sexta-feira, novembro 28, 2008

I am a Rock

Começa assim o tema com o mesmo nome da autoria de Simon and Garfunkel.

As 10 anos, quando comecei a preparatória, não podia ser esse o meu lema. Era jovem e ainda não era rocha, era lava: quente, borbulhante sangue da terra. Nessa altura, o segundo verso seria mais apropriado: "I am an Island".

Porque foi mais ou menos assim que me descrevi quando me pediram, num qualquer teste vocacional ou psicotécnico, que descrevesse o que gostaria para o meu futuro. Aos 10 anos, algumas linhas depois de anunciar que ambicionava ser paleontólogo ou arqueólogo, expliquei que gostaria de viver numa ilha deserta.

Não é de admirar que a preocupada directora de turma tenha vindo falar comigo. Lembro-me disto como a primeira vez em que, olhando para aquele papel, tive de olhar também para dentro de mim e materializar o que queria, ou quem eu era.

Não, não era uma rocha, nem tão pouco uma ilha. Mas queria sê-lo. E ao mesmo tempo, queria sair da solidão em que me tinham encerrado, em que eu me tinha encerrado. Vivia num paradoxo entre querer estar sozinho e, ao mesmo tempo, querer, precisar, desesperadamente, ser amado.

Queria ser uma rocha ou uma ilha porque, como conclui Paul Simon nos últimos versos da canção, "and a rock feels no pain, and an island never cries."

Neste momento, estou a escrever estas linhas e acabar de beber o meu café. A seguir parto para Peniche para gastar algumas horas de luz da minha folga a surfar antes que chegue o maremoto que ameaça atingir a nossa costa este fim-de-semana.
As horas antes da tempestade. Às vezes parece que sempre estou à espera de uma tempestade. Para a enfrentar. Como uma rocha.

quarta-feira, novembro 26, 2008

terça-feira, novembro 18, 2008

A verdade por detrás da mentira

E eis, sem efeitos especiais, como é que eu parti a cabeça...

E o animal sou eu?

http://www.animalssavetheplanet.com

sábado, novembro 15, 2008

Uma pequena jóia

Um novo significado para "herói acidental"

É mais ou menos isto, mas muito mais do que isto

Roubei este anúncio ao blog "Ondas" porque, antes de mais nada, é um anúncio brilhante, e depois porque traduz...um bocadinho, o que se sente.


sexta-feira, novembro 14, 2008

Sol de inverno

Para afugentar a incerteza e a depressão, nada como a luz e o calor deste sol de inverno.

quarta-feira, novembro 05, 2008

terça-feira, novembro 04, 2008

Esperança

Obama pode ser bom de mais para ser verdade. Parte de mim desconfia, é certo. Mas o que ele representa não é dúbio nem falso. A esperança pode ser defraudada mas isso não é motivo para desistir da esperança. Porque o que resta é o desespero.

Há 8 anos dei por mim a tentar explicar a pessoas que não tinham a mínima noção do impacto que as eleições nos EUA têm nas nossas vidas, que "aquele nazi" não podia ganhar. Que caso isso acontecesse, não tinha sequer noção das consequências.

O gajo ganhou e se, nalguns aspectos, as consequências não foram tão desastrosas...bem, pensando bem, ate foram, só que de maneira diferente. O mundo mudou muito em 8 anos, mas numa coisa eu não me enganei: "aquele nazi" (devia ter dito "aquele imbecil") não devia ter ganho.

Esperemos que agora eu ainda esteja a torcer pelo lado certo (eu acredito que sim) e que ele ganhe.

Porque eu acredito.

segunda-feira, novembro 03, 2008

terça-feira, outubro 28, 2008

Imposto




O post anterior foi estranhamente premonitório. Depois do cagaço que apanhei ao ver-me sozinho num mar além dos meus limites, eis que voltei ao local do crime e percebi, dolorosamente, que o problema não eram os meus limites mas uma má conjugação de factores: uma maré demasiado cheia para fazer umas ondas decentes, o primeiro dia de um swell invernoso e a inquietação culpada de estar a violar uma regra básica dos desportos de mar: "Não entrarás na água sozinho".

Depois de alguns dias a entrar nesse mesmo "spot" com companhia (de amigos e, não só, já que no fim-de-semana vi muito mais gente do que seria desejável..) eis que aconteceu um dia memorável: arranquei um par de manobras com as quais ando a lutar há algum tempo, e embora ainda não saiam fluidas e nem sequer sempre saiam quando quero, desta vez, saíram.

Mas, uma coisa que aprendemos desde cedo é que tudo tem um preço ou, como dizem os outros, "there is no such thing as a free lunch". A maré encheu muito, os fundos naquela praia estavam a fazer um quebra-coco violento e eis que, tentando terminar uma onda demasiado perto da areia... bem, digamos que a minha cabeça se ia abrindo como um melão. Hoje estou com a cara mais inchada e negra do que a foto que acompanha este post documenta, dói-me o pescoço e as costas que é uma coisa parva, mas sabem que mais? O Inverno está aí e eu já passei para o outro lado do medo: estou preparado. Basta apenas dar um pouco de sangue ao mar. Chamemos-lhe imposto.

sexta-feira, outubro 24, 2008

Medo






O Inverno chegou. E o Inverno traz as boas ondas. Mas também traz as ondas demasiado grandes. E traz o medo.

Não gosto de me considerar uma pessoa medrosa, mas estou a chegar à conclusão que mais do que medroso, estou a tornar-me um cobarde.

Não tenho medo de estar com a cara a centímetros de uma serpente cuja dentada me pode matar em 2 horas e fotografá-la, mas tenho medo de me meter num avião comercial.

Não tenho medo de nadar no Nilo onde poderão haver crocodilos mas tenho medo de estar no mar com ondas de metrão (o que para o meu nível de experiência já devia ser mais ou menos tranquilo).

Então o que me mete medo? Já tentei descrever várias vezes como é levar com uma onda pesada. Braços e pernas para cada lado, como se fossem saltar fora, cambalhotas, sensação de descontrolo e falta de ar. Consigo nadar cerca de minuto e meio debaixo de água. Não é mau, tendo em conta que nunca treinei natação. E apresenta alguma garantia de sobrevivência já que uma onda de até dois metros obriga-te a estar menos que isso lá em baixo.

O problema é o pânico, o medo irracional e primário que nos rouba o ar num instante.

Sempre pensei que fosse medo de morrer. O acidente do meu irmão acordou-me para a minha mortalidade demasiado cedo. Mas agora começo a pensar que é outra coisa. É medo da falta de controlo. Medo de não dominar uma situação ou de não ter as ferramentas para a controlar.

No mar, tento apetrechar-me com o melhor material possível, sempre à procura da prancha mais indicada, do fato mais quente. Mas como diz o meu amigo e mestre de ondas F, o dinheiro não compra talento, habilidade nem "go for it" que é uma forma sofisticada e surfística de dizer...tomates.

Conheço muito boa gente que só surfa meio-metro e está muito satsifeita com isso. Mas eu quero mais. Quero sempre mais. Ambição desmedida e medo. Como é que convivem?

Mal. E essa é a minha cruz.

domingo, outubro 12, 2008

Welcome to the jungle

Para os meus amigos que estranham a miha prolongada ausência do espectro visível (e audível), sinto-me na obrigaçao de explicar: Estou na Costa Rica, sem telemóvel, já que parece que o meu carregador nao se dá bem com os adaptadores de 100 volts que tem de se usar por aqui. Nao que fizesse diferença, já que tenho andado por sítios em que as únicas redes sao mesmo as mosquiteiras. Assim, tenho falado muito com os macacos uivadores, os tucanos, os crocodilos e jacarés, quetzais, tarântulas, serpentes e nao sei que mais. Ainda tou para ver um jaguar, mas lá iremos...

Entretanto, só queria avisar que estou vivo mesmo que num computador latino americano em que os únicos "tils" vêm numa tecla com n. Uma coisa assim: "ñ". Isto só para os engraçados que possam ter a mania de me corrigir a ortogafia :).

Volto daqui a quatro dias.

PS: Garcia, como estao as ondas? O único sítio com mar em que estive estava infestado de tubaroes e crocodilos à caça. Estamos na época da desova da tartaruga verde e parece que os rapazes às vezes enganam-se e mordiscam uns turistas. E tendo em conta que já vi crocodilos com 3 metros...

A seguir sigo para o lado do Pacífico. Pode ser que tenha sorte.

segunda-feira, setembro 29, 2008

sexta-feira, setembro 26, 2008

É amanhã

Depois de não sei quantos ameaços, amanhã bem cedo vou estrear-me, finalmente, na Praia do Norte.

E que Deus me ajude...



sábado, setembro 13, 2008

Regresso




Acabei de escrever as penúltimas linhas desta jornada pelos países de Leste. Parto com o doce sabor da vitória nos lábios, mas também o da saudade. Foram 10 dias que me pareceram um mês, repartidos por 3 países. Uma aventura para recordar a juntar a outras que tenho acumulado ao longo destes 10 anos de jornalismo.

Tenho saudades do sol e do sal, da casa e do amor. Amanhã, se Deus quiser, estarei a aterrar em Lisboa. Seria bom que todas as distâncias fossem tão curtas como aquelas que separam Tallin e Lisboa, Estónia e Portugal, a Terra e o Sol.

Porque há casas às quais nunca mais se pode regressar. Dessas apenas podemos transportar a memória do seu calor aqui dentro, neste edifício de osso e músculo e memória.

Até já

quarta-feira, setembro 10, 2008

Contrastes




Bem, o avião lá aterrou e, agora, na véspera da partida para a Estónia, depois de três dias de Letónia, posso dizer que nada poderia ser mais diferente da Macedónia do que isto.

Esperava encontrar um país muito marcado pelos 50 anos de ocupação soviética mas o que encontrei foi mais um país escandinavo do que algo saído de trás da cortina de ferro.

Minimalista, limpo, organizado e até estranhamente rico. Parece que logo após a independência estes senhores registaram anos com taxas de crescimento na ordem dos 10%, o que é de loucos num país com poucos recursos naturais e uma indústria pouco significativa.

Conseguiram este milagre com um modelo misto entre o socialismo e o capitalismo. Qualquer coisa como um capitalismo controlado pelo Estado. Talvez por ser um país muito pequeno, a coisa funionou. Se bem que agora, com uma inflacção na ordem dos 15% e a subida das taxas de juro, o optimismo que encheu as ruas de Riga com carros de luxo abrandou substancialmente.

Talvez por isso um estudo recente de uma universidade norte-americana tenha colocado a Letónia como um dos países mais infelizes do Mundo.

Quanto às pessoas, os 30% de russos e a maioria letã mais os cruzammentos de gentes e raças, resultaram num produto interessante.

As mulheres são de uma beleza nórdica mas com um toque eslavo e, por vezes algo asiático que lhes confere uma graça muito própria.`Há alturas do dia no centro de Riga em que parece termos sido transportados para uma passerelle qualquer: altas, louras, de olhos claros e rasgados, vestidas`com os últimos trapos da moda e botas de cano alto a salientar as pernas longilíneas, bem... podemos dizer que o fisioterapeuta da comitiva anda a ser muito solicitado para resolver torcicolos...

A cidade em si é também muito bonita. Rica em arquitectura medieval e manifestações de "art noveau", a paisagem urbana é uma sinfonia harmoniosa e rica em que as torres das igrejas funcionam como os instrumentos mais sonantes.

Depois, existe muita música. As melhores escolas de música e dança de Riga produziram nomes como o bailarino Barashnikov entre outros.

Riga vai deixar-me alguma saudade. Mas, aqui para nós, não era cidade para mim. Tenho saudades do peixe grelhado, do sal do Atlântico e, já agora, de mulheres com menos de metro e oitenta...

sexta-feira, setembro 05, 2008

Onde estás, Alexandre?




Macedónia. O nome faz ressoar memórias dos livros de História. Pátria de Filipe e do célebre rebento: Alexandre. Um jovem rebelde e ambicioso sanguinário que ficou para a eternidade como o Grande.

Estes macedónios, filhos da antiga Jugoslávia nada têm a ver com o povo grego que deu à luz Alexandre. Estes são uma mistura de albaneses, kosovares, ciganos, turcos e outras etnias mais obscuras.

A paisagem urbana mais parecida que já vi com isto foi em Cabo Verde. Basta substituir o ocre luminoso e árido por um cinza sujo. É, de resto, o mesmo cinzento que me impressionou em Pozeravac, há uns anos. Falo de uma terrazinha sinistra na Sérvia. O berço de Slobodan Milosevic, imagine-se. Pois, mas este cinzento é menos puro e sinistro. É só sujo.

Na verdade esta Macedónia é um pouco uma fraude. Uma terra de gente sem terra que procura na figura do conquistador uma figura que os agregue, como Tito fez com a Jugoslávia. Não sei se será possível unir esta gente. Aliás, não sei se isto é uma nação. Não, são muitas enroladas numa bandeira e num nome: Alexandre.

Esta é a minha segunda noite aqui em Skopje e agradeço o facto de amanhã ser a última. Depois seguem-se Riga e Talin´. Letónia e Estónia, respectivamente. Dizem que Riga é uma cidade bonita: o património é rico w as mulheres acariciam a vista...mas também dizem que é a capital europeia dos homicídios.

Não me parece que alguém me queira tratar da saúde. Na verdade, medo, medo, só da porcaria dos aviões. É que quanto mais voo mais sinto que ando a desafiar as estatísticas. A ver vamos...

Bem, estou a cair de sono. Uma página já lá está e a cerveja macedónia já me pesa no estômago. Já não tenho entranhas para a bebida. Ou para quase nada.

Vou dormir. Ou tentar. A porcaria do pretenso ar condicionado faz um barulho comparável a uma velha asmática. Bem, pelo menos, não me sinto só.

Boa noite, a próxima entrada será na Letónia. Assim o avião o permita.

quarta-feira, agosto 27, 2008

Super





O caminho desde o carro até à água é longo. Não importa que sejam 500 metros ou 5 metros. O fato vai enrolado e o peito esbranquiçado à mostra, realçando as linhas bronzeadas nas mãos e no pescoço.

Os ignorantes chamam-lhe bronze de camionista ou outras coisas que tal, mas a verdade é que estas marcas são a inveja dos iniciados que não dispõem desta fortuna de mais de de trezentas manhãs livres por ano.

Sim, o fato vai aberto porque é verão mas o caminho é tão longo... Nesta altura do ano em que as ondas são tão escassas, um dia como este, com o vento e a ondulação certas para fabricar aqueles tubos pesados e ocos é uma raridade que roça a miragem. Mas estes não enganam, se não os nativos não teriam baptizado este local de "Supertubos".

A única coisa ilusória aqui é mesmo o tamanho da onda. Se estiver perfeito, do parque de estacionamento parece sempre mais pequena e dócil. Ainda me lembro da primeira vez que ali entrei. Tenrinho, ainda mal sabia apanhar umas ondas na Costa da Caparica, olhei para o mar e pareceu-me "acessível". Esfomeado de mar, fui a correr equipar-me e mal dei por mim, estava a entrar.

Devia ter-me apercebido que algo estava errado assim que a primeira espuma me bateu no corpo. Não estava preparado para o impacto e quase caí para trás. Mesmo assim avancei, com a confiança abalada, é certo, mas avancei.

A remada até ao pico não foi difícil. Sentei-me na prancha e esperei. E, de repente, a suspeita do disparate atingiu-me com muito mais força que a primeira espuma: um monstruoso animal espreguiçou-se, o gigantesco lombo a ondular na minha direcção. O horizonte subiu de uma vez e aquela onda rolo compressor aproximava-se.

Ainda olhei, meio incrédulo por um segundo ou dois e depois comecei a remar a toda a velocidade para passar por cima do que aí vinha antes que o animal abrisse a boca...passei.

Tentando não entrar em pânico, tão preocupado em não deixar transparecer que era um puto metido num campeonato de homens como em, pura e simplesmente, não sair dali afogado, deixei passar mais alguns daqueles grandes espamos de água, esperando pelo fim dos set e de uma providencial ondinha que me tirasse dali.

Escolhi uma ponta de um triângulo de água e tentei apanhar a onda. Mais uma surpresa: o que na Costa são rampas gordas e generosas, ali são substituídas por buracos que transformam mesmo a onda mais pequena numa parede alta e íngreme.

Quase por reflexo puxei tudo para trás: prancha, corpo e alma.

Ainda mal refeito da surpresa, olho para trás e ia ficando sem ar: o horizonte voltava a subir mais uns palmos e eu estava em plena zona de impacto, apanhado a meio caminho entre a areia e o pico. Comecei a remar que nem um condenado. E nunca esta expressão caiu tão bem.

A parede de água verde-acinzentada caiu em cima de mim com uma força como nunca tinha experimentado. Um cruzamento de qualquer coisa como ser atropelado por um carro a alta-velocidade e o ser lançado numa máquina de lavar roupa.

As pernas passaram-me por cima da cabeça, o braço esquerdo não o sentia e o direito parecia estar a ser arrancado pelo chop que me unia à prancha. Passaram-se alguns segundos que me pareceram uma eternidade até respirar.

Levantei a cabeça daquele turbilhão apenas para ver outro animal dar o bote. Mais uns segundos de agonia e falta de ar para, milagrosamente perceber que tinha sido arrastado para a beira do areal.

O alívio...e a vergonha. Ainda meio torto e desequilibrado, marchei dali para fora tentando manter a compustura diante dos poucos inquilinos acidentais do areal invernoso. Percebo que ainda não estava maduro para uma onda de reputação mundial. Rápida, técnica, exigente, pesada são alguns dos adjectivos que ouvi mais tarde a propósito da onda dos Super, sempre invocada com um misto de entusiasmo e respeito.

Quase dois anos depois, com mais alguns sustos e outras tantas pequenas glórias no currículo voltei ao campo de batalha, mas isso é história para outro dia...

terça-feira, agosto 26, 2008

Amor cão




Não há ternura como a de os olhos de uma mãe. A não ser a dos olhos de um cão.

Da Argentina chegou-me a história de uma cadela chamada "China", transformada em improvável heroína ao salvar uma criança recém-nascida, abandonada por uma assustada mãe de 14 anos.

A criança foi recuperada pelo dono da cadela, que a encontrou deitada junto das crias do animal, perfeitamente incólume e ainda enrolada em trapos. Ao que tudo indica, a cadela transportou a criança cerca de 50 metros, desde o local onde foi abandonada até à sua casota, onde a depositou, junto de si, como se fosse da sua ninhada, mantendo-a quente e seca.

A mãe entretanto apareceu e já se encontra reunida com o bebé, que a imprensa argentina chama "bebé milagre".

Às vezes as mãos de Deus podem ser a boca de uma cadela.