidamente tento mexer o braço esquerdo, que estou, de facto, além do meu auge.

Agora quando me dizem que sou velho porque reclamo com o "status quo", porque estou insatisfeito com a vida, porque quero mais e melhor para mim e para o meu país, que diabo, para o Mundo! Quando isso é ser velho...

Gostaria de saber quem é o mais velho: o velho que gostaria de mudar o mundo ou o jovem que, agarrado a um bidão de Coca-Cola, acha que está tudo muito bom desde que não lhe tirem as discotecas, a música de algodão doce e o açucarado "status quo".

Viva La Revolution! Diz que é um conceito idoso.

sexta-feira, abril 27, 2007

Supertubo para Deus


Finalmente! Após duas semanas de trabalho que cabem perfeitamente no top das piores da minha carreira, com os serviços mais merdosos que se pode imaginar, eis que estaciono o carro em Supertubos. Uma rápida olhadela para o mar, um sms rápido para o meu amigo Filipe Santos, enquanto enfio o fato e agarro na prancha. E siga para o areal que se faz tarde.


Talvez influenciado pela consulta ao Beachcam.com ou talvez cego pela ânsia de lavar a alma em água salgada, nem olho bem para o mar, mas reparo que não estava o meio-metro que o site anunciava. Ainda bem, estou a precisar de um desafio, penso. Calço os barbatos e atiro-me à água.


Estavam meia dúzia de malucos na confusão, quase todos bodyboarders e de grande nível, diga-se. Um par de ARS's e outro tanto de tubos bem encaixados convencem-me disso. É capaz de haver uns pros na água...


O primeiro contacto com a rebentação começa a sugerir que fiz merda. A coisa hoje está casca grossa. Inconscientemente, meio às escondidas, benzo-me e faço uma oração silenciosa. Nada como o mar para trazer ao de cima a educação religiosa de um tipo, mesmo se for do tipo informal, como a minha.


Não há de ser nada...começo a furar as ondas a caminho do "line up" e a sensação de estar a jogar fora do meu campeonato adensa-se: aquilo que ali vem não é, definitivamente meio-metro. Ou isso ou aquele surfista cuja cabeça é bem ultrapassada pelo "lip" da onda é anão. Hmmm...não, não é.


Isso e a sensação de estar metido numa máquina de lavar roupa com um programa puxado, começam a causar-me algum frio na espinha. E não é da água, que o fato é bom.


Mais uma estalada e sou enrolado para trás. Bolas, esta merda tem força! Mais um caldo e a coisa torna-se clara: é melhor saíres e procurares um spoot mais user friendly. Esta merda são ondas de metro e meio pesadíssimas e que rebentam em cima de ti como uma parede de cimento. Começo a pensar se o Molhe Leste, ali ao lado, não estará mais convidativo.


Bem, mas tenho de fazer uma onda para sair. Espero por uma boa, sempre furando as paredes que aí vêm a velocidade parva, e atiro-me à ponta de uma direita surfável. Surfável? O animal pega em mim, atira-me lá para cima e mostra-me o drop à minha frente: um buraco de dois metros de vazio. Merda! Puxo tudo para trás mas era tarde de mais. O "lip" empurra-me para baixo com toda a força, e eu vou...como se tivesse outro remédio.


É a sensação já familiar de ser um boneco de trapos no meio da onda, mas decuplicada. "Vou morrer", penso enquanto uma mão invisível me prende lá em baixo, no verde. Finalmente venho ao de cima, agarro a prancha, olho para o mar e...por alguma coisa lhes chamam "set" de ondas: Merda! vem aí outra! agarro-me à prancha com unhas e dentes e espero que a puta não me caia nas costas. Quando dou por isso, uma bomba explode atrás de mim e sou levado num mar de espuma para a frente, para a praia.


Saio ofegante, a rir à parva. Descarga de adrenalina ou a pura, bruta alegria de estar vivo. Não sei. Descalço as barbatanas e caminho para o carro. O Filipe acaba de chegar. Olha para o mar e insulta-me. "És louco, aquilo está tudo a fechar...e tá enorme!"


Fomos para o molho Leste, aí sim, com os tubos sem saída a serem substituídos por umas rampas mais negociáveis. Horas mais tarde e com a barriguinha cheia de surf, sozinho numa esplanada em frente ao mar, saboreando um café quente, negro e espesso, faço um telefonema para uma amiga. Mais do que uma amiga, o meu primeiro amor, coisa de adolescente, desastrada e pueril. Ela só soube anos mais tarde...


-- Oi, há que tempos, sim, desculpa, tenho andado cheio de trabalho


-- Sim, olha continuo no trabalho de sempre, mas agora vou ter outro emprego: vou ser mãe.


-- ... Ah!...Parabéns. Que bom, a sério, estou muito contente. Porra, nem sei que dizer. Parabéns, pois.


-- Ia mandar a ecografia para os meus amigos todos mas ainda não consegui digitalizar aquilo.


-- Pois, deixa, olha, é muito bom, vais ver que tudo vai correr bem. É pena que não estejas aqui, apetecia-me dar-te um beijo. Temos de tomar um café, quer dizer, um chá, agora tens de ter mais cuidado. Sabes ia morrendo há bocado...


-- O quê?


-- Nada, parvoíce, estava a pensar noutra coisa. Olha, vou ficar sem bateria nesta treta. Temos de nos encontrar. Beijos.


O sol está a pôr-se em Supertubos. Pois é, "nada como a proximidade do mar para trazer ao de cima a educação religiosa"... O sol parece ir passar uma fronteira qualquer e o céu fica mais perto, parece que o podemos tocar se esticarmos um pouco o braço. Deus, como o sol, parece tão mais perto hoje, aqui, ao pé do mar, onde as coisas acabam e começam.


Os gajos que passaram por experiência de quase morte dizem que se passa por um túnel que conduz à luz. É como nascer, né? Mas não acho que seja um túnel, é um tubo mesmo. Um Supertubo.

sábado, abril 21, 2007

Vítima do Pantera Negra

Depois de uma semana inteira a ir sistematicamente para a porta da CUF controlar as visitas ao convalescente Luís Filipe Vieira (e que alívio quando ele saiu), eis que à chegada de uma curta visita às ondas da Costa, sou surpreendido pela notícia do internamento de Eusébio. Tremi. E se o pior acontece e o homem morre quando estiver a trabalhar? O meu pesadelo profissional. Mas não, foi um susto.

O cenário foi imediatamente desenhado na minha cabeça: maratonas à porta do Hospital da Luz. As primeiras informações deram-me alguma esperança: o velho ia sair no próprio dia. Puro engano. Afinal, a coisa era para durar.

Horas e horas a fio com apenas uma meta: o fim-de-semana de folga grande: sexta, sábado e domingo. E uma leitura rápida no www.wetsand.com: sexta-feira, ondulação de mais de um metro e sem vento. Meu Deus, dá-me forças para resistir até lá...

sexta-feira, março 16, 2007

Por amor




Cheguei à redacção para o último dia de trabalho antes de umas mini-férias de três dias. Estou a precisar: uma semana de reportagem em Paris deixou marcas e estou mesmo a precisar de um estágio de mar para curar.


Estou a sentar-me e o meu editor aborda-me com um sorriso culpado: "Estás de folga este fim-de-semana, não estás?" Este é o tipo de pergunta assassina que significa invariavelmente mais uma viagem. Pelo caminho já me tinha colocado ao corrente do que ditou o sorteio da UEFA, o Espanyol de Barcelona. Uma cidade bonita, pois é.


Na balança pendia, de um lado, uma viagem e três ou quatro dias de reportagem numa das mais belas cidades da Europa; do outro uma deslocação até Peniche para dois dias de surfada com amigos. Boas ondas, sol, peixinho fresco grelhado...e já mencionei boas ondas?


Pois é. Sem dúvidas. Há escolhas que fazemos por amor. Vocês sabem o que respondi, não sabem?

terça-feira, fevereiro 20, 2007

De volta ao templo


A dor. A satisfação. No célebre documentário de culto "pumping iron", Arnold Schwarzenegger fala da sensação da "pump", que é como quem diz, aquela sensação que se tem depois de algumas séries com pesos. O músculo fica irrigado de sangue, congestionado. No fundo, tata-se de solicitar as fibras musculares de forma sucessiva danificando-as, obrigando o músculo a renovar-se, tornando-o mais forte, mais espesso, com mais fibras, para a próxima vez estar mais preparado para o esforço. A chamada "memória muscular".




Bonito não é? Mas dói. E por isso ainda é mais bonito. Eu explico:




Lembro-me da primeira vez que entrei num ginásio de musculação, daqueles "hardcore", em que se prepara malta para competições de culturismo. Nada destes "health clubs" da moda. Digamos que o tempo que lá passei foi extremamente útil para quando tenho de escrever sobre casos de "doping"...



O primeiro teino teve a sua piada. Já tinha experimentado fazer uns pesos há uns anos, mas nada sério e entretanto já tinha uma experiência interessante em kickboxing. Pensava que isso de "puxar ferro" era coisa para meninos, nada que acrescentasse ao meu título de vice-campeão nacional. Então, atirei-me com toda a gana e acompanhado por um maluco do ferro fiz um esquema pouco aconselhado para o meu corpo de corredor de fundo. Acabei o treino, cambaleei para o balneário e vomitei. Pois é...ganhei outro respeito à coisa. E os 69 kg e meio do kickboxer subiram para 82...


Já foram uns anitos e o vício do ginásio ficou comigo. Um vício que levei a limites pouco razoáveis antes de o incorporar mais pacificamente na minha rotina. Hoje, em vez do ritual de auto-massacre de outros tempos é mais como uma ida ao templo: revigorante. Mas nada de auto-complacente. Ainda gosto de sentir os músculos a arder.


E como ardem. Depois de três meses de interregno escolhi uma má semana para voltar. Na minha secção de 7 pessoas, uma está de férias, outra de baixa e eu...de rastos. Ando a fazer 12 horas por dia e a encaixar, teimosamente, uma hora de ginásio todos os dias (ter ginásio no condomínio facilita), normalmente às 11 da noite ou às 10 da manhã. O pior é andar a coxear como um velhinho cheio de dores nas pernas, suportar os socos amigáveis dos colegas nos braços ou as igualmente fraternas pancadas nas costas. Porra, como dói!


Enfim, é o regresso ao templo meus amigos. É que como naqueles tempos de estreia, não sei fazer nada, mas mesmo nada, a brincar.


Portanto, se me encontrarem na rua, podem cumprimentar-me, mas com cuidado...ouch!

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Porque sim

Há vários meses que ando a resistir escrever sobre isto, mas lá terá que ser:

SIM, porque a actual lei é socialmente cega

SIM, porque a actual lei defende a hipocrisia

SIM, porque toda a gente é conta o aborto, mas há quem também seja contra uma lei que penaliza mulheres já suficientemente penalizadas

SIM, porque ainda tenho a esperança que este seja um país que dá a mã a quem mais prcisa e não os condena

SIM, porque não aguento falsos moralismos de quem vai "fazer férias" a Londres ou Badajoz

SIM, porque não há medidas contraceptivas 100% eficazes

SIM, porque todas as crianças merecem ser queridas e amadas

SIM, porque SIM. E se a alternativa ganhar, então merda para este país, porque se houve 25 de Abril, então falhou mesmo

PS: E se ouço mais algum atrasado(a) mental dizer que a despenalização vai provocar uma corrida ao aborto, não respondo por mim.

quinta-feira, janeiro 18, 2007

My name is Tário, O-Tário

Átrio de hotel cinco estrelas. Aproveito o acaso de hoje ter vestido um blazer com etiqueta transalpina e até estar penteado para deslizar discretamente por entre o caldo internacional de um congresso. Inglês, italiano, francês…até algum português. Mas nada de português do Brasil, aquele que procuro.
É nestas alturas que penso o quão ridícula pode ser esta profissão. Procuro um empresário de futebol brasileiro. É tudo o que sei sobre o tipo. Isso e o facto de ele, alegadamente, estar em Portugal para negociar um avançado para o Benfica. Um brasileiro, claro, ou não fosse essa a origem favorita dos reforços de Inverno em Portugal. Bons e baratos. Pois, deve ser. A quimera dourada dos dirigentes lusos. Quase nunca acontece. Quase? Eu deveria saber, ainda há duas semanas escrevi um trabalho em que falava precisamente do mercado de Janeiro em Portugal. Uma merda. Engodo para índios que ainda teimam em acreditar no sucesso da sua equipa.

Mas isso era antigamente, quando eu ainda escrevia coisas interessantes, quando não estava demasiado ocupado a brincar aos agentes secretos. Pois.
Entretanto, já bebi um café, uma água com gás e estou a folhear a carta dos Whiskies. Completamente sóbrio isto é muito mais difícil. E nada de Veiga, nada de Vieira. Nunca se sabe, o próprio presidente poderia dar um ar da sua graça. Mas seria demasiada bandeira.

Único consolo é a presença de dos tipos que presumo jornalistas da concorrência. Apesar de não nos conhecermos, todos estamos mais ou menos conscientes da identidade uns dos outros. E fingimos que não nos apercebemos da presença uns dos outros, que não sabemos exactamente o que estamos ali a fazer.

Nada de empresário. Acho. Podia chocar de frente com o gajo que não o reconheceria. A informação de que disponho é, no mínimo, escassa. “O tipo é brasileiro. Olha, sei lá pergunta na recepção.” Claro. Estou mesmo a ver: “Boa tarde, por acaso os senhores têm cá algum empresário brasileiro hospedado?” O desespero é grande, faço uma tentativa desesperada junto do porteiro: “Boa tarde, combinei aqui um encontro com José Veiga, o do Benfica, sabe quem é, claro. E, por acaso, ele já passou por aqui?...” Hmmm…talvez um Jameson…

Foi mais ou menos nessa altura que saquei do computador e comecei a escrever. Só para manter a cabeça ocupada. Não tenho nenhum jornal aqui e não tenho mais nada para fazer que me ocupe o cérebro.

Finalmente o telefone toca: é o regresso à base. Vem aí mais um dia daqueles.

terça-feira, janeiro 09, 2007

Presságio na água

Não acredito em muita coisa. De facto, cada vez acredito menos e em menos coisas. Não sou gajo de ler horóscopos nem sou adepto do sobrenatural. Mas baseio muito da minha vida na intuição. Aquele dia foi um desses momentos.

Estava de folga e já não sei bem porquê nem como, vi-me sozinho, de prancha às costas e a caminho de Seimbra. Bem, sei porque é que ia para Sesimbra: o mau tempo era a notícia do dia e o alerta amarelo que então imperava fazia com que a ondulação estivesse insurfável em praticamente toda a costa ocidental. Isto é, menos na abrigada aldeia de pescadores, refúgio da comunidade amante de ondas em dias de gigantes.

E, de facto, mesmo na pacífica Sesimbra, adivinhava-se que o dia não estava para comuns mortais. Ondas cheias com metrão e meio nos "sets" rolavam porto adentro. A praia estava cheia. Afinal, toda a gente sabe que em dias destes, só mesmo em Sesimbra.

Entrei. Os "sets" eram pesados mas com ritmo moderado e previsível. Não tive dificuldade. No entanto, estava estranhamente indisposto. Não sei se era a ausência do meu "guru" de ondas e habitual parceiro de surfada, o Garcia, ou a inusitada multidão, ou o simples nervoso miudinho normal numa onda nova. Só sabia que aquele não era um dos meus dias. Fiz-me a algumas mas sem convicção. Ou havia sempre um tipo mais bem colocado ou a onda não me parecia boa, ou...pois, algo não estava bem. Estava com medo.

Não era aquele nervoso miudinho normal, era um pavor que ameaçava emergir lá bem do fundo, uma sombra de pânico que espreitava pelo postigo da consciência.

Saí. Algo não estava bem e saí abanando a cabeça, envergonhado, a pedir desculpa à prancha.

Cheguei ao carro e comecei a despir o fato, quando, ainda com a pele de neoprene pela cintura o telemóvel tocou. Olhei e percebi que era o chefe de uma revista com quem colaboro esporadicamente a ligar. Apeteceu-me não atender, falávamos depois. Mas atendi.

- Então, #####, tudo bem? Então em que é que posso ajudar o meu amigo?

- Olá Carlos, então, já sabes mais alguma coisa do César?

- O César? O César está de férias pá! Mas o que é que querias do homem?

- ...Mas ainda não sabes de nada?

- Hã? Mas passou-se alguma coisa?

- Eh pá...acho que o César morreu.

- O quê?! Estás a brincar??

- Mas achas que ia brincar com uma coisa dessas?

-- Merda! Foda-se! Foda-se! Mas que raio?...desculpa...foda-se! filha da puta! Que é que raio aconteceu?! Porra!

-- Um acidente de avião e ia com outro colega vosso, um tal de André...

O resto do diálogo é irrelevante. Tudo o que ele me disse, e mais ainda, veio publicado nos jornais dos dias seguintes. Dois colegas, dois amigos tinham morrido num desastre de avião no fim do Mundo. Não, não acredito no sobrenatural mas, às vezes, o cérebro só serve para confirmar o que já sabemos. De alguma maneira. Mesmo que seja em Sesimbra, na água. O cheiro da dor esgueira-se por todo o lado

sexta-feira, dezembro 29, 2006

Virar a página DEZ

Lembro-me quando António Tadeia veio falar comigo para integrar a equipa de um projecto ainda sem nome. Falou-me de uma revista de grande reportagem, análise e opinião, uma publicação que ele desejava de referência. Eu ainda estava abalado pela maneira esquisita como tinha saído da secção de Sporting do jornal, uma das secções "fillet mignon" (como ficaram celebrizadas pela sempre expressiva verve do nosso director as secções de Benfica e Sporting do jornal), e não sabia o que esperar.

A responsabilidade parecia-me esmagadora mas a motivação também era grande. Eu adoro uma situação em que as probabilidades estão contra. E aquele parecia o caso: uma equipa de excelentes repórteres em que eu era, até ver, o menos experiente. Depois de mim apenas um estagiário que viria complementar o ramalhete. Tinha acabado de sair do "fillet mignon", é certo, mas estava ali para aprender. Regressar à escola. Havia, no entanto, um anzol: todos ou quase todos estavam ali em situação ingrata; por desavenças com a chefia, por alegada dificuldade "em jogar em equipa", por acidente.

Mas esse foi o factor que nos uniu. Um sentimento de luta contra a adversidade e a competência de todos catalizada e desmultiplicada pela liderança brilhante de António Tadeia.

Até que a fórmula cresceu, amadureceu, ganhou prestígio. Foi premiada, elogiada, reconhecida. O projecto ganhou pernas, resistiu a mudanças de elenco e até à saída do pai do projecto.

Por aqui passou a truculência irónica pontuada de humor e "fair play" de Paulo Renato Soares; a competência sóbria e o riso britânico de Miguel Costa Nunes; a irreverência promissora de Bruno Roseiro; o talento entretanto desperdiçado de Pedro Ferraz (esperemos que volte ao jornalismo), a liderança e assombrosa inteligência de António Tadeia...e o génio de César Oliveira. Um jovem jornalista e um ser humano tão brilhante que Deus o quis guardar consigo mais cedo.

Até agora, da equipa original dos "desterrados", apenas restavam o excelente jornalista e homem Paulo Jorge Pereira e eu. Agora eu parto. Novamente de regresso ao "Fillet Mignon", desta vez, de Benfica vestido.

O Paulo fica, para já. A DEZ também. Mas todos os que cá estão e todos os que por cá passaram fazem parte da alma de uma revista que durante 139 números fez parte de mim.

A vida continua e eu...aprendi. E viver é isso mesmo.

Até já.

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Cova do Vapor II

Uma palavra: sobrevivi.

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Cova do Vapor

Surfar uma onda nova é como ter sexo com uma desconhecida. Já sinto o nervoso miudinho. Vi a onda da Cova do Vapor pela primeira vez a semana passada: uma vaga mutante que pode ser tubular ou triangular, mas sempre tenebrosa. Amanhã vou "brincar" com ela pela primeira vez.

Sim, a primeira vez é sempre a primeira vez.

quarta-feira, dezembro 20, 2006

O Natal do saxofone

Porra! Estou farto! Desculpem o desabafo mas estou realmente farto do Natal. Tenho saudades do tempo em que isto me dizia qualquer coisa, mas a verdade é que quanto mais velho fico mais dificuldades tenho em sentir o "espírito natalício". Aquele sentimento morno que nascia na barriga e se espalhava pelo corpo todo, aquele sorriso parvo que se fazia por tudo e por nada. Parece amor, não é? A verdade é que era, pelo Mundo todo. Porque te sentias amado. Porque sabias que tinhas pessoas que, acontecesse o que acontecesse, nunca te desiludiriam.

Pois, como as coisas mudam. Dizem que um tipo nunca deve perder a capacidade de se surpreender. Pois, acho que ainda mantenho essa, já não tenho é a capacidade de me desiludir.

O Natal é a festa da família. Já praticamente não tenho família. Ok, tenho a minha mãe. O problema é que ela também está um pouco morta.

O Natal é a festa da família. Para mim já não é nada.

Este ano tentei, juro que tentei: este ano, pela primeira vez desde a morte do meu irmão, há sete anos, comprei uma árvore enorme, atirei-me às prateleiras das grandes superfícies comerciais a comprar enfeites e estive até às três da manhã a decorá-la. Ficou bonita mas não se pode enganar o espírito de Natal, não se pode comprá-lo.

Na verdade, todos os dias tenho assistido a procissões na Segunda Circular a caminho do Colombo a tentar comprar o espírito de Natal. Em tantos anos nunca vi uma voragem consumista tão grande, tanta gente embrenhada nas compras. Querem-nos vender o Natal e nós compramos, satisfeitos.

Só que amigos, não é assim tão fácil. Pois não. Ontem um amigo deu-me um CD do Miles Davis. Uma prenda desastrada entre dois tipos que não estão habituados a ter esse tipo de gesto entre si. E tão desastrada foi que o CD ainda trazia o preço: 11 euros.

Foi o momento mais próximo que tive de Natal nos últimos anos. Afinal, pensando bem, talvez até se possa comprar o espírito de Natal, não com 11 euros, mas com sorriso envergonhado e um gesto desastrado.

Obrigado, amigo. Talvez ainda haja esperança para mim.

Feliz Natal (ao som de Miles Davis)

segunda-feira, novembro 27, 2006

Não entendo

Lembro-me da primeira vez que, de facto, reparei no André. Foi nos primeiros tempos na redacção do Record, eu estava a fazer a reportagem de um jogo de hóquei em patins no antigo Pavilhão da Luz; há uma jogada polémica e toda a gente no público se levanta a gritar com o árbitro. Não sei bem porquê o meu olhar demorou um pouco tempo mais no André, irado, aos gritos, figura familiar mas ao mesmo tempo bem diversa daquela que já tinha visto sentado ao computador na secção "online", naquele tempo bem mais povoada.

No dia seguinte não perdi tempo e fui meter-me com ele: "Com que então o 'nosso' Benfica, hein...?" Foi o princípio de uma sincera amizade.

O André era um tipo tímido mas afável, um coração grande que apesar dos anos que partilhámos a trabalhar na mesma casa, apesar das conversas que tínhamos, da cumplicidade que floresceu com o tempo e que começou com uma conversa sobre o "nosso" Benfica, nunca cheguei a conhecer bem. Não tivemos tempo.

E tu, meu querido César? Que raio de filme absurdo é este? Não é um daqueles milhares que tu, apaixonado pelo cinema, viste, pois não?

Trabalhámos no mesmo jornal durante 7 anos, foste das primeiras pessas que conheci no Record, e desde há cerca de um ano e meio que estávamos (literalmente) lado a lado no mesmo projecto, a DEZ, a nossa DEZ. E, sabes, nunca me cansei de admirar a tua imaginação delirante, a tua coragem em assumir projectos que os mais ortodoxos apelidavam de "maluquices". Eram "maluquices", sim, de um maluco genial, daquele género de que o mundo precisa cada vez mais.

Estive no teu último aniversário. 34 anos. Só. E foi mesmo o teu último aniversário. Foi ali, naquele indiano do Bairro Alto que conhecias tão bem, trocando impressões sobre viagens com o dono, teu amigo. Falavas da Índia e do projecto de voltar à Patagónia. Bolas, amigo, cheguei a dizer-te que se estivesse de férias agora até ia contigo. O que são as coisas, amigo, o que são as coisas...

Estou aqui sentado, ao lado do teu lugar vazio, sem conseguir conceber que nunca mais verei a tua figura esguia debruçada no computador, o teu sorriso tranquilo ou aquele tique que tinhas com as mãos quando estavas a pensar em mais algums ideia brilhante ou, simplesmente, a tentar soltar a tensão com que, todos os dias, nos batemos.

Já perdi muita gemte querida, demais para uma vida só. Devia ser proibido. Só que custa muito, custa muito mais porque me faz perguntar o que é que Ele estava a fazer, o que é que Ele estava a pensar? Quando levou o meu irmão, quando vos levou a vocês, amigos. Todos jovens, todos cheios de vontade de viver.

No dia a seguir ao vosso acidente, também no Chile, Augusto Pinochet celebrava o 91º aniversário.

Eu estive no teu último, César. Não sabia, mas era mesmo o teu último. Tinhas só 34.

Não entendo. Perdoa-me mas não Te entendo.

quinta-feira, outubro 05, 2006

A triste sina de uma estrela porno

Nos primeiros anos do nosso périplo por este planeta de loucos, todos enfrentamos um sacramental questionário, atirado por tudo e por todos: começa com o "como te chamas" e passa pelo "quantos anos tens", sendo que nesta fase da conversa o progenitor que nos acompanha estimula-nos a esticar os deditos necessários até cumprir o diminuto total.

Então, dependendo do número de falanges orgulhosamente estendidas, a grande e definidora questão: "O que queres ser quando fores grande?"

Bem, no meu tempo, a malta dizia coisas como bombeiro, futebolista, astronauta, respostas que depois evoluiam para profissões mais consentâneas com as aspirações dos paizinhos: médico, advogado, arquitecto...enfim.

No meu caso, devo dizer que, acreditem ou não, a resposta que me lembro de dar por volta dos 10 anos era "arqueólogo". Coisas de quem lia coisas inadequadas para a idade e não tinha pais que lhe impusessem as suas expectativas.

Mas agora demos um salto até à adolescência. Aquela idade em que vivemos todos sob o efeito de um caldo hormonal que dita todas as acções e pensamentos. Pensamentos?, ok, um pensamento: Sexo (deliberadamente em caixa alta).

Então, se alguém perguntasse ao típico adolescente o que ele queria ser, a resposta seria em 9 de 10 casos: estrela porno.

A lógica era inatacável: o que o adolescente mais desejava era sexo e se havia uma carreira em que lhe pagavam para fazer o que ele mais queria, então, citando o grande Paulo Futre...espectáculo.

Só mais tarde o puto sabia que essa coisa de ser estrela porno não era a melhor profisssão do mundo, longe disso. Implicava "actuar" a pedido, debaixo de luzes sufocantes, em estúdios infectos, com uma câmara quase enfiada no rabo, uma dúzia de espectadores (a equipa técnica) a dar palpites e tudo isto com uma gaja meio pedrada que estava ali a fazer o frete.

Não, não era o que ele esperava.

Passou-se mais ao menos isto comigo. Só que eu realizei o sonho. Não, não me tornei estrela porno. Tornei-me jornalista.
Para quem acha que tem de voltar a ler o texto porque perdeu alguma linha, eu explico:

Quando percebi que não poderia ser professor de filosofia porque não tinha paciência para tirar o curso nem feitio para estar à espera de colocação em Freixo de Espada à Cinta, tive de pensar em alternativas. Então ocorreu-me: que tal ser jornalista, uma profisssão em que te pagam para fazeres algo que adoras, escrever? Pensei que tinha descoberto a pólvora, o crime perfeito.

Pois foi o crime perfeito mas em que a vítima sou eu. Também aqui temos de actuar a pedido, também aqui temos de estar com "actrizes" (temas ou pessoas) que não interessam a ninguém e nos tratam como um meio para chegar a um fim, também aqui o prazer se perde.

Escrever é como fazer amor. Jornalismo é, cada vez mais, pornografia. Ou, a espaços, a mais básica prostituição. Mesmo que aqui e ali tenhamos um orgasmo barato.

Uma triste lição. Só me resta o consolo de uma reforma afortunadamente antecipada. Para breve.

sexta-feira, setembro 29, 2006

LSP

Não, não é uma droga sintética nova. L.S.P. aka Late Surf Project. Uma expressão que um outro amigo na vizinhança dos 30, e que agora começou a fazer-se às ondas, me ensinou.

Os 30 têm esta grande virtude: é a idade em que (se tudo correr bem) um tipo obtém alguma independência financeira e estabilidade que lhe permite abraçar projectos que até ali tinha andado a adiar.

Os mais atentos sabem que fazer 30 anos foi pouco menos que um drama para este vosso ilustre, mas confesso agora que me está a sabere bem. Estou livre, (relativamente) equilibrado, tenho uma casa de que gosto muito, algum dinheiro no bolso, uma carreira que apesar de alguma saturação ainda vai dando, aqui e ali, um certo gozo...enfim, estou no "top of my game", no auge da forma, se quiserem.

Esta é a idade para aproveitar e cumprir os Late qualquer coisa projects que tínhamos na manga há tanto tempo. Pelo menos os mais fáceis. Há aí malucos que, por exemplo, desataram a ter filhos. Gabo-lhes a coragem e espero que tenham sucesso no caso de tentarem ser "Very Late qualquer coisa Projects". Porque a vida não espera por ninguém.

sexta-feira, setembro 22, 2006

Meter água

Há dias em que não me apetece escrever nada porque não tenho nada para dizer; outros em que nada me suscita uma palavrinha que seja. Hoje não é definitivamente o segundo caso. Bem pelo contrário.

Podia falar do facto de o dia internacional sem carros ter sido o primeiro em que, de facto, tive dificuldade em encontrar sítio para estacionar, o que significa que não fui o único a violar o espírito do dia, mas isso suscitava um "post" muito próprio sobre a falta de transportes públicos de qualidade no acesso a Lisboa, etc e tal.

Podia falar da candidatura de LFV à presidência do Benfica... não, não há pachorra.

Podia falar da desilusão que me invade todos os dias quando confrontado com a mediocridade da generalidade da Imprensa portuguesa, mas isso dava um livro que acabaria com a minha reforma antecipada.

Mas nada disso. Amanhã espera-se ondulação de três metros na Costa da Caparica. Vou morrer agarrado à prancha. Afogado ou esborrachado numas pedras. Mas talvez seja bom, não tenho feitio para velho.

Se não, prometo que o próximo post será mais interessante.

segunda-feira, agosto 28, 2006

Sem título

Gostava de dizer que sinto
Mas não consigo
Gostava de dizer o quanto lamento
Juro-te que tento
Mas as cinzas que deixaste
Enchem a cova no meu peito
Asfixiam a vida, o alento

A chama, uma sombra
O fogo reduzido a nada
A memória de um sorriso
É sangue, escura, salgada

Grito de ódio impotente
Prisioneiro do conceito
Ditador, absurdo
Golpeio as paredes
Desta cela de dor
É verdade que partes?
É possível que abandones?

Sais do jogo sem acabar
Sais da vida sem jogar
Sais assim, sorrindo
O sorriso de sempre

Esse sorriso que só me faz

Chorar

quinta-feira, agosto 24, 2006

News(?) magazines

Tenho de começar por dizer que apesar de estar na profissão e até ter colaborado algumas vezes para a revista Sábado (ninguém é perfeito), nunca fui fã das chamadas "news magazines".

No entanto, também por força das tais colaborações para a Sábado, e por receber gratuitamente aqui no meu estaminé tanto a Sábado como a Visão, comecei a prestar um pouco mais de atenção a este tipo de publicação.

E, repito, é verdade que nunca fui fã destas revistas de informação, mas de quando em quando comprava a Visão e era uma publicação que eu respeitava.

Pois, "respeitava", porque infelizmente as coisas estão a mudar. Desde que a Sábado apareceu, a concorrência feita à base de uma corrente pró-novo-rico arrastou a Visão para baixo. Assim, agora vemos, semana após semana, as capas com os roteiros de luxo no Alentejo, os hotéis de charme, os hóteis de luxo, as melhores praias...e a Visão que tenta resistir acaba por ir atrás, esta semana, com "a moda de ter casa no Brasil". Isto numa entrevista com o Nobel da literatura confessado ex-SS, Günter Grass.

Enfim, é o jornalismo que temos e o que cada vez mais penso abandonar.

segunda-feira, agosto 14, 2006

Ressaca da ressaca

Antes de mais, um pedido de desculpas. A ninguém em particular, ao tipo que um dia disse "não me arrependo de nada porque aprendo com os meus erros". Pois aprendo e é por isso que não me arrependo mesmo de nada. Se quiserem, desculpa Paula e, sobretudo, desculpa Hugo. Porque apesar dos nossos atritos (muitos, chatos, mas sempre pequenos), se me mentiste alguma vez, nunca me enganaste. Temos as nossas merdas, mas eu não me esqueço que já chorámos juntos.Ok, estávamos perdidamente bêbados, mas não há nada, mas mesmo nada que alguma vez me faça esquecer isso.

Porque o passado já foi, e os meus amigos não são os que não erram mas os que, errando, também estão cá para me corrigir quando sou eu que me engano.

sexta-feira, agosto 11, 2006

Dia 11

Hoje apetecia-me escrever. Isso, só por si, é um acontecimento se se tiver em conta a saturação mental e física que me tem afligido nos últimos tempos.

A verdade é que não podia deixar passar este dia em branco.

Dia 11 de Agosto.

Porque ontem se recordou outro 11, o de Setembro, com mais uma gigantesca campanha de publicidade à estupidez e à selvajaria humana ( ?) a ser evitada.

Porque hoje dei uma volta por Leiria e Alcobaça e vi outra campanha, desta vez, levada às últimas consequências: os incêndios que o ministro António Costa diz serem obra da negligência. Eu permito-me corrigir: do crime. Como de costume.

Porque passei por uma territa que por mero acaso acabou por ser marcante na minha vida. Porque permanece símbolo de um conjunto de amizades estéreis. E doeu porque uma época que parecia tão bela deixa agora um travo amargo a desilusão e engano.

Chama-se Montes. De cacos de sonhos de juventude perdida.

Finalmente:

Porque dia 11 de Agosto já foi sinónimo de sorrisos, festa, felicidade.

Porque o meu irmão faria hoje 30 anos.

Trinta anos. A nova idade da razão. Não lhe assentaria bem.

Vai fazer sete anos que ele partiu. De forma tão estúpida.

Trinta anos. Porra, o puto faria 30 anos.

Não consigo deixar de pensar: quem serias tu hoje? Serias pai, serias magro, gordo, casado, solteiro, divorciado? Serias desempregado, rico, pobre, empregado, patrão, mais maduro, mais louco... serias feliz?

Não sei. Um dia destes alguém me disse que "pensava que eu já estava mais maduro". Ri-me. Como se soubessem o que é isso, essa noção que inventam, essa vida que inventam. Esses castelos de areia que constroem à beira da água.

E tu, puto, serias "maduro"? Não sei.

Mas de uma coisa sei: hoje, como ontem, como amanhã. Tu és o meu irmão, o meu puto, o meu mano.

O resto são os tais castelos à beira da água. O resto são cacos num lugarejo chamado Montes. Cacos de juventude. Montes. De nada.

sexta-feira, julho 28, 2006

Buraco

Hoje estou no buraco. Preso ao ecrã branco luto do processador de texto, tento ultrapassar o bloqueio e escrever algo que não me envergonhe quando sair para as bancas, de sábado a oito.

Impossível.

terça-feira, junho 06, 2006

Caça-fantasmas

Ninguém acredita nas instituições, está certo. Mas porque é que se chegou a este ponto? Porque as coisas não funcionam ou funcionam tão mal que chegam a paroxismos de anedota.

Hoje fui a casa da minha mãe e encontrei-a de cabeça perdida, indignada, furiosa. Antes de ter percebido o que se passava, dou com um postal da PSP, da Divisão de Investigação Criminal. Uma convocatória para o meu irmão.

Um pouco mais calma, a minha mãe explicou-me que já tinha telefonado para a PSP e falado com o agente encarregado do processo. De acordo com o agente Parada (cerebral), o meu irmão estava a ser acusado da autoria de um furto cometido em 2004.

Falta esclarecer que o meu irmão, Mário José Velez Monteiro Mariano, perfeitamente identificado no postal da convocatória, faleceu em 1999, cinco anos antes do alegado furto.

Ora, como se isso já não fosse suficiente, o agente Parada (cerebral) ainda perguntou à minha mãe onde é que o "autor do furto" estava enterrado. Como se a senhora o estivesse a enganar.

Porra! Quem é que são os atrasados mentais que se fazem passar pela autoridade neste país?! Quem são os filhos de uma puta que não sabem o que é ser uma mãe e perder um filho. Espero sinceramente que o mesmo não aconteça ao agente Parada (cerebral). Sem ironia. Para que nunca ninguém lhe pergunte onde é que parte dele está enterrada.

segunda-feira, maio 22, 2006

Fraquinho...

Quinto dia do pós-operatório. São cinco dias e meio a comer nada mais que sopa morna, iogurtes e gelado. Estou farto. Mas, mais importante, estou fraco. Não sou de medir calorias mas não é difícil perceber que se se passa de 5 refeições diárias bem nutritivas para um fluxo intermitente de sopa e iogurtes líquidos, o corpinho ressente-se.

Em suma, não posso com uma gata pelo rabo.