sábado, julho 21, 2007

Sobreviver


O último grande cagaço da minha vida foram três. Não, não é engano, foram três ondas de set em cima dos cornos, na Praia Grande. A última das quais fez-me pensar que aquele era "o dia". Bem, desde aí, nunca mais consegui entrar na Praia Grande sem stressar. Mais, nunca mais consegui surfar lá como deve ser. E isto, num local que já me deu grande prazer em cima da prancha.


Pois bem, amanhã vou tentar novamente. Vai entrar um swell novo e espero que o vento ajude para a coisa estar ordenada. Se não, bem...a gente se vê.

segunda-feira, julho 16, 2007

Fraco


Há dias assim, em que o mundo parece demasiado pesado.

sexta-feira, junho 22, 2007

Mini-maxi-obsessão




Confesso: estou obcecado. Mas não faz mal, já está encomendado. Para gozar imensamente e sem preocupações. Mas só por alturas do meu aniversário. Uma bela prenda para mim próprio.

segunda-feira, junho 04, 2007

Voragem


E que fazer se um dia acordar com uma incontrolável necessidade de devorar o Mundo?

Dicionário de Sinónimos


Alegria: Ilusão; delírio; confusão; bebedeira

Beleza: Poesia; harmonia, licor; Verdade; Deus (o único); tu

(...)

Vida: Ruptura; desordem; vinho; oceano; pulsão; conflito

(...)

(...ver versão integral publicada pela editora "Já vos atendo um dia destes quando me reformar")

domingo, maio 27, 2007

É pá, porque sim


Gracias a la vida, que me ha dado tanto

Me dió dos luceros que cuando los abro

Perfecto distingo lo negro del blanco

Y en alto cielo su fondo estrellado

Y en las multitudes el hombre [mujer] que yo amo

Gracias a la vida, que me ha dado tanto

Me ha dado el oído, que en todo su ancho

Traba noche y dia grillos y canarios

Martirios, turbinas, ladridos, chubascos

Y la voz tan tierna de mi bien amado

Gracias a la vida, que me ha dado tanto

Me ha dado el sonido y el abecedario

Con él las palabras que pienso y declaro

Madre, amigo, hermano y luz alumbrando

La ruta del alma del que estoy amando

Gracias a la vida,que me ha dado tanto

Me ha dado la marcha de mis pies cansados

Con ellos anduve ciudades y charcos

Playas y desiertos, montañas y llanos

Y la casa tuya, tu calle y tu patio

Gracias a la vida, que me ha dado tanto

Me dió el corazón que agita su marco

Cuando miro el fruto del cerebro humano

Cuando miro el bueno tan lejos del malo

Cuando miro el fondo de tus ojos claros

Gracias a la vida, que me ha dado tanto

Me ha dado la risa y me ha dado el llanto

Así yo distingo dicha de quebranto

Los dos materiales que forman mi canto

Y el canto de ustedes que es el mismo canto

Y el canto de todos que es mi propio canto

Gracias a la vida

Violeta Parra, para ouvir.


E´pá, porque a vida pode ser uma lição dura, mas a alternativa é muito pior


É pá...porque sim

sexta-feira, maio 04, 2007

Eles comem tudo


Está decidido. Para viver neste país só se pode ser pobre ou estupidamente rico. Ao contrário do que se passa em países civilizados, qualquer meio termo é suprimido à força de impostos e mais impostos.


Comprei a minha casa há quase 3 anos. Não beneficiei da isenção de pagamento à contribuição autáquica e tenho vindo a pagar religiosamente. Eis que agora sou surprendido por uma carta das finanças que diz qualquer coisa como "o valor declarado da sua casa é inferior à avaliação que entretanto efectuámos, por isso vai ter de pagar mais €€€€ de IMI (cont. autárquica)".


Ora, quem faz essa avaliação? A Câmara. Quer dizer, o interessado é que diz quanto vale a minha casa e quantop é que çhes devo pagar.


Como se já não bastasse o IRS, os descontos para segurança social e mais não sei o quê em troca de nada. Sim, porque para sermoms devidamente atendidos num hospital temos de ir para um privado. Dentista? Pagas! Tudo se paga, esquece lá as centenas ouu milhares de contos em impostos.


Na minha terra há uma palavra para isto mas vou aligeirá-la: VAMPIROS DE MERDA!


Em suma, para viver neste país não podes ter nada, tens de ser miserável porque se não vêm os senhorees do Estado roubar-te.


PS: Para esses senhores, uma dica: as minhas carótidas estão disponíveis, mas sejam gentis.

segunda-feira, abril 30, 2007

Revolução geriártrica


Há coisas que me tiram do sério. Uma delas é que me chamem velho. Não que não haja uma certa razão nessa tese, ou não fosse esta tendinite no ombro a gritar-me todos os momentos em que distraidamente tento mexer o braço esquerdo, que estou, de facto, além do meu auge.

Agora quando me dizem que sou velho porque reclamo com o "status quo", porque estou insatisfeito com a vida, porque quero mais e melhor para mim e para o meu país, que diabo, para o Mundo! Quando isso é ser velho...

Gostaria de saber quem é o mais velho: o velho que gostaria de mudar o mundo ou o jovem que, agarrado a um bidão de Coca-Cola, acha que está tudo muito bom desde que não lhe tirem as discotecas, a música de algodão doce e o açucarado "status quo".

Viva La Revolution! Diz que é um conceito idoso.

sexta-feira, abril 27, 2007

Supertubo para Deus


Finalmente! Após duas semanas de trabalho que cabem perfeitamente no top das piores da minha carreira, com os serviços mais merdosos que se pode imaginar, eis que estaciono o carro em Supertubos. Uma rápida olhadela para o mar, um sms rápido para o meu amigo Filipe Santos, enquanto enfio o fato e agarro na prancha. E siga para o areal que se faz tarde.


Talvez influenciado pela consulta ao Beachcam.com ou talvez cego pela ânsia de lavar a alma em água salgada, nem olho bem para o mar, mas reparo que não estava o meio-metro que o site anunciava. Ainda bem, estou a precisar de um desafio, penso. Calço os barbatos e atiro-me à água.


Estavam meia dúzia de malucos na confusão, quase todos bodyboarders e de grande nível, diga-se. Um par de ARS's e outro tanto de tubos bem encaixados convencem-me disso. É capaz de haver uns pros na água...


O primeiro contacto com a rebentação começa a sugerir que fiz merda. A coisa hoje está casca grossa. Inconscientemente, meio às escondidas, benzo-me e faço uma oração silenciosa. Nada como o mar para trazer ao de cima a educação religiosa de um tipo, mesmo se for do tipo informal, como a minha.


Não há de ser nada...começo a furar as ondas a caminho do "line up" e a sensação de estar a jogar fora do meu campeonato adensa-se: aquilo que ali vem não é, definitivamente meio-metro. Ou isso ou aquele surfista cuja cabeça é bem ultrapassada pelo "lip" da onda é anão. Hmmm...não, não é.


Isso e a sensação de estar metido numa máquina de lavar roupa com um programa puxado, começam a causar-me algum frio na espinha. E não é da água, que o fato é bom.


Mais uma estalada e sou enrolado para trás. Bolas, esta merda tem força! Mais um caldo e a coisa torna-se clara: é melhor saíres e procurares um spoot mais user friendly. Esta merda são ondas de metro e meio pesadíssimas e que rebentam em cima de ti como uma parede de cimento. Começo a pensar se o Molhe Leste, ali ao lado, não estará mais convidativo.


Bem, mas tenho de fazer uma onda para sair. Espero por uma boa, sempre furando as paredes que aí vêm a velocidade parva, e atiro-me à ponta de uma direita surfável. Surfável? O animal pega em mim, atira-me lá para cima e mostra-me o drop à minha frente: um buraco de dois metros de vazio. Merda! Puxo tudo para trás mas era tarde de mais. O "lip" empurra-me para baixo com toda a força, e eu vou...como se tivesse outro remédio.


É a sensação já familiar de ser um boneco de trapos no meio da onda, mas decuplicada. "Vou morrer", penso enquanto uma mão invisível me prende lá em baixo, no verde. Finalmente venho ao de cima, agarro a prancha, olho para o mar e...por alguma coisa lhes chamam "set" de ondas: Merda! vem aí outra! agarro-me à prancha com unhas e dentes e espero que a puta não me caia nas costas. Quando dou por isso, uma bomba explode atrás de mim e sou levado num mar de espuma para a frente, para a praia.


Saio ofegante, a rir à parva. Descarga de adrenalina ou a pura, bruta alegria de estar vivo. Não sei. Descalço as barbatanas e caminho para o carro. O Filipe acaba de chegar. Olha para o mar e insulta-me. "És louco, aquilo está tudo a fechar...e tá enorme!"


Fomos para o molho Leste, aí sim, com os tubos sem saída a serem substituídos por umas rampas mais negociáveis. Horas mais tarde e com a barriguinha cheia de surf, sozinho numa esplanada em frente ao mar, saboreando um café quente, negro e espesso, faço um telefonema para uma amiga. Mais do que uma amiga, o meu primeiro amor, coisa de adolescente, desastrada e pueril. Ela só soube anos mais tarde...


-- Oi, há que tempos, sim, desculpa, tenho andado cheio de trabalho


-- Sim, olha continuo no trabalho de sempre, mas agora vou ter outro emprego: vou ser mãe.


-- ... Ah!...Parabéns. Que bom, a sério, estou muito contente. Porra, nem sei que dizer. Parabéns, pois.


-- Ia mandar a ecografia para os meus amigos todos mas ainda não consegui digitalizar aquilo.


-- Pois, deixa, olha, é muito bom, vais ver que tudo vai correr bem. É pena que não estejas aqui, apetecia-me dar-te um beijo. Temos de tomar um café, quer dizer, um chá, agora tens de ter mais cuidado. Sabes ia morrendo há bocado...


-- O quê?


-- Nada, parvoíce, estava a pensar noutra coisa. Olha, vou ficar sem bateria nesta treta. Temos de nos encontrar. Beijos.


O sol está a pôr-se em Supertubos. Pois é, "nada como a proximidade do mar para trazer ao de cima a educação religiosa"... O sol parece ir passar uma fronteira qualquer e o céu fica mais perto, parece que o podemos tocar se esticarmos um pouco o braço. Deus, como o sol, parece tão mais perto hoje, aqui, ao pé do mar, onde as coisas acabam e começam.


Os gajos que passaram por experiência de quase morte dizem que se passa por um túnel que conduz à luz. É como nascer, né? Mas não acho que seja um túnel, é um tubo mesmo. Um Supertubo.

sábado, abril 21, 2007

Vítima do Pantera Negra

Depois de uma semana inteira a ir sistematicamente para a porta da CUF controlar as visitas ao convalescente Luís Filipe Vieira (e que alívio quando ele saiu), eis que à chegada de uma curta visita às ondas da Costa, sou surpreendido pela notícia do internamento de Eusébio. Tremi. E se o pior acontece e o homem morre quando estiver a trabalhar? O meu pesadelo profissional. Mas não, foi um susto.

O cenário foi imediatamente desenhado na minha cabeça: maratonas à porta do Hospital da Luz. As primeiras informações deram-me alguma esperança: o velho ia sair no próprio dia. Puro engano. Afinal, a coisa era para durar.

Horas e horas a fio com apenas uma meta: o fim-de-semana de folga grande: sexta, sábado e domingo. E uma leitura rápida no www.wetsand.com: sexta-feira, ondulação de mais de um metro e sem vento. Meu Deus, dá-me forças para resistir até lá...

sexta-feira, março 16, 2007

Por amor




Cheguei à redacção para o último dia de trabalho antes de umas mini-férias de três dias. Estou a precisar: uma semana de reportagem em Paris deixou marcas e estou mesmo a precisar de um estágio de mar para curar.


Estou a sentar-me e o meu editor aborda-me com um sorriso culpado: "Estás de folga este fim-de-semana, não estás?" Este é o tipo de pergunta assassina que significa invariavelmente mais uma viagem. Pelo caminho já me tinha colocado ao corrente do que ditou o sorteio da UEFA, o Espanyol de Barcelona. Uma cidade bonita, pois é.


Na balança pendia, de um lado, uma viagem e três ou quatro dias de reportagem numa das mais belas cidades da Europa; do outro uma deslocação até Peniche para dois dias de surfada com amigos. Boas ondas, sol, peixinho fresco grelhado...e já mencionei boas ondas?


Pois é. Sem dúvidas. Há escolhas que fazemos por amor. Vocês sabem o que respondi, não sabem?

terça-feira, fevereiro 20, 2007

De volta ao templo


A dor. A satisfação. No célebre documentário de culto "pumping iron", Arnold Schwarzenegger fala da sensação da "pump", que é como quem diz, aquela sensação que se tem depois de algumas séries com pesos. O músculo fica irrigado de sangue, congestionado. No fundo, tata-se de solicitar as fibras musculares de forma sucessiva danificando-as, obrigando o músculo a renovar-se, tornando-o mais forte, mais espesso, com mais fibras, para a próxima vez estar mais preparado para o esforço. A chamada "memória muscular".




Bonito não é? Mas dói. E por isso ainda é mais bonito. Eu explico:




Lembro-me da primeira vez que entrei num ginásio de musculação, daqueles "hardcore", em que se prepara malta para competições de culturismo. Nada destes "health clubs" da moda. Digamos que o tempo que lá passei foi extremamente útil para quando tenho de escrever sobre casos de "doping"...



O primeiro teino teve a sua piada. Já tinha experimentado fazer uns pesos há uns anos, mas nada sério e entretanto já tinha uma experiência interessante em kickboxing. Pensava que isso de "puxar ferro" era coisa para meninos, nada que acrescentasse ao meu título de vice-campeão nacional. Então, atirei-me com toda a gana e acompanhado por um maluco do ferro fiz um esquema pouco aconselhado para o meu corpo de corredor de fundo. Acabei o treino, cambaleei para o balneário e vomitei. Pois é...ganhei outro respeito à coisa. E os 69 kg e meio do kickboxer subiram para 82...


Já foram uns anitos e o vício do ginásio ficou comigo. Um vício que levei a limites pouco razoáveis antes de o incorporar mais pacificamente na minha rotina. Hoje, em vez do ritual de auto-massacre de outros tempos é mais como uma ida ao templo: revigorante. Mas nada de auto-complacente. Ainda gosto de sentir os músculos a arder.


E como ardem. Depois de três meses de interregno escolhi uma má semana para voltar. Na minha secção de 7 pessoas, uma está de férias, outra de baixa e eu...de rastos. Ando a fazer 12 horas por dia e a encaixar, teimosamente, uma hora de ginásio todos os dias (ter ginásio no condomínio facilita), normalmente às 11 da noite ou às 10 da manhã. O pior é andar a coxear como um velhinho cheio de dores nas pernas, suportar os socos amigáveis dos colegas nos braços ou as igualmente fraternas pancadas nas costas. Porra, como dói!


Enfim, é o regresso ao templo meus amigos. É que como naqueles tempos de estreia, não sei fazer nada, mas mesmo nada, a brincar.


Portanto, se me encontrarem na rua, podem cumprimentar-me, mas com cuidado...ouch!

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Porque sim

Há vários meses que ando a resistir escrever sobre isto, mas lá terá que ser:

SIM, porque a actual lei é socialmente cega

SIM, porque a actual lei defende a hipocrisia

SIM, porque toda a gente é conta o aborto, mas há quem também seja contra uma lei que penaliza mulheres já suficientemente penalizadas

SIM, porque ainda tenho a esperança que este seja um país que dá a mã a quem mais prcisa e não os condena

SIM, porque não aguento falsos moralismos de quem vai "fazer férias" a Londres ou Badajoz

SIM, porque não há medidas contraceptivas 100% eficazes

SIM, porque todas as crianças merecem ser queridas e amadas

SIM, porque SIM. E se a alternativa ganhar, então merda para este país, porque se houve 25 de Abril, então falhou mesmo

PS: E se ouço mais algum atrasado(a) mental dizer que a despenalização vai provocar uma corrida ao aborto, não respondo por mim.

quinta-feira, janeiro 18, 2007

My name is Tário, O-Tário

Átrio de hotel cinco estrelas. Aproveito o acaso de hoje ter vestido um blazer com etiqueta transalpina e até estar penteado para deslizar discretamente por entre o caldo internacional de um congresso. Inglês, italiano, francês…até algum português. Mas nada de português do Brasil, aquele que procuro.
É nestas alturas que penso o quão ridícula pode ser esta profissão. Procuro um empresário de futebol brasileiro. É tudo o que sei sobre o tipo. Isso e o facto de ele, alegadamente, estar em Portugal para negociar um avançado para o Benfica. Um brasileiro, claro, ou não fosse essa a origem favorita dos reforços de Inverno em Portugal. Bons e baratos. Pois, deve ser. A quimera dourada dos dirigentes lusos. Quase nunca acontece. Quase? Eu deveria saber, ainda há duas semanas escrevi um trabalho em que falava precisamente do mercado de Janeiro em Portugal. Uma merda. Engodo para índios que ainda teimam em acreditar no sucesso da sua equipa.

Mas isso era antigamente, quando eu ainda escrevia coisas interessantes, quando não estava demasiado ocupado a brincar aos agentes secretos. Pois.
Entretanto, já bebi um café, uma água com gás e estou a folhear a carta dos Whiskies. Completamente sóbrio isto é muito mais difícil. E nada de Veiga, nada de Vieira. Nunca se sabe, o próprio presidente poderia dar um ar da sua graça. Mas seria demasiada bandeira.

Único consolo é a presença de dos tipos que presumo jornalistas da concorrência. Apesar de não nos conhecermos, todos estamos mais ou menos conscientes da identidade uns dos outros. E fingimos que não nos apercebemos da presença uns dos outros, que não sabemos exactamente o que estamos ali a fazer.

Nada de empresário. Acho. Podia chocar de frente com o gajo que não o reconheceria. A informação de que disponho é, no mínimo, escassa. “O tipo é brasileiro. Olha, sei lá pergunta na recepção.” Claro. Estou mesmo a ver: “Boa tarde, por acaso os senhores têm cá algum empresário brasileiro hospedado?” O desespero é grande, faço uma tentativa desesperada junto do porteiro: “Boa tarde, combinei aqui um encontro com José Veiga, o do Benfica, sabe quem é, claro. E, por acaso, ele já passou por aqui?...” Hmmm…talvez um Jameson…

Foi mais ou menos nessa altura que saquei do computador e comecei a escrever. Só para manter a cabeça ocupada. Não tenho nenhum jornal aqui e não tenho mais nada para fazer que me ocupe o cérebro.

Finalmente o telefone toca: é o regresso à base. Vem aí mais um dia daqueles.

terça-feira, janeiro 09, 2007

Presságio na água

Não acredito em muita coisa. De facto, cada vez acredito menos e em menos coisas. Não sou gajo de ler horóscopos nem sou adepto do sobrenatural. Mas baseio muito da minha vida na intuição. Aquele dia foi um desses momentos.

Estava de folga e já não sei bem porquê nem como, vi-me sozinho, de prancha às costas e a caminho de Seimbra. Bem, sei porque é que ia para Sesimbra: o mau tempo era a notícia do dia e o alerta amarelo que então imperava fazia com que a ondulação estivesse insurfável em praticamente toda a costa ocidental. Isto é, menos na abrigada aldeia de pescadores, refúgio da comunidade amante de ondas em dias de gigantes.

E, de facto, mesmo na pacífica Sesimbra, adivinhava-se que o dia não estava para comuns mortais. Ondas cheias com metrão e meio nos "sets" rolavam porto adentro. A praia estava cheia. Afinal, toda a gente sabe que em dias destes, só mesmo em Sesimbra.

Entrei. Os "sets" eram pesados mas com ritmo moderado e previsível. Não tive dificuldade. No entanto, estava estranhamente indisposto. Não sei se era a ausência do meu "guru" de ondas e habitual parceiro de surfada, o Garcia, ou a inusitada multidão, ou o simples nervoso miudinho normal numa onda nova. Só sabia que aquele não era um dos meus dias. Fiz-me a algumas mas sem convicção. Ou havia sempre um tipo mais bem colocado ou a onda não me parecia boa, ou...pois, algo não estava bem. Estava com medo.

Não era aquele nervoso miudinho normal, era um pavor que ameaçava emergir lá bem do fundo, uma sombra de pânico que espreitava pelo postigo da consciência.

Saí. Algo não estava bem e saí abanando a cabeça, envergonhado, a pedir desculpa à prancha.

Cheguei ao carro e comecei a despir o fato, quando, ainda com a pele de neoprene pela cintura o telemóvel tocou. Olhei e percebi que era o chefe de uma revista com quem colaboro esporadicamente a ligar. Apeteceu-me não atender, falávamos depois. Mas atendi.

- Então, #####, tudo bem? Então em que é que posso ajudar o meu amigo?

- Olá Carlos, então, já sabes mais alguma coisa do César?

- O César? O César está de férias pá! Mas o que é que querias do homem?

- ...Mas ainda não sabes de nada?

- Hã? Mas passou-se alguma coisa?

- Eh pá...acho que o César morreu.

- O quê?! Estás a brincar??

- Mas achas que ia brincar com uma coisa dessas?

-- Merda! Foda-se! Foda-se! Mas que raio?...desculpa...foda-se! filha da puta! Que é que raio aconteceu?! Porra!

-- Um acidente de avião e ia com outro colega vosso, um tal de André...

O resto do diálogo é irrelevante. Tudo o que ele me disse, e mais ainda, veio publicado nos jornais dos dias seguintes. Dois colegas, dois amigos tinham morrido num desastre de avião no fim do Mundo. Não, não acredito no sobrenatural mas, às vezes, o cérebro só serve para confirmar o que já sabemos. De alguma maneira. Mesmo que seja em Sesimbra, na água. O cheiro da dor esgueira-se por todo o lado

sexta-feira, dezembro 29, 2006

Virar a página DEZ

Lembro-me quando António Tadeia veio falar comigo para integrar a equipa de um projecto ainda sem nome. Falou-me de uma revista de grande reportagem, análise e opinião, uma publicação que ele desejava de referência. Eu ainda estava abalado pela maneira esquisita como tinha saído da secção de Sporting do jornal, uma das secções "fillet mignon" (como ficaram celebrizadas pela sempre expressiva verve do nosso director as secções de Benfica e Sporting do jornal), e não sabia o que esperar.

A responsabilidade parecia-me esmagadora mas a motivação também era grande. Eu adoro uma situação em que as probabilidades estão contra. E aquele parecia o caso: uma equipa de excelentes repórteres em que eu era, até ver, o menos experiente. Depois de mim apenas um estagiário que viria complementar o ramalhete. Tinha acabado de sair do "fillet mignon", é certo, mas estava ali para aprender. Regressar à escola. Havia, no entanto, um anzol: todos ou quase todos estavam ali em situação ingrata; por desavenças com a chefia, por alegada dificuldade "em jogar em equipa", por acidente.

Mas esse foi o factor que nos uniu. Um sentimento de luta contra a adversidade e a competência de todos catalizada e desmultiplicada pela liderança brilhante de António Tadeia.

Até que a fórmula cresceu, amadureceu, ganhou prestígio. Foi premiada, elogiada, reconhecida. O projecto ganhou pernas, resistiu a mudanças de elenco e até à saída do pai do projecto.

Por aqui passou a truculência irónica pontuada de humor e "fair play" de Paulo Renato Soares; a competência sóbria e o riso britânico de Miguel Costa Nunes; a irreverência promissora de Bruno Roseiro; o talento entretanto desperdiçado de Pedro Ferraz (esperemos que volte ao jornalismo), a liderança e assombrosa inteligência de António Tadeia...e o génio de César Oliveira. Um jovem jornalista e um ser humano tão brilhante que Deus o quis guardar consigo mais cedo.

Até agora, da equipa original dos "desterrados", apenas restavam o excelente jornalista e homem Paulo Jorge Pereira e eu. Agora eu parto. Novamente de regresso ao "Fillet Mignon", desta vez, de Benfica vestido.

O Paulo fica, para já. A DEZ também. Mas todos os que cá estão e todos os que por cá passaram fazem parte da alma de uma revista que durante 139 números fez parte de mim.

A vida continua e eu...aprendi. E viver é isso mesmo.

Até já.

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Cova do Vapor II

Uma palavra: sobrevivi.

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Cova do Vapor

Surfar uma onda nova é como ter sexo com uma desconhecida. Já sinto o nervoso miudinho. Vi a onda da Cova do Vapor pela primeira vez a semana passada: uma vaga mutante que pode ser tubular ou triangular, mas sempre tenebrosa. Amanhã vou "brincar" com ela pela primeira vez.

Sim, a primeira vez é sempre a primeira vez.

quarta-feira, dezembro 20, 2006

O Natal do saxofone

Porra! Estou farto! Desculpem o desabafo mas estou realmente farto do Natal. Tenho saudades do tempo em que isto me dizia qualquer coisa, mas a verdade é que quanto mais velho fico mais dificuldades tenho em sentir o "espírito natalício". Aquele sentimento morno que nascia na barriga e se espalhava pelo corpo todo, aquele sorriso parvo que se fazia por tudo e por nada. Parece amor, não é? A verdade é que era, pelo Mundo todo. Porque te sentias amado. Porque sabias que tinhas pessoas que, acontecesse o que acontecesse, nunca te desiludiriam.

Pois, como as coisas mudam. Dizem que um tipo nunca deve perder a capacidade de se surpreender. Pois, acho que ainda mantenho essa, já não tenho é a capacidade de me desiludir.

O Natal é a festa da família. Já praticamente não tenho família. Ok, tenho a minha mãe. O problema é que ela também está um pouco morta.

O Natal é a festa da família. Para mim já não é nada.

Este ano tentei, juro que tentei: este ano, pela primeira vez desde a morte do meu irmão, há sete anos, comprei uma árvore enorme, atirei-me às prateleiras das grandes superfícies comerciais a comprar enfeites e estive até às três da manhã a decorá-la. Ficou bonita mas não se pode enganar o espírito de Natal, não se pode comprá-lo.

Na verdade, todos os dias tenho assistido a procissões na Segunda Circular a caminho do Colombo a tentar comprar o espírito de Natal. Em tantos anos nunca vi uma voragem consumista tão grande, tanta gente embrenhada nas compras. Querem-nos vender o Natal e nós compramos, satisfeitos.

Só que amigos, não é assim tão fácil. Pois não. Ontem um amigo deu-me um CD do Miles Davis. Uma prenda desastrada entre dois tipos que não estão habituados a ter esse tipo de gesto entre si. E tão desastrada foi que o CD ainda trazia o preço: 11 euros.

Foi o momento mais próximo que tive de Natal nos últimos anos. Afinal, pensando bem, talvez até se possa comprar o espírito de Natal, não com 11 euros, mas com sorriso envergonhado e um gesto desastrado.

Obrigado, amigo. Talvez ainda haja esperança para mim.

Feliz Natal (ao som de Miles Davis)

segunda-feira, novembro 27, 2006

Não entendo

Lembro-me da primeira vez que, de facto, reparei no André. Foi nos primeiros tempos na redacção do Record, eu estava a fazer a reportagem de um jogo de hóquei em patins no antigo Pavilhão da Luz; há uma jogada polémica e toda a gente no público se levanta a gritar com o árbitro. Não sei bem porquê o meu olhar demorou um pouco tempo mais no André, irado, aos gritos, figura familiar mas ao mesmo tempo bem diversa daquela que já tinha visto sentado ao computador na secção "online", naquele tempo bem mais povoada.

No dia seguinte não perdi tempo e fui meter-me com ele: "Com que então o 'nosso' Benfica, hein...?" Foi o princípio de uma sincera amizade.

O André era um tipo tímido mas afável, um coração grande que apesar dos anos que partilhámos a trabalhar na mesma casa, apesar das conversas que tínhamos, da cumplicidade que floresceu com o tempo e que começou com uma conversa sobre o "nosso" Benfica, nunca cheguei a conhecer bem. Não tivemos tempo.

E tu, meu querido César? Que raio de filme absurdo é este? Não é um daqueles milhares que tu, apaixonado pelo cinema, viste, pois não?

Trabalhámos no mesmo jornal durante 7 anos, foste das primeiras pessas que conheci no Record, e desde há cerca de um ano e meio que estávamos (literalmente) lado a lado no mesmo projecto, a DEZ, a nossa DEZ. E, sabes, nunca me cansei de admirar a tua imaginação delirante, a tua coragem em assumir projectos que os mais ortodoxos apelidavam de "maluquices". Eram "maluquices", sim, de um maluco genial, daquele género de que o mundo precisa cada vez mais.

Estive no teu último aniversário. 34 anos. Só. E foi mesmo o teu último aniversário. Foi ali, naquele indiano do Bairro Alto que conhecias tão bem, trocando impressões sobre viagens com o dono, teu amigo. Falavas da Índia e do projecto de voltar à Patagónia. Bolas, amigo, cheguei a dizer-te que se estivesse de férias agora até ia contigo. O que são as coisas, amigo, o que são as coisas...

Estou aqui sentado, ao lado do teu lugar vazio, sem conseguir conceber que nunca mais verei a tua figura esguia debruçada no computador, o teu sorriso tranquilo ou aquele tique que tinhas com as mãos quando estavas a pensar em mais algums ideia brilhante ou, simplesmente, a tentar soltar a tensão com que, todos os dias, nos batemos.

Já perdi muita gemte querida, demais para uma vida só. Devia ser proibido. Só que custa muito, custa muito mais porque me faz perguntar o que é que Ele estava a fazer, o que é que Ele estava a pensar? Quando levou o meu irmão, quando vos levou a vocês, amigos. Todos jovens, todos cheios de vontade de viver.

No dia a seguir ao vosso acidente, também no Chile, Augusto Pinochet celebrava o 91º aniversário.

Eu estive no teu último, César. Não sabia, mas era mesmo o teu último. Tinhas só 34.

Não entendo. Perdoa-me mas não Te entendo.