Há coisas do diabo. Numa altura em que se fala tanto de boatos e tal...
Bem, que tal darem uma espreitadela a uma certa vivenda na zona de Penafiel? Talvez fiquem tão surpreendidos como eu fiquei quando soube que aí reside a razão pela qual Vítor Baía se separou da mulher.
Ah, e razão faz a barba.
quarta-feira, fevereiro 23, 2005
segunda-feira, janeiro 24, 2005
Terra do Nunca
Ontem fui ver um dos melhores filmes que já tive o privilégio de assistir. "À procura da Terra do Nunca" como lhe chamam por cá é um exemplo magistral de como se pode contar uma história emocionalmente poderosa de forma soberbamente contida.
É raro, mas às vezes tenho de concordar com o meu amigo Hugo.
É raro, mas às vezes tenho de concordar com o meu amigo Hugo.
sexta-feira, janeiro 21, 2005
Inveja
Recomendo vivamente a leitura do livro de José Gil "Portugal, Hoje: o Medo de Mudar". Li a entrevista que este pensador (considerado um dos maiores 25 pensadores do mundo pelo "Nouvelle Observateur") deu à revista Pública do último domingo e fiquei esclarecido.
"Vivemos paralisados pela inveja", afirma o autor, que coloca este sentimento bem acima desta condição: é algo que faz parte do próprio sangue deste povo.
E, de facto, ao reflectir no que diz José Gil, desde cedo que somos vítimas desta cultura da mediocridade. Desde os bancos de escola, os melhores alunos são reprimidos, marginalizados e só são integrados e aceites quando deixam de brilhar. É a cultura do lodo.
Inveja. Em vez de ganharmos força e motivação com o sucesso dos outros, em vez de procurar imitar o seu exemplo, arrumamo-los com rótulos, insultos, ou a assassina ironia de quem sabe que em Portugal todos vivemos com medo e sensibilidade à flor da pele. Porque este é um país verde, imaturo, sufocado durante anos pelo Salazarismo. Mas não só. É um medo atávico que prefere diminuir os outros à sua própria insignificância.
E é por isso que o país não anda para a frente? Versão Reader's Digest: Sim. Não só, mas claramente também.
"Vivemos paralisados pela inveja", afirma o autor, que coloca este sentimento bem acima desta condição: é algo que faz parte do próprio sangue deste povo.
E, de facto, ao reflectir no que diz José Gil, desde cedo que somos vítimas desta cultura da mediocridade. Desde os bancos de escola, os melhores alunos são reprimidos, marginalizados e só são integrados e aceites quando deixam de brilhar. É a cultura do lodo.
Inveja. Em vez de ganharmos força e motivação com o sucesso dos outros, em vez de procurar imitar o seu exemplo, arrumamo-los com rótulos, insultos, ou a assassina ironia de quem sabe que em Portugal todos vivemos com medo e sensibilidade à flor da pele. Porque este é um país verde, imaturo, sufocado durante anos pelo Salazarismo. Mas não só. É um medo atávico que prefere diminuir os outros à sua própria insignificância.
E é por isso que o país não anda para a frente? Versão Reader's Digest: Sim. Não só, mas claramente também.
quinta-feira, janeiro 13, 2005
O castigo da normalidade
Não há pena maior, castigo mais duro e condição mais desgraçada que a de ser normal. Infelizmente, parece que é a isso que, cada vez mais, estou fadado.
Subi a encosta da vida convencido que seria algo de extraordinário, que a minha vida seria qualquer coisa de marcante e que pairaria muito acima da mediocridade dos "normais".
Mesmo nas alturas em que todo o ser humano reza para ser o mais igual ao seu vizinho, ostentei as minhas diferenças com orgulho, como se a mera inadaptação fosse uma marca de água da grandiosidade que me esperava ao fundo do túnel.
Entretanto, fiz 30 anos, uma data que sugere balanços. Alguns amigos colocam-me a coisa nestes termos: "Tens casa, carro, dinheiro e um bom emprego e uma miúda que gosta de ti. Porque é que dizes que não és feliz? porque é que dizes que te falta algo? Falta?"
Falta. A diferença. Falta a tal marca de água, falta a chama e a crença de que nasci para ser diferente, superlativo.
Estou cada vez mais normal. Cada vez mais presa da normalidade assassina que esfuma as linhas do rosto e a chama dos olhos e do peito, que torna rombas as facas dos dentes.
Tenho trinta anos. Aos quarenta, o animal ressurge, dizem. Esperemos que o acordar da minha besta não se manifeste pela compra de um descapotável.
Subi a encosta da vida convencido que seria algo de extraordinário, que a minha vida seria qualquer coisa de marcante e que pairaria muito acima da mediocridade dos "normais".
Mesmo nas alturas em que todo o ser humano reza para ser o mais igual ao seu vizinho, ostentei as minhas diferenças com orgulho, como se a mera inadaptação fosse uma marca de água da grandiosidade que me esperava ao fundo do túnel.
Entretanto, fiz 30 anos, uma data que sugere balanços. Alguns amigos colocam-me a coisa nestes termos: "Tens casa, carro, dinheiro e um bom emprego e uma miúda que gosta de ti. Porque é que dizes que não és feliz? porque é que dizes que te falta algo? Falta?"
Falta. A diferença. Falta a tal marca de água, falta a chama e a crença de que nasci para ser diferente, superlativo.
Estou cada vez mais normal. Cada vez mais presa da normalidade assassina que esfuma as linhas do rosto e a chama dos olhos e do peito, que torna rombas as facas dos dentes.
Tenho trinta anos. Aos quarenta, o animal ressurge, dizem. Esperemos que o acordar da minha besta não se manifeste pela compra de um descapotável.
terça-feira, janeiro 11, 2005
No olho do ciclone
Confesso: estou mal habituado. Moldado ou distorcido por uma maturação complicada, posso dizer que me tornei um vinho encorpado, de cor vermelho-rubi (clubística e politicamente) e um aroma profundo e inebriante, matizado de taninos suaves e um ligeiro sabor persistente a teimosia.
Bem, piadas à parte, sou o que sou, bem ou mal, graças às dificuldades; por não dar nunca nada como adquirido e lutar pelo que quero.
E agora? Agora atravesso um estranho momento de calmaria. Sem dramas, sem dificuldades de maior além das que tento imaginar, estou lentamente a perder propriedades.
Ou se calhar estou no olhbo do furacão, atento à vida que circula transtornada à minha volta. À vida dos outros, porque da minha apenas digo que estou aborrecido. Um bocadinho.
Bem, piadas à parte, sou o que sou, bem ou mal, graças às dificuldades; por não dar nunca nada como adquirido e lutar pelo que quero.
E agora? Agora atravesso um estranho momento de calmaria. Sem dramas, sem dificuldades de maior além das que tento imaginar, estou lentamente a perder propriedades.
Ou se calhar estou no olhbo do furacão, atento à vida que circula transtornada à minha volta. À vida dos outros, porque da minha apenas digo que estou aborrecido. Um bocadinho.
segunda-feira, janeiro 03, 2005
Ano novo...
Aqui está 2005.
Confesso que cada vez tenho menos fascínio por essa coisa do ano novo. É conveniente que haja um calendário que nos lembre da passagem do tempo mas estou a habituar-me a catalogar as gavetas da minha vida em função de eventos marcantes. Talvez porque tenho tido muitos.
Adiante, é apenas uma proposta. Não deve ser das mais práticas, mas nunca fui conhecido por ser prático.
PS: Para alguém que conheço, 2005 é um bom exemplo. Será o ano em que nasce sua filha. Só isso deveria chegar, não?
Parabéns
Confesso que cada vez tenho menos fascínio por essa coisa do ano novo. É conveniente que haja um calendário que nos lembre da passagem do tempo mas estou a habituar-me a catalogar as gavetas da minha vida em função de eventos marcantes. Talvez porque tenho tido muitos.
Adiante, é apenas uma proposta. Não deve ser das mais práticas, mas nunca fui conhecido por ser prático.
PS: Para alguém que conheço, 2005 é um bom exemplo. Será o ano em que nasce sua filha. Só isso deveria chegar, não?
Parabéns
quinta-feira, dezembro 02, 2004
Justiça
À hora que escrevo estas linhas, corre a notícia, ainda não confirmada, que Pinto da Costa foi notificado na sequência do caso "apito dourado". Dizem ainda que o "Papa" está em Espanha. Azar do caraças!
Ao cabo de 20 anos de roubos declarados, conspirações e todo o tipo de jogadas sujas, o reinado de Pinto da Costa está, finalmente, a chegar ao fim.
Escrevo isto sem ponta de clubismo. Também aplaudiria se LF Vieira fosse preso. Aliás, ainda falta esse. Falo em nome do futebol. Há alguns anos, um presidente do Sporting veio falar do "25 de Abril do futebol"; parece que, finalmente, os tanques estão na rua.
Ao cabo de 20 anos de roubos declarados, conspirações e todo o tipo de jogadas sujas, o reinado de Pinto da Costa está, finalmente, a chegar ao fim.
Escrevo isto sem ponta de clubismo. Também aplaudiria se LF Vieira fosse preso. Aliás, ainda falta esse. Falo em nome do futebol. Há alguns anos, um presidente do Sporting veio falar do "25 de Abril do futebol"; parece que, finalmente, os tanques estão na rua.
terça-feira, novembro 30, 2004
quinta-feira, novembro 18, 2004
Intimidade e sim, ovos mexidos
Temos medo. O sexo, mais conhecido nestas páginas como "ovos mexidos" (ver "post" com o mesmo título) é bom. Afirmação pouco polémica. Tão pouco que a sabedoria "hollywoodesca" já a sintetizou: "Sexo é como pizza: mesmo quando é mau, é bom".
Então não é de sexo que temos medo. Ok, concedo que até haja quem tenha medo de sexo, mas isso é uma questão dos que ainda não o começaram e dos que estão com medo que acabe. Coisas do tempo. Daquele que temos e do que ainda nos resta, dependendo da perspectiva.
Mas no meio, entre os inícios e os finalmentes, há os entretantos, os dos ovos mexidos. E é aí que entra o outro medo, o egoísta: medo da intimidade.
O segredo do bom sexo (dizem, que eu não percebo nada disso) é o esquecimento, a anulação da consciência. Esquecermo-nos de quem somos perante outra pessoa; esquecer o pudor, a inadequação. E aí as hormonas ajudam.
O problema é quando passa a "magia" química: nús, umas vezes em cama alheia, outras com alguém que, vendo bem, é praticamente um estranho, estamos paradoxalmente sós.
Lembro-me da história de um amigo que percebeu a real dimensão do erro quando depois de uma noite tórrida, a parceira de idílio erótico o convidou para o seu duche. O problema foi que ele estava urinando e a moça entra casa de banho adentro, sem respeito por aquele momento...íntimo.
Pois é: intimidade. É esse o cerne do problema. É que, nestes dias de propaganda generalizada, de corpos perfeitos enlaçados, o sexo não é, não pode ser, a medida da intimidade.
A intimidade faz-se na partilha de coisas simples mas secretas. É deixar entrar outrém no pequeno e secreto espaço em que nos habituámos a viver. E não é fácil. Para muitos de nós, o proverbial armário onde guardamos os "esqueletos", ou a partilha de uma casa de banho, não é tarefa simples. E é aí, nesse tão menosprezado campo de batalha que se ganham ou perdem relações.
Formulado de maneira sintética: "Posso ir contigo para a cama mas, por favor, não me vejas mijar."
Amén
Então não é de sexo que temos medo. Ok, concedo que até haja quem tenha medo de sexo, mas isso é uma questão dos que ainda não o começaram e dos que estão com medo que acabe. Coisas do tempo. Daquele que temos e do que ainda nos resta, dependendo da perspectiva.
Mas no meio, entre os inícios e os finalmentes, há os entretantos, os dos ovos mexidos. E é aí que entra o outro medo, o egoísta: medo da intimidade.
O segredo do bom sexo (dizem, que eu não percebo nada disso) é o esquecimento, a anulação da consciência. Esquecermo-nos de quem somos perante outra pessoa; esquecer o pudor, a inadequação. E aí as hormonas ajudam.
O problema é quando passa a "magia" química: nús, umas vezes em cama alheia, outras com alguém que, vendo bem, é praticamente um estranho, estamos paradoxalmente sós.
Lembro-me da história de um amigo que percebeu a real dimensão do erro quando depois de uma noite tórrida, a parceira de idílio erótico o convidou para o seu duche. O problema foi que ele estava urinando e a moça entra casa de banho adentro, sem respeito por aquele momento...íntimo.
Pois é: intimidade. É esse o cerne do problema. É que, nestes dias de propaganda generalizada, de corpos perfeitos enlaçados, o sexo não é, não pode ser, a medida da intimidade.
A intimidade faz-se na partilha de coisas simples mas secretas. É deixar entrar outrém no pequeno e secreto espaço em que nos habituámos a viver. E não é fácil. Para muitos de nós, o proverbial armário onde guardamos os "esqueletos", ou a partilha de uma casa de banho, não é tarefa simples. E é aí, nesse tão menosprezado campo de batalha que se ganham ou perdem relações.
Formulado de maneira sintética: "Posso ir contigo para a cama mas, por favor, não me vejas mijar."
Amén
quarta-feira, novembro 10, 2004
Silêncio de ouro
Parado para obras. Deixei passar as eleições presidenciais norte-americanas, os desvarios governativos do túnel do Rossio, da anunciada taxa para a entrada de automóveis em Lisboa, até do real peso da (alegada) redução das taxas do IRS.
Tudo porque estou em obras.
Quando as coisas mudam bruscamente e o meu mundo parece virado de pernas para o ar (ou finalmente deixa de estar), então mais vale parar para pensar. A palavra pode, de facto, ser de prata. Mas, amigos, em "certas e determinadas situações"...o silêncio é mesmo de ouro.
Tudo porque estou em obras.
Quando as coisas mudam bruscamente e o meu mundo parece virado de pernas para o ar (ou finalmente deixa de estar), então mais vale parar para pensar. A palavra pode, de facto, ser de prata. Mas, amigos, em "certas e determinadas situações"...o silêncio é mesmo de ouro.
terça-feira, novembro 02, 2004
Fidel de bolso
Em resposta ao amigo que se insurge contra a minha caracterização da Madeira:
O estilo, em política, é indissociável da sua práxis. E se o estilo de Alberto João é "latino-americano", caro amigo, por sua vez reconhecerá que a política betoneira da "obra feita", tão ao gosto da era cavaquista, não faz mais que esconder as profundíssimas assimetrias de uma ilha dividida entre o Funchal turístico e a "paisagem".
Meu caro, numa coisa eu lhe concedo razão: as falhas da Madeira não serão assim tão diferentes daquelas que todos os dias assinalamos no resto do nosso país, o problema é que a sua insularidade acentua esses problemas. O resto é problema dessa mesma insularidade especial, estimulada por um governo trauliteiro, caricatura de fontismo e cavaquismo. Um regime que parece querer ter pouco de democrático na sua obsessão em dificultar o trabalho dos "patetas da comunicação social do continente".
Quanto ao facto de não terem sido detectadas ou denunciadas fraudes eleitorais, devo dizer que a manipulação de um boletim de voto não é a única forma de viciar umas eleições. Se o meu amigo, como tudo indica, é madeirense, saberá melhor do que eu o que é o caciquismo, já para não falar na demagogia populista e caceteira.
Entretanto, das conversas que tive com alguns madeiren ses sobre o assunto, é voz corrente e crença comum que existe de facto "algo estranho" nas recorrentes reeleições de Alberto João Jardim. Conversas não passam disso mesmo e à falta de provas não lhes posso atribuir grande importância, mas que não deixam de ser sintomáticas.
Em suma, caro amigo, sei que estamos em posições inconciliáveis. Concedo que talvez o povo da Madeira não tenha grandes alternativas ao "Fidel de bolso" Jardim, mas a escolha de um homem que promove o culto da personalidade, do "regionalismo" quase racista (e nesse campeonato também temos o Pinto da Costa) e que capitaliza votos a partir da ignorância de um povo dividido por profundas fracturas soció-económicas, não o dignifica em nada.
E mais uma coisa quanto à obra feita: Tem qualquer coisa de edipiano o "lobbying" feito pelo "presidente da Madeira" (conforme dizia esta semana uma responsável do PSD num lapso inconsciente muito interessante), para conseguir boas fatias do OE e depois apelidar a esmagadora maioria dos portugueses, os que vivem no continente paterno e lhe pagam "a obra feita" com os seus impostos, de cubanos. Mas para um Fidel de bolso o que mais poderíamos esperar?
O estilo, em política, é indissociável da sua práxis. E se o estilo de Alberto João é "latino-americano", caro amigo, por sua vez reconhecerá que a política betoneira da "obra feita", tão ao gosto da era cavaquista, não faz mais que esconder as profundíssimas assimetrias de uma ilha dividida entre o Funchal turístico e a "paisagem".
Meu caro, numa coisa eu lhe concedo razão: as falhas da Madeira não serão assim tão diferentes daquelas que todos os dias assinalamos no resto do nosso país, o problema é que a sua insularidade acentua esses problemas. O resto é problema dessa mesma insularidade especial, estimulada por um governo trauliteiro, caricatura de fontismo e cavaquismo. Um regime que parece querer ter pouco de democrático na sua obsessão em dificultar o trabalho dos "patetas da comunicação social do continente".
Quanto ao facto de não terem sido detectadas ou denunciadas fraudes eleitorais, devo dizer que a manipulação de um boletim de voto não é a única forma de viciar umas eleições. Se o meu amigo, como tudo indica, é madeirense, saberá melhor do que eu o que é o caciquismo, já para não falar na demagogia populista e caceteira.
Entretanto, das conversas que tive com alguns madeiren ses sobre o assunto, é voz corrente e crença comum que existe de facto "algo estranho" nas recorrentes reeleições de Alberto João Jardim. Conversas não passam disso mesmo e à falta de provas não lhes posso atribuir grande importância, mas que não deixam de ser sintomáticas.
Em suma, caro amigo, sei que estamos em posições inconciliáveis. Concedo que talvez o povo da Madeira não tenha grandes alternativas ao "Fidel de bolso" Jardim, mas a escolha de um homem que promove o culto da personalidade, do "regionalismo" quase racista (e nesse campeonato também temos o Pinto da Costa) e que capitaliza votos a partir da ignorância de um povo dividido por profundas fracturas soció-económicas, não o dignifica em nada.
E mais uma coisa quanto à obra feita: Tem qualquer coisa de edipiano o "lobbying" feito pelo "presidente da Madeira" (conforme dizia esta semana uma responsável do PSD num lapso inconsciente muito interessante), para conseguir boas fatias do OE e depois apelidar a esmagadora maioria dos portugueses, os que vivem no continente paterno e lhe pagam "a obra feita" com os seus impostos, de cubanos. Mas para um Fidel de bolso o que mais poderíamos esperar?
sexta-feira, outubro 29, 2004
Ilhas
Escrevo estas linhas sentado numa cadeira metálica de um cibercafé do Funchal. O facto de estar numa ilha fez-me reflectir sobre essa condição especial que é a de ilhéu.
Deve ser interessante viver neste pedaço de terra que é português na denominação, europeu na população e latino-americano no regime, sim porque apesar de o tio Alberto nos chamar a todos "cubanos", é ele que tem as tendências "fidelcastrinianas".
Mas fui mais longe. Não sei porquê , ocorreu-me, de forma óbvia e pungente, a doída voz de Paul Simon e o dedilhar da guitarra no tema "I am an Island". Afinal, não o somos todos?
Não somos todos nós ilhéus de nós mesmos? massas de gente cercadas de vazios por todos os lados?
Haverá alguns de entre vós que acorrerão a desmentir-me. Rejeitarão esta tese "fruto dos teus habituados estados depressivos", dirão, arengando com a felicidade que lhes é emprestada por momentos, cientes que ninguém a retirará.
Outros, momentaneamente vencidos pela vida, dirão sem perceberem a mensagem, que sim, que temem que tenho razão, que "tudo é uma merda" e todos os dias assistem impotentes ao desmoronar das ilusões telenovelescas que lhes aqueceram os pés ao longo de anos de novelas da Globo.
"I am a rock, I am an island, and a rock feels no pain, and an island never cries", diz o Paul. Não sei a resposta, apenas tenho perguntas, muitas. É que há algo que nos separa desta ilha e de todas as outras, as geológicas: sentimos dor, choramos, e tocamos. E para além dessas noções quebradiças de felicidade e infelicidade, também somos, nem que seja por momentos, arquipélagos, penínsulas e até, nem que seja por um segundo, enormes continentes de esperança.
Deve ser interessante viver neste pedaço de terra que é português na denominação, europeu na população e latino-americano no regime, sim porque apesar de o tio Alberto nos chamar a todos "cubanos", é ele que tem as tendências "fidelcastrinianas".
Mas fui mais longe. Não sei porquê , ocorreu-me, de forma óbvia e pungente, a doída voz de Paul Simon e o dedilhar da guitarra no tema "I am an Island". Afinal, não o somos todos?
Não somos todos nós ilhéus de nós mesmos? massas de gente cercadas de vazios por todos os lados?
Haverá alguns de entre vós que acorrerão a desmentir-me. Rejeitarão esta tese "fruto dos teus habituados estados depressivos", dirão, arengando com a felicidade que lhes é emprestada por momentos, cientes que ninguém a retirará.
Outros, momentaneamente vencidos pela vida, dirão sem perceberem a mensagem, que sim, que temem que tenho razão, que "tudo é uma merda" e todos os dias assistem impotentes ao desmoronar das ilusões telenovelescas que lhes aqueceram os pés ao longo de anos de novelas da Globo.
"I am a rock, I am an island, and a rock feels no pain, and an island never cries", diz o Paul. Não sei a resposta, apenas tenho perguntas, muitas. É que há algo que nos separa desta ilha e de todas as outras, as geológicas: sentimos dor, choramos, e tocamos. E para além dessas noções quebradiças de felicidade e infelicidade, também somos, nem que seja por momentos, arquipélagos, penínsulas e até, nem que seja por um segundo, enormes continentes de esperança.
quinta-feira, outubro 21, 2004
Misantropo
Misantropo. Para quem não se lembra ou não passou por isso (Sim, que eu não estou a ficar mais novo), esta era uma das palavras que pintalgava a PGA (Prova Geral de Acesso), prova polémica que mandou abaixo ministros da Educação e deu mais uma das muitas facadas no governo de Cavaco.
Tudo isto irrompeu pela minha memória dentro quando vi a carga policial aos estudantes de Coimbra que tentavam invadir (pacificamente, sublinhe-se) o Senado académico. A causa das queixas, desta vez, mais uma vez, são as propinas mas poderia ser outra coisa qualquer, quem sabe, até a PGA.
Quanto a essa prova, devo dizer que até gostava daquilo: não tinha de se estudar e podia-se colocar em acção todo o manancial de conhecimentos que o puto já tinha acumulado aos 17 anos.
Mas era o princípio da coisa, que me parecia algo fascista, que me levou à rua a protestar.
Todavia, nem nos piores tempos da Ferreira Leite e do Grilo na Educação e do Cavaco no governo, vi algo semelhante áquilo que se passou em Coimbra: é o (des)governo Santana em todo o seu esplendor.
Entretanto, e ainda na mesma linha, gostei muito de ver Morais Sarmento assumir a vocação ditatorial deste (des)governo quando em pleno Parlamento advogou que o (des)governo deveria controlar a programação da televisão pública porque "não são os administradores ou os jornalistas a responder perante os eleitores".
Fantástico.
Já agora, porque não colocar o povo a governar directamente? Venha a anarquia e pronto. Sim, porque pela mesma lógica do senhor ministro, não são eles a sentir na pele os efeitos da sua desastrada governação?
Enfim, como se dizia em 92: Cambada de Misantropos
Tudo isto irrompeu pela minha memória dentro quando vi a carga policial aos estudantes de Coimbra que tentavam invadir (pacificamente, sublinhe-se) o Senado académico. A causa das queixas, desta vez, mais uma vez, são as propinas mas poderia ser outra coisa qualquer, quem sabe, até a PGA.
Quanto a essa prova, devo dizer que até gostava daquilo: não tinha de se estudar e podia-se colocar em acção todo o manancial de conhecimentos que o puto já tinha acumulado aos 17 anos.
Mas era o princípio da coisa, que me parecia algo fascista, que me levou à rua a protestar.
Todavia, nem nos piores tempos da Ferreira Leite e do Grilo na Educação e do Cavaco no governo, vi algo semelhante áquilo que se passou em Coimbra: é o (des)governo Santana em todo o seu esplendor.
Entretanto, e ainda na mesma linha, gostei muito de ver Morais Sarmento assumir a vocação ditatorial deste (des)governo quando em pleno Parlamento advogou que o (des)governo deveria controlar a programação da televisão pública porque "não são os administradores ou os jornalistas a responder perante os eleitores".
Fantástico.
Já agora, porque não colocar o povo a governar directamente? Venha a anarquia e pronto. Sim, porque pela mesma lógica do senhor ministro, não são eles a sentir na pele os efeitos da sua desastrada governação?
Enfim, como se dizia em 92: Cambada de Misantropos
terça-feira, outubro 19, 2004
O Mundo ao contrário
Confesso que nem sou um fã por aí além de Xutos&Pontapés, mas mesmo assim peço-lhes emprestado o título. O mundo está mesmo ao contrário. Cheguei agora de uma reportagem aos Algarves e pelo caminho vinha a ouvir uma notícia que dava conta do interesse de alguns países voltarem a apostar na energia nuclear.
Quer dizer, numa altura em que o petróleo atinge preços brutais e em que se deveria, finalmente, começar a reconverter a indústria e a produção de energia para as fontes ecológicas renováveis, eis que querem voltar ao urânio. Boa, boa, os terroristas agradecem, pois onde é que iam buscar material para bombas? Quanto mais urânio enriquecido houver à solta em países como a China, Coreia(s), Japão e África do Sul, mais fácil é apanhar algum e enfiá-lo na baixa de Nova Iorque, ou Washington ou Londres ou onde lhes apeteça.
Isto para não falar nas questões mais óbvias como as ambientais. Remember Chernobyl? As crianças com malformações e as famílias dos mortos de cancro e leucemia ou os doentes que ainda hoje padecem, lembram-se de certeza.
Um mundo ao contrário é também aquele em que as mães esuartejam crianças no Algarve, em que se morre ou é condenado a morrer no Sudão por não se pertencer à etnia "correcta", ou em que um primeiro-ministro não eleito governa um país que pretensamente integrou o clube das democracias há 30 anos.
Mas o mundo esteve sempre ao contrário. Só assim faz sentido que cá estejamos: para o endireitar, ou morrer tentando. Entretanto, ouvimos Xutos e concordamos.
Quer dizer, numa altura em que o petróleo atinge preços brutais e em que se deveria, finalmente, começar a reconverter a indústria e a produção de energia para as fontes ecológicas renováveis, eis que querem voltar ao urânio. Boa, boa, os terroristas agradecem, pois onde é que iam buscar material para bombas? Quanto mais urânio enriquecido houver à solta em países como a China, Coreia(s), Japão e África do Sul, mais fácil é apanhar algum e enfiá-lo na baixa de Nova Iorque, ou Washington ou Londres ou onde lhes apeteça.
Isto para não falar nas questões mais óbvias como as ambientais. Remember Chernobyl? As crianças com malformações e as famílias dos mortos de cancro e leucemia ou os doentes que ainda hoje padecem, lembram-se de certeza.
Um mundo ao contrário é também aquele em que as mães esuartejam crianças no Algarve, em que se morre ou é condenado a morrer no Sudão por não se pertencer à etnia "correcta", ou em que um primeiro-ministro não eleito governa um país que pretensamente integrou o clube das democracias há 30 anos.
Mas o mundo esteve sempre ao contrário. Só assim faz sentido que cá estejamos: para o endireitar, ou morrer tentando. Entretanto, ouvimos Xutos e concordamos.
sexta-feira, outubro 08, 2004
Desculpa Jorge
Quero pedir desculpa. Correndo o risco de emular o velhinho "Perdoa-me", venho aqui oferecer um ramo de flores ao nosso presidente da República, Jorge Sampaio. Sim, porque os homens podem receber flores.
Jorge, quando deixaste que Santana e Cia. ocupassem os assentos do poder, chamei-te nomes; disse que eras um traidor, um vendido, um cobarde. Subestimei-te. Pensei mal de ti e hoje penitencio-me.
Afinal tu, querido Jorge, sabias mais e viste mais longe que nós. Deste-lhes a corda e deixaste-os enforcarem-se. Temos este governo gerido na Kapital há menos de três meses e parecem três séculos. Este governo que consegue fazer de Cavaco Silva um democrata de Guterres um exemplo de competência. Este governo que cala um seu congénere partidário de forma tão suja e desastrada. Este governo que lida com a questão do aborto com luvas de boxe, este governo que faz a gestão de Manuela Ferreira Leite parecer socialmente empenhada.
Do ponto de vista humano e político já fizeram pior do que calar o professor, mas a nível de imagem e relações públicas, amigos...esqueçam
Enfim, mais uma vez, obrigado Jorge. És o maior!
Jorge, quando deixaste que Santana e Cia. ocupassem os assentos do poder, chamei-te nomes; disse que eras um traidor, um vendido, um cobarde. Subestimei-te. Pensei mal de ti e hoje penitencio-me.
Afinal tu, querido Jorge, sabias mais e viste mais longe que nós. Deste-lhes a corda e deixaste-os enforcarem-se. Temos este governo gerido na Kapital há menos de três meses e parecem três séculos. Este governo que consegue fazer de Cavaco Silva um democrata de Guterres um exemplo de competência. Este governo que cala um seu congénere partidário de forma tão suja e desastrada. Este governo que lida com a questão do aborto com luvas de boxe, este governo que faz a gestão de Manuela Ferreira Leite parecer socialmente empenhada.
Do ponto de vista humano e político já fizeram pior do que calar o professor, mas a nível de imagem e relações públicas, amigos...esqueçam
Enfim, mais uma vez, obrigado Jorge. És o maior!
sábado, outubro 02, 2004
O melhor e o pior
Cheguei há pouco tempo de Atenas, palco de sonho e pesadelo para aquele que foi, talvez, o pior e o melhor serviço da minha vida.
Para a história, este evento vai ficar como os XII Jogos Paralímpicos. Para mim, todavia, será bem mais que isso, foi um abrir de olhos.
Dificilmente esquecerei a incompetência dos voluntários que supostamente deveriam ajudar o público e os jornalistas. A sua obtusa teimosia em cumprir ordens até ao paroxismo insensato e ilógico serve como uma lição do que acontece a quem segue ordens e impõe regras sem a clarividência para as contornar que é como quem diz, afinal, sem capacidade para as fazer exercer de maneira inteligente.
Dificilmente esquecerei a colossal indigestão de 10 dias consecutivos a almoçar cachorros quentes e Coca-Cola.
Dificilmente esquecerei as caminhadas quilométricas entre piscina e estádio, agincanadas pelas muitas barreiras de metal que nunca nos deixavam esquecer que foram os gregos os inventores do labirinto.
Dificilmente esquecerei o cansaço pelo abuso de trabalho e as quatro ou cinco horas mal dormidas por noite.
Dificilmente esquecerei o choque inicial de ver pessoas sem braços, sem pernas, sem olhos, competirem e superarem. A si, aos outros, ao mundo, e à minha pena.
Dificilmente esquecerei o aperto na garganta ao ver João Martins debater-se nervosamente na sua pprimeira prova paralímpica, quase que afogando-se em nervos e água.
Dificilmente também esquecerei o outro aperto e a lágrima que não me dei ao trabalho de evitar quando ele ganhou a primeira medalha. Nem tão pouco esquecerei a leve calma que me invadiu quando desci à zona mista para o cumprimentar.
Dificilmente esquecerei os doces olhos de Susana Barroso e a revolta por ter aquele sorriso belo e triste cada vez mais ligado a uma cadeira de rodas.
Dificilmente esquecerei a força, a alegria e o respeito de Carlos Lopes, um atleta invisual primo do célebre maratonista mas muito mais campeão, pela vida, e pela personalidade e desportivismo.
Impossível será esquecer a paixão com que eu e os meus colegas da Comunicação Social nos entregámos a este evento e aos atletas, técnicos, dirigentes e outros protagonistas.
A todos eles levanto uma "Mythos" dourada, amarga e gelada. Um grande bem haja. Em Atenas fomos todos campeões.
Para a história, este evento vai ficar como os XII Jogos Paralímpicos. Para mim, todavia, será bem mais que isso, foi um abrir de olhos.
Dificilmente esquecerei a incompetência dos voluntários que supostamente deveriam ajudar o público e os jornalistas. A sua obtusa teimosia em cumprir ordens até ao paroxismo insensato e ilógico serve como uma lição do que acontece a quem segue ordens e impõe regras sem a clarividência para as contornar que é como quem diz, afinal, sem capacidade para as fazer exercer de maneira inteligente.
Dificilmente esquecerei a colossal indigestão de 10 dias consecutivos a almoçar cachorros quentes e Coca-Cola.
Dificilmente esquecerei as caminhadas quilométricas entre piscina e estádio, agincanadas pelas muitas barreiras de metal que nunca nos deixavam esquecer que foram os gregos os inventores do labirinto.
Dificilmente esquecerei o cansaço pelo abuso de trabalho e as quatro ou cinco horas mal dormidas por noite.
Dificilmente esquecerei o choque inicial de ver pessoas sem braços, sem pernas, sem olhos, competirem e superarem. A si, aos outros, ao mundo, e à minha pena.
Dificilmente esquecerei o aperto na garganta ao ver João Martins debater-se nervosamente na sua pprimeira prova paralímpica, quase que afogando-se em nervos e água.
Dificilmente também esquecerei o outro aperto e a lágrima que não me dei ao trabalho de evitar quando ele ganhou a primeira medalha. Nem tão pouco esquecerei a leve calma que me invadiu quando desci à zona mista para o cumprimentar.
Dificilmente esquecerei os doces olhos de Susana Barroso e a revolta por ter aquele sorriso belo e triste cada vez mais ligado a uma cadeira de rodas.
Dificilmente esquecerei a força, a alegria e o respeito de Carlos Lopes, um atleta invisual primo do célebre maratonista mas muito mais campeão, pela vida, e pela personalidade e desportivismo.
Impossível será esquecer a paixão com que eu e os meus colegas da Comunicação Social nos entregámos a este evento e aos atletas, técnicos, dirigentes e outros protagonistas.
A todos eles levanto uma "Mythos" dourada, amarga e gelada. Um grande bem haja. Em Atenas fomos todos campeões.
quarta-feira, setembro 15, 2004
Antecâmara
Amigos, não ando a escrever nada por duas singelas razões: falta de tempo e falta de clarividência. A bola de cristal pouco transparento que carrego em cima dos ombros anda um pouco confusa. Muita coisa ao mesmo tempo entope o disco rígido. É a antecâmara da confusão. Daqui a dois dias estou novemante de partida. São duas semanas para arejar o sotão.
Vou ter saudades.
Vou ter saudades.
quarta-feira, setembro 08, 2004
Mudanças
Finalmente, uma pausa. Não, não vou comer um daqueles chocolates, descansem.
Conforme se percebe pelas mal esgalhadas linhas que espreitam por baixo deste post, fiz trinta anos aqui há dias. Desde aí, as coisas têm mudado a um ritmo avassalador. Estou a braços com a missão portuguesa aos paralímpicos para o jornal e para a revista DEZ. Um "dois em um" que ao invés de me deixar o cabelo suave e brilhante tem-me dado cabo da vida. Trabalho, trabalho, trabalho.
Entretanto, e porque o sonho pula mesmo e avança, já me entregaram uma resma de chaves, sendo que uma delas abre as portas para a minha casa nova e as portas para uma vida nova também.
Uma certa amiga minha admitiu que tinha algum receio que depois de estar instalado iria abrir os olhos e "ainda sentir tristeza". Na verdade, ainda nem consigo definir seja o que for; as emoções são tantas que ainda nem as consegui digerir. Mas mesmo assim, de quando em quando, de entre a torrente um ou outro salmão salta por entre a água espumosa desta cascata de emoções. Quando virei a chave na porta pela primeira vez, quando entrei na minha cama, quando fechei os olhos no silêncio branco do meu sofá.
Tanta coisa está a mudar. Esperemos que eu também seja arrastado na corrente. É isso que espero há muito tempo.
Conforme se percebe pelas mal esgalhadas linhas que espreitam por baixo deste post, fiz trinta anos aqui há dias. Desde aí, as coisas têm mudado a um ritmo avassalador. Estou a braços com a missão portuguesa aos paralímpicos para o jornal e para a revista DEZ. Um "dois em um" que ao invés de me deixar o cabelo suave e brilhante tem-me dado cabo da vida. Trabalho, trabalho, trabalho.
Entretanto, e porque o sonho pula mesmo e avança, já me entregaram uma resma de chaves, sendo que uma delas abre as portas para a minha casa nova e as portas para uma vida nova também.
Uma certa amiga minha admitiu que tinha algum receio que depois de estar instalado iria abrir os olhos e "ainda sentir tristeza". Na verdade, ainda nem consigo definir seja o que for; as emoções são tantas que ainda nem as consegui digerir. Mas mesmo assim, de quando em quando, de entre a torrente um ou outro salmão salta por entre a água espumosa desta cascata de emoções. Quando virei a chave na porta pela primeira vez, quando entrei na minha cama, quando fechei os olhos no silêncio branco do meu sofá.
Tanta coisa está a mudar. Esperemos que eu também seja arrastado na corrente. É isso que espero há muito tempo.
domingo, agosto 29, 2004
Dobrar o cabo
Amanhã completo trinta translacções a bordo da nave Terra. O tempo tem variadíssimas dimensões, tantas quantas as percepções dos milhões de seres que dele têm alguma consciência.
Eu sou mais um. E para mim foi rápido.
Trinta anos. Bolas, é esmagador. Três décadas de amor, desgosto, algum ódio, alguma paixão, alguns medos, algumas alegrias, algumas amizades, algumas desilusões, alguma poesia, alguma aventura, muitas surpresas. Sempre.
Quando dobro este cabo, sinto que na outra costa, a que, quer queira quer não, deixo para trás, fica muita gente. Alguns queridos companheiros que ficaram na praia, uns que chegaram ao seu porto, outros que nem por isso. Um pouco de mim ficou com todos eles. Mas, mais importante, um pouco deles segue comigo nesta viagem. Para a outra costa, para o outro lado da lua, o lado iluminado.
Navego sem carta, confiando somente na orientação dos astros que são também os companheiros de viagem. Uns mais brilhantes que os outros, mas todos com o seu lugar no novo céu que agora despe a película nebulosa da madrugada.
Está uma manhã soalheira. Abro as portas e janelas do peito ao ar salgado. Já se vê a terra nova.
Eu sou mais um. E para mim foi rápido.
Trinta anos. Bolas, é esmagador. Três décadas de amor, desgosto, algum ódio, alguma paixão, alguns medos, algumas alegrias, algumas amizades, algumas desilusões, alguma poesia, alguma aventura, muitas surpresas. Sempre.
Quando dobro este cabo, sinto que na outra costa, a que, quer queira quer não, deixo para trás, fica muita gente. Alguns queridos companheiros que ficaram na praia, uns que chegaram ao seu porto, outros que nem por isso. Um pouco de mim ficou com todos eles. Mas, mais importante, um pouco deles segue comigo nesta viagem. Para a outra costa, para o outro lado da lua, o lado iluminado.
Navego sem carta, confiando somente na orientação dos astros que são também os companheiros de viagem. Uns mais brilhantes que os outros, mas todos com o seu lugar no novo céu que agora despe a película nebulosa da madrugada.
Está uma manhã soalheira. Abro as portas e janelas do peito ao ar salgado. Já se vê a terra nova.
sábado, agosto 28, 2004
Abortem este governo
Hoje é um dia especial para mim, um dia de luto e reflexão. Como tal, nem sequer vinha aqui escrever nada. Mas (e há sempre um "mas"), a indignação e o nojo obrigam-me a vir aqui vomitar um protesto contra a corja de nazis incompetentes que temos a governar-nos.
Estes senhores proibiram a entrada do "Borndeep", o barco da associação "Women on Waves", em Portugal.
Este navio, como sabem, é uma espécie de hospital ambulante que procede a abortos seguros e medicamente assistidos em águas internacionais, ajudando mulheres de países com legislações medievais como o nosso, que criminalizam o aborto.
Esclareço um ponto: Não sou a favor do aborto. Mas ninguém é a favor do aborto. Sou, isso sim, a favor da despenalização do aborto. E digo isto porque a franja da sociedade portuguesa que estigmatiza as mulheres que abortam gosta dessa confusão. "Somos a favor da vida e contra o aborto", dizem. Mas quem não é? E são a favor da vida das mulheres que todos os anos morrem em consequência de abortos clandestinos? E quantas das senhoras "de bem" que dizem isto não foram já a Londres ou Madrid "de férias"?
Enfim, à parte desta discussão que não é nova, está a proibição da entrada em Portugal de uma embarcação com pavilhão de um país da União Europeia. Os argumentos? Saúde pública (que a lei que criminaliza o aborto viola ao enviar muitas mulheres para apartamentos e caves sem condições para executar abortos clandestinos) e a ordem pública, pois temiam problemas e confrontos à chegada do barco a portos nacionais.
Essa lógica da ordem pública deve ser a mesma que durante quase meio-século proibiu manifestações em Portugal.
Ah, e infrigem directivas da União Europeia. Pelos vistos, os criminosos são os senhores Portas e Lopes.
Afinal menti. Sou a favor do aborto. Por favor, abortem este governo.
Estes senhores proibiram a entrada do "Borndeep", o barco da associação "Women on Waves", em Portugal.
Este navio, como sabem, é uma espécie de hospital ambulante que procede a abortos seguros e medicamente assistidos em águas internacionais, ajudando mulheres de países com legislações medievais como o nosso, que criminalizam o aborto.
Esclareço um ponto: Não sou a favor do aborto. Mas ninguém é a favor do aborto. Sou, isso sim, a favor da despenalização do aborto. E digo isto porque a franja da sociedade portuguesa que estigmatiza as mulheres que abortam gosta dessa confusão. "Somos a favor da vida e contra o aborto", dizem. Mas quem não é? E são a favor da vida das mulheres que todos os anos morrem em consequência de abortos clandestinos? E quantas das senhoras "de bem" que dizem isto não foram já a Londres ou Madrid "de férias"?
Enfim, à parte desta discussão que não é nova, está a proibição da entrada em Portugal de uma embarcação com pavilhão de um país da União Europeia. Os argumentos? Saúde pública (que a lei que criminaliza o aborto viola ao enviar muitas mulheres para apartamentos e caves sem condições para executar abortos clandestinos) e a ordem pública, pois temiam problemas e confrontos à chegada do barco a portos nacionais.
Essa lógica da ordem pública deve ser a mesma que durante quase meio-século proibiu manifestações em Portugal.
Ah, e infrigem directivas da União Europeia. Pelos vistos, os criminosos são os senhores Portas e Lopes.
Afinal menti. Sou a favor do aborto. Por favor, abortem este governo.
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