quinta-feira, agosto 24, 2006

News(?) magazines

Tenho de começar por dizer que apesar de estar na profissão e até ter colaborado algumas vezes para a revista Sábado (ninguém é perfeito), nunca fui fã das chamadas "news magazines".

No entanto, também por força das tais colaborações para a Sábado, e por receber gratuitamente aqui no meu estaminé tanto a Sábado como a Visão, comecei a prestar um pouco mais de atenção a este tipo de publicação.

E, repito, é verdade que nunca fui fã destas revistas de informação, mas de quando em quando comprava a Visão e era uma publicação que eu respeitava.

Pois, "respeitava", porque infelizmente as coisas estão a mudar. Desde que a Sábado apareceu, a concorrência feita à base de uma corrente pró-novo-rico arrastou a Visão para baixo. Assim, agora vemos, semana após semana, as capas com os roteiros de luxo no Alentejo, os hotéis de charme, os hóteis de luxo, as melhores praias...e a Visão que tenta resistir acaba por ir atrás, esta semana, com "a moda de ter casa no Brasil". Isto numa entrevista com o Nobel da literatura confessado ex-SS, Günter Grass.

Enfim, é o jornalismo que temos e o que cada vez mais penso abandonar.

segunda-feira, agosto 14, 2006

Ressaca da ressaca

Antes de mais, um pedido de desculpas. A ninguém em particular, ao tipo que um dia disse "não me arrependo de nada porque aprendo com os meus erros". Pois aprendo e é por isso que não me arrependo mesmo de nada. Se quiserem, desculpa Paula e, sobretudo, desculpa Hugo. Porque apesar dos nossos atritos (muitos, chatos, mas sempre pequenos), se me mentiste alguma vez, nunca me enganaste. Temos as nossas merdas, mas eu não me esqueço que já chorámos juntos.Ok, estávamos perdidamente bêbados, mas não há nada, mas mesmo nada que alguma vez me faça esquecer isso.

Porque o passado já foi, e os meus amigos não são os que não erram mas os que, errando, também estão cá para me corrigir quando sou eu que me engano.

sexta-feira, agosto 11, 2006

Dia 11

Hoje apetecia-me escrever. Isso, só por si, é um acontecimento se se tiver em conta a saturação mental e física que me tem afligido nos últimos tempos.

A verdade é que não podia deixar passar este dia em branco.

Dia 11 de Agosto.

Porque ontem se recordou outro 11, o de Setembro, com mais uma gigantesca campanha de publicidade à estupidez e à selvajaria humana ( ?) a ser evitada.

Porque hoje dei uma volta por Leiria e Alcobaça e vi outra campanha, desta vez, levada às últimas consequências: os incêndios que o ministro António Costa diz serem obra da negligência. Eu permito-me corrigir: do crime. Como de costume.

Porque passei por uma territa que por mero acaso acabou por ser marcante na minha vida. Porque permanece símbolo de um conjunto de amizades estéreis. E doeu porque uma época que parecia tão bela deixa agora um travo amargo a desilusão e engano.

Chama-se Montes. De cacos de sonhos de juventude perdida.

Finalmente:

Porque dia 11 de Agosto já foi sinónimo de sorrisos, festa, felicidade.

Porque o meu irmão faria hoje 30 anos.

Trinta anos. A nova idade da razão. Não lhe assentaria bem.

Vai fazer sete anos que ele partiu. De forma tão estúpida.

Trinta anos. Porra, o puto faria 30 anos.

Não consigo deixar de pensar: quem serias tu hoje? Serias pai, serias magro, gordo, casado, solteiro, divorciado? Serias desempregado, rico, pobre, empregado, patrão, mais maduro, mais louco... serias feliz?

Não sei. Um dia destes alguém me disse que "pensava que eu já estava mais maduro". Ri-me. Como se soubessem o que é isso, essa noção que inventam, essa vida que inventam. Esses castelos de areia que constroem à beira da água.

E tu, puto, serias "maduro"? Não sei.

Mas de uma coisa sei: hoje, como ontem, como amanhã. Tu és o meu irmão, o meu puto, o meu mano.

O resto são os tais castelos à beira da água. O resto são cacos num lugarejo chamado Montes. Cacos de juventude. Montes. De nada.

sexta-feira, julho 28, 2006

Buraco

Hoje estou no buraco. Preso ao ecrã branco luto do processador de texto, tento ultrapassar o bloqueio e escrever algo que não me envergonhe quando sair para as bancas, de sábado a oito.

Impossível.

terça-feira, junho 06, 2006

Caça-fantasmas

Ninguém acredita nas instituições, está certo. Mas porque é que se chegou a este ponto? Porque as coisas não funcionam ou funcionam tão mal que chegam a paroxismos de anedota.

Hoje fui a casa da minha mãe e encontrei-a de cabeça perdida, indignada, furiosa. Antes de ter percebido o que se passava, dou com um postal da PSP, da Divisão de Investigação Criminal. Uma convocatória para o meu irmão.

Um pouco mais calma, a minha mãe explicou-me que já tinha telefonado para a PSP e falado com o agente encarregado do processo. De acordo com o agente Parada (cerebral), o meu irmão estava a ser acusado da autoria de um furto cometido em 2004.

Falta esclarecer que o meu irmão, Mário José Velez Monteiro Mariano, perfeitamente identificado no postal da convocatória, faleceu em 1999, cinco anos antes do alegado furto.

Ora, como se isso já não fosse suficiente, o agente Parada (cerebral) ainda perguntou à minha mãe onde é que o "autor do furto" estava enterrado. Como se a senhora o estivesse a enganar.

Porra! Quem é que são os atrasados mentais que se fazem passar pela autoridade neste país?! Quem são os filhos de uma puta que não sabem o que é ser uma mãe e perder um filho. Espero sinceramente que o mesmo não aconteça ao agente Parada (cerebral). Sem ironia. Para que nunca ninguém lhe pergunte onde é que parte dele está enterrada.

segunda-feira, maio 22, 2006

Fraquinho...

Quinto dia do pós-operatório. São cinco dias e meio a comer nada mais que sopa morna, iogurtes e gelado. Estou farto. Mas, mais importante, estou fraco. Não sou de medir calorias mas não é difícil perceber que se se passa de 5 refeições diárias bem nutritivas para um fluxo intermitente de sopa e iogurtes líquidos, o corpinho ressente-se.

Em suma, não posso com uma gata pelo rabo.

terça-feira, maio 09, 2006

Prego a fundo

Tenho pouco tempo e paciência, por isso vou ser breve no boletim informativo:

1)Participei na Vodafone Cup, prova de automobilismo de resistência (6 horas) no circuito de Jerez de La Frontera. Uma experiência alucinante que ficou documentada nas páginas da Record DEZ do último sábado.

2) Vou regressar a Jerez, desta feita a convite da Porsche, para testar o novo 911. Estou ansioso. Afinal, nada como um "test drive" antes de comprar :)

3) Este sábado vou ao Guincho deixar-me apanhar por umas ondas. Quem quiser rir-se um pouco está convidado.

4) Até já

terça-feira, abril 11, 2006

Para os nostálgicos

Sim, Hugo, porque não és só tu que tem saudades do passado, aqui vai:

www.misteriojuvenil.com

Para o pessoal que já dobrou os 30 ou está lá quase.

segunda-feira, abril 03, 2006

Outra vez??

Este é um tema que não queria voltar a abordar neste espaço, mas sou obrigado pelo mau gosto e pura e simples estupidez de alguns auto-intitulados "defensores da vida".

Falo do aborto, da sua eventual despenalização, e de todos os que irracionalmente confundem despenalização com "incentivo".

O que me leva a passar por este caminho escorregadio é uma série de cartazes espalhados perto do meu local de trabalho. Os ditos cartazes mostram aquilo que alegadamente será um feto humano (duvidoso) e atiram com a frase: "Se está a ler isto é porque não foi abortado" (mais ou menos isto, porque não consegui olhar duas vezes para aquela barbaridade).

Quem é que esta gente pensa que é?!

Quem lhes deu o direito de falarem pelos outros, arrogarem-se de serem donos da vida alheia?

Quem lhes deu o direito de nos insultar com imagens despropositadas e chocantes?

Lembra-me certa vez em que numa conhecida perfumaria fui preesennteado "de brinde", com um dos célebres bonecos que, dizia em mensagem anexa, representava um feto humano (em tamanho real).

A hipocrisia continua.

segunda-feira, março 27, 2006

"Eles não gostam de celulite"

Confesso que a primeira vez que vi este anúncio ia tendo um acidente. Não porque tenha ficado encantado com a espampanante loura de bikini que o ilustra mas porque quando percebi do que se tratava, ia tendo uma apoplexia.

Com que então, "eles não gostam de celulite". Mas passou-me, afinal temos que conceder que os homossexuais também têm direito a publicidade específica. Hã, o quê? "Eles" não são homossexuais? Espera lá, agora é que não estou a perceber nada. É que só há uma hipótese de um gajo não deparar, de quando em quando, com um bocadinho de celulite. É só se dar com homens. Porque a biologia explica que a a celulite é uma consequência da existência de progestrona, a hormona responsável pelos caracteres femininos. Ou seja, a congénere da testosterona.

Com isto, diz-se que os seres humanos com maiores quantidades de progestrona têm, inevitavelmen te, celulite. Ou seja, as mulheres. Seja a peixeira do mercado ou a "top model" mais bem paga, todas a têm. Ok, só que umas mais que outras, afinal isso pode ser minimizado.

Com esta pequena explicação superficialmente científica quero dizer que os senhores publicitários que se lembraram de promover assim o tal instituto de beleza, são daquela espécie que dá mau nome à publicidade. Vender sonhos, ok, explorar as inseguranças de um determinado grupo é que é o diabo. E mais ainda quando esse grupo representa cerca de 50% da espécie humana.

"Eles não gostam de celulite"? Então "eles" não gostam de mulheres.

E sabem que mais? Eu não gosto é de estupidez, falsidade, hipocrisia, mentira, superficialidade, mediocridade. E infelizmente, ainda não há institutos nem clínicas para as tratar.

sexta-feira, março 24, 2006

A minha onda

Costumo dizer que a vida é regida por um senso de humor peculiar. Aos 15 anos fui trabalhar para uma fábrica de pão para ganhar uns trocos. Na altura, a minha grande ambição de adolescente era comprar uma prancha de bodyboard para poder rumar aos fins-de-semana até à Costa e apanhar umas ondas.

Entrava às 22h00 e saía às 09h00 da manhã. Era lixado para um puto chegar a casa e encontrar o irmão de pijama, cair na cama, ser acordado para almoçar, voltar a cair na cama e só sair um pouco a seguir ao jantar para poder estar a tempo de "pegar ao serviço".

Pois, numa altura em que o ordenado mínimo nacional era de cerca de 45 contos, mais coisa menos coisa, acabei por ser pago com uns miseráveis 26 contos e quinhentos. Foi a minha primeira experiência com as injustiças do sistema laboral. Afinal, o trabalho infantil tem destas coisas...

Escusado será dizer que nunca consegui o dinheiro suficiente. Mesmo trabalhando sempre até entrar para a faculdade, nunca consegui comprar a tal prancha.

Até que o ano passado, com a minha situação financeira muito diferente do puto que sacrificou os Verões da sua adolescência para perseguir uma onda, entrei numa loja e comprei tudo. Em meia-hora, a caça terminou.

Enfim, aos 30 anos comecei algo que devia ter começado aos 15. Quando se quer muito, a espera é irrelevante. Bem, quase.

Mas isto do bodyboard não é só material. Há que trabalhar para aprender. Há 15 dias, na Costa da Caparica, isso tornou-se dolorosamente evidente.

O mar estava mau; rebentação desordenada perto da praia , ondas decentes só muito longe, bem no "off-shore". Conclusão: uma trabalheira para lá chegar. Uma trabalheira dolorosa se se tiverem conta a temperatura da água. Em termos técnicos diz-se que estava "fria como o c#!@%&!!!).

Mas cheguei. O mar não estava especialmente grande. Cerca de metro e meio, mas com vagas muito cheias; verdadeiros autocarros verdes escuros.

E depois de algumas amostras mais ou menos conseguidas, depois de o meu parceiro de surfada ter apanhado a sua onda (a coisa estava tão má que praticamente só estávamos os dois na água), vi a minha presa. Um bicho! E já numa fase adiantada: ou a apanhava ou ela apanhava-me a mim.

Um duelo desvantajoso entre homem e parede de água. O primeiro golpe foi meu. Remei com raiva e apanhei a bicha. Mas o monstro virou o jogo cujas regras são, em última instância, dele. Fui levantado até ao lábio do monstro, no topo da onda e, num segundo penosamente longo, fitei a sua boca escancarada lá em baixo. Mergulhei.

Fui maltratado mas consegui não ir ao fundo de areia ( basta uma pedra lá em baixo e é a morte do artista). Pernas e braços arrastados em ângulos impossíveis durante mais tempo do que pensei ser possível, mas lá emergi. Consciente. A tempo de evitar o próximo edifício de água que caía.

Exausto e injectado de adrenalina até ao gargalo, cheguei à segurança da areia. Pernas a tremer do esforço, frio e medo, desato a rir que nem um perdido.

Tenho outra vez 15 anos e estou vivo. Mais vivo que nunca.

quarta-feira, março 22, 2006

Ridículos

O medo é das forças mais poderosas da psique humana. Eu tenho medo de muita coisa: medo de vespas, de alturas, medo de estar sozinho no mar, enfim, medo de muita coisa; alguns medos têm um fundo mais ou menos racional, outros nem por isso.

Todavia, há um medo que se sobrepõe a todos: medo do ridículo. E como se cai no ridículo, perguntam vocês?

De muitas maneiras. A pior, todavia, é mentir descaradamente, com mesuras e gentilezas, tecendo teias de hipocrisia tão diáfanas e transparentes como as das aranhas.

Detesto a hipocrisia, a falsidade, a lata de quem nos passa a mão pelo pêlo quando na realidade prefere ver-nos pelas costas. Ou não nos ver.

Só tenho pena de ser tão burro que só percebo a armadilha quando já lá caí. Várias vezes.

Enfim, acho que também lá cair tanta vez tem o seu quê de ridículo. E sendo assim já o fui. Também várias vezes. Porque há crimes em que a vítima é tão culpada quanto o criminoso.

quinta-feira, março 16, 2006

Fim de tarde em Pozarevac

Estávamos em 2003. Ia como enviado especial à Jugoslávia para fazer a reportagem da participação do V.Guimarães numa eliminatória da "Top Teams Cup" de voleibol.

O destino era uma pequena localidade a cerca de 10o km de Belgrado chamada Pozarevac. Não sabia nada da terrinha, mas pressenti logo à chegada um ambiente estranho, opressivo. Primeiro pensei que talvez fosse o nevoeiro de tabaco à entrada do pavilhão, mas não, era qualquer coisa mais; o silêncio comprometido, o olhar dos mais velhos, que fixavam os estrangeiros como isso mesmo "estrangeiros". Não conseguíamos esquecer a nossa condição.

A atmosfera lembrava a época áurea do terror em Hollywood. Parecia quase normal que nos aparecesse o Boris Karloff ou o Christopher Lee enfeitados capa negra e caninos postiços.

Havia qualquer coisa. Como uma comichão que incomoda mas que não conseguimos localizar. Até que a peça que faltava no "puzzle" surgiu, da maneira mais prosaica: Uma tarja a anunciar uma festa numa discoteca local. Parecia estranho que houvesse uma discoteca num sítio tão cinzento. E no meio da conversa, a intervenção de um local:

--"É a discoteca do filho do Milosevic."

-- "De quem? Do Slobodan Milosevic?"

-- "Sim, esse mesmo. Nasceu aqui, não sabia?"

-- "Não, não sabia, mas agora faz sentido. Só não sei se foi a terra que transformou o tipo se foi a sina do tipo que marcou a terra."

Pozarevac. Nunca mais esqueci o nome, por muito que tentasse. E agora veio outra vez à baila. Como o local onde um dos demónios da História nasceu e onde será enterrado.

Pois, nunca mais esqueci Pozarevac. Esperemos que o Mundo também não esqueça, e que coloque este nome para aí ao lado de Auschwitz.

Vamos comê-los

Devo dizer que estou desiludido. Mas não muito. Não me surpreende que o Benfica tenha resultados pouco conseguidos. Estamos a falar de dois jogos (um empate com a Naval e uma derrota, com culpas do árbitro, ante o Vitória de Guimarães) com equipas manifestamente inferiores e fechadas lá atrás ou, como diria Mourinho, com o "autocarro à frente da baliza".

Isto nasce da própria anatomia do Benfica: uma equipa montada de trás para a frente, apoiada numa defesa coreácea, um meio-campo forte se bem que pouco criativo, e um ataque móvel e flexível mas com dificuldade no ataque planeado. Ou seja, o que se convencionou chamar uma equipa de contra-ataque. É por isso que se deu tão bem com equipas teoricamente mais fortes: Manchester United e Liverpool.

Quanto ao Barcelona, importa dizer que é uma equipa com "tracção à frente", que esbanja talento do meio-campo para diante mas que apresenta algumas lacunas na defesa. Em suma, um adversário ideal para um Benfica com um Simão, um Geovanni e um Miccoli em boa forma, apoiados na defesa brasileira e num meio-campo com Petit (obrigatório) e Beto ou Manuel Fernandes.

Tudo isto para dizer uma coisa: vamos comê-los. Agora só falta dar um tiro no joelho do Ronaldinho.

sexta-feira, março 10, 2006

Sorteio ingrato

Que porcaria de azar. Tinha que nos calhar o Barcelona para os quartos-de-final da Liga dos Campeões. É uma pena uma equipa com a categoria do Barça ter que ficar já pelo caminho.

quinta-feira, março 09, 2006

Vermelho e Negro

Vermelho e Negro. Duas cores que além de combinarem muito bem, reflectem o dia de hoje. Vermelho para o meu Benfica (cujo meio-sucesso não vou para já festejar por preferir esperar pela final) e negro de luto. Luto pelo 25 de Abril que o herdeiro (i)moral de Salazar subiu hoje ao poder.

quarta-feira, março 08, 2006

Benfica!!!

Amanhã escrevo alguma coisa acerca disto, mas agora estou quase a chorar.

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Adeus, caracóis de prata

Lembras-te quando me levavas, pequeno e tímido, pela mão, nas tuas digressões pela cidade? O sítio que gostava mais era o mercado, "a praça", como ainda se chamava ao edifício mágico recheado de cores fortes, inundado pelo cheiro pungente e inconfundível do peixe, fruta e flores, todos casados numa atmosfera densa mas cristalina, partida aqui e ali pelo grito do pregão.

Depois, era a passagem pela Aurora florista, sempre à espera que a Belinha, a filha da simpática e rechonchuda senhora aparecesse. As febres da adolescência ainda estavam distantes, mas já pressentia naquela presença fresca um esboço das paixões que haveriam de sacudir o meu corpo adulto.

Inevitável também as visita ao senhor Isidro, "o bananeiro", comprar fruta, e ao depósito de pão da D. Marília para ir buscar a meia dúzia de papo-secos do costume, já para não falar nos deliciosos suspiros que se desfaziam na boca e ajudaram a uma infância e adolescência, bem,...robusta.

Foi também à porta da D. Marília que me ensinaste, à força do único estalo que me lembro, em 31 anos, ter recebido da tua mão (e se os merecia). Em causa estava um boneco do Super-Homem com pára-quedas. Foi a primeira e última birra de que me lembro.

Nunca me deste o tal boneco com pára-quedas, mas salvaste-me de cair muitas vezes. Foi a tua paciência e o teu carinho que me ensinou a amar as letras. Era um prazer ouvir-te ler-me as histórias do clube do rato Mickey que chegavam mensalmente pelo correio. Anos mais tarde, foste tu que me compraste o "Evangelho Segundo Jesus Cristo", o meu primeiro livro de adulto, longe dos clássicos de aventuras do Tom Sawyer, dos Três Mosqueteiros, ou do universo de Júlio Verne.

Lembro-me de, durante uma dessas digressões de compras quotidianas, me ter perdido de ti. Assustei-me e fui à tua procura. A primeira coisa que vi foram os teus caracóis prateados, sempre compostos e bem juntos num penteado disciplinado, como tu. A figura austera, sempre vestida de preto, num luto eterno pelo avô que não cheguei a conhecer, tinha guardada dentro dela um coração que amava o netinho como um filho nascido fora de tempo. Talvez por isso, às vezes dava comigo a chamar-te "mãe". Dizia que era engano, mas, se calhar, não.
Deus, o alívio que foi ver os teus caracóis de prata.

É essa a imagem que quero guardar de ti. Não quero sequer recordar muitas vezes a última vez que os nossos olhos se cruzaram, quando estavas já semi-paralisada e era eu a dar-te o comer à boca, devolvendo um gesto muitas vezes repetido no passado, quando o Carlos Mariano era apenas uma bola rechonchuda no teu colo; uma promessa de gente. Uma promessa que tenho medo de não ter cumprido como desejarias.

Não sabia que era o Adeus, avó, não sabia.

Mas foi. Perdoa mas não consigo ir ao hospital. Não consigo ir ver a tua casca, ali deitada na maca, suportada por máquinas e alimentada por tubos. Os médicos dizem que o AVC foi forte de mais, que o cérebro está morto e é só o coração que teimosamente resiste. Mas sempre fomos assim, né, querida? Dois corações teimosos que não sabem desistir.

Mas podes descansar, podes ir, o meu baterá por ti...mãe.

quarta-feira, janeiro 25, 2006

memória curta

Portugal é um país cheio de qualidades mas com um grande defeito: os portugueses.
Só assim se explica que 10 anos depois, o mesmo povo desmemoriado volte a eleger quem lhe fez tanto mal. É o grande amor que temos pelos ditadores. O povo português está cheio de saudades do Salazar e como o botas já a bateu, elegem o seu clone algarvio.

Eu por mim, apetece-me emigar para um país mais civilizado. Talvez o Burkina Faso.

sexta-feira, janeiro 06, 2006

Aos novos velhos amigos

Não queria começar este "post" com um lugar comum, mas, às vezes, é impossível evitar por isso, lá vai: A vida é uma montanha russa.

O ano de 2005 foi um ano especial porque (re)reencontrei (e não, não é erro, ela percebe), alguém que em tempos me marcou de forma muito significativa.

O reencontro foi atribulado, afinal, foram 15 anos e quando ela desapareceu do meu mapa (literalmente, pois sei agora que a moça esteve na Escócia, imagine-se), era pouco mais que uma criança com muita coisa para resolver e muito para crescer. Felizmente, o (re)reencontro foi mais suave. Ok, também teve algumas particularidades estranhas, mas também este ponto terá de ficar para uma qualquer biografia não autorizada :)

O certo é que hoje creio que posso dizer com alguma segurança que agora que os nossos caminhos se voltaram a cruzar, nunca mais vou permitir que ela desapareça assim do meu mapa. Até porque o meu mapa, assim como eu, cresceu significativamente.

Outra pessoa que reentrou no meu quotidiano também é um (re)reencontro. Este camarada, cúmplice, sacana, salafrário, judeu, amigo, irmão, também resolveu sair do meu mapa geográfico e foi para, imagine-se, Cabo Verde, mais precisamente para a ilha do Sal.

O reencontro foi inesquecível. Estava este vosso amigo em "stress" a tentar convencer um recepcionista de hotel a deixar-me usar a linha de fax para enviar um serviço, quando percebi uma figura sinistra que estava refastelada num sofá do "lobby". E só me apercebi da sua presença quando a dita personagem se levantou e se dirigiu para mium com um ar esgazeado. Não distingui imediatamente a sua identidade por tão improvável que seria a coincidência. Improvável mas possível. Era o dito salafrário! Abraços para aqui e gargalhadas para acolá, muitas perguntas depois percebi que o bandido estava a trabalhar em Cabo Verde, numa empresa de aluguer de automóveis. Perfeitamente instalado e adaptado.

Trocámos endereços de e-mail e a coisa ficou por aí. Só que há dois dias por outra coincidência recebi um e-mail do meu amigo. Está vivo, de boa saúde e respeitavelmente instalado, ainda, no Sal. Diz que só vem a Portugal entre Maio e Outubro, que o resto do ano na pátria lhe parece a Sibéria. De resto, continua o mesmo.

15 anos. 15 anos não são nada.

Com tudo isto, há uma frase que me martela insistentemente na cabeça: Afinal, há coisas que nunca mudam. Mesmo.