quinta-feira, maio 26, 2005

As costas dos ponteiros

Trabalhar em equipa tem destas coisas. E eu odeio. Bom ou mau, gosto de ser responsável pelos meus actos.Depois de amanhã sai uma reportagem/perfil com a vida do treinador José Rachão.

Boa ou má reportagem, não me cabe dizer. Agora, quando um imbecil da revisão troca a expressão "os ponteiros voltam atrás" por um "os ponteiros viram-se para trás"!!! Ai fico irritado, pois claro que fico. É que o nome do imbecil que passou dois dias a compor aquela merda de trabalho está em letras garrafais por cima daquele pedaço de esterco. E o imbecil é, adivinharam, este vosso servo.

Porra! como detesto incompetentes. Assim, amigos, não quero saber dos cerca de 90 mil gajos que lêem a Record DEZ e vão pensar que este Carlos Mariano é um "atrasado mental". Basta saber que vocês sabem que este gajo é mesmo um atrasado mental, ok, mas que sabe que os ponteiros não têm costas.

sexta-feira, maio 13, 2005

Pobre país pobre

-- Ténis para jogar ténis?
-- Sim, eu sei que soa mal mas percebe o que quero dizer, não é?
-- Claro, mas não temos?
-- Não têm? Mas então...?
--Experimente na Sport Zone. É que sabe, o ténis não é um desporto muito...

Este diálogo teve lugar entre mim e um assistente de uma loja dita de desporto no Centro Coimercial Colombo. Antes disso já tinha virado o Vasco da Gama (três modelos de ténis distribuídos entre a loja da Nike e a Sport Zone); o Olivais Shoppping (ah, temos os Adidas Stan Smith [nota: modelo com trinta anos e mais apropriado para passear]) e finalmente o Colombo onde apenas na Sport Zone (e isto inclui a Foot Locker) encontrei alguns modelos, quatro, para ser preciso, e apenas em alguns números. Mais ou menos o mesmo cenário que no El Corte Inglés.

Ok, quem aguentou ler até aqui já se convenceu da frivolidade deste texto. Contudo, não quero aqui falar do drama do menino queque que não conseguia encontrar uns ténis, que hôrrooore!

Não, estou a escrever isto porque nunca tinha sentido tão veementemente o quão terceiro mundista é um país em que se diz que o ténis "é para ricos".

Um par de ténis custa cerca de 50 euros. Uma raquete razoável custa outros cinquenta. Um "pack" de quatro bolas custa cerca de 10 euros. E uma hora num "court" sai mais barato do que uma hora de snooker num qualquer café. Isto é para ricos?

Vivemos num pobre país de pobres...de espírito. Os nossos melhores jogadores de ténis flutuaram algures nos Top 200 mundial. Tivemos um número um de juniores, Cunha e Silva, que aos 18 anos era um ano mais velho que o campeão de Wimbledon da altura, um tal Boris Becker.

Entretanto, acabo de escrever o perfil de Rafael Nadal, um jovem de 18 anos que é o grande candidato a ganhar Roland Garros e a, em breve, ocupar o topo do "ranking" ATP. Ah, e é espanhol. Uma realidade tão próxima no mapa e, no entanto, tão irremediavelmente distante.

Enfim, e isto só me bateu a sério quando quis comprar uns ténis. Incrível.

Em suma:

Viva o país do futebol.

quinta-feira, abril 14, 2005

CCB? -Dêem-nos música

Os cínicos costumam dizer a respeito a política qualquer coisa a respeito das moscas e da merda. Não sei se sim se não.

O que eu sei é que, merda ou não, há coisas que, de facto, não mudam. Há coisa de uma década indignava-me com a "derrapagem financeira" (belo eufemismo) do Centro Cultural de Belém. Mais que o despesismo, criticava um governo que pensava que o evidente défice cultural do país se resolvia com projectos megalómanos.

Muito tempo passou, vários governos se foram com a espuma dos dias, e, no entanto, hoje inaugura-se mais um CCB. Só que como as coisas mudam, este chama-se Casa da Música e é no Porto.

Gaba-se a arquitectura, fala-se das maravilhas que este projecto vai trazer à vida cultural do país, etc, etc.

Só sei que um projecto com orçamento previsto para 40 milhões de euros (oito milhões de contos dos antigos) apresenta hoje uma factura de 100 milhões, ou seja, vinte milhões dos entretanto extintos contos. Pois, porque as coisas mudam...

Posto isto, algumas perguntas:

Quantos teatros se constroem com 100 milhões?

Quantas bibliotecas?

Quantas escolas?

Quantos empregos para
professores, educadores, músicos, actores, se podem criar?

Isto é tudo CCB -- Centralização Cultural para Burros.

Porque a cultura não é isto.

quinta-feira, abril 07, 2005

De carroça

Há um problema grave neste país: a mania de resolver as questões na flor em vez de na raíz.

Um dos exemplos mais óbvios tem a ver com os automóveis. Os automobilistas deste país são a grande vaca leiteira do Estado.

Na aquisição de automóvel, entre IVA e IA, os portugueses são dos que mais se esforçam. Basta dizer que, na Europa, apenas os Dinamarqueses pagam mais para ter carro. Em Portugal o salário mínimo é de 374,70 euros. Na Dinamarca, não há salário mínimo mas recordo-me de ter lido uma reportagem acerca de um emigrante cubano na Dinamarca que ganhava cerca de dois mil euros a servir às mesas. Enfim...

A título de exemplo, um VW Golf 2.0 TDI custa cerca de 10 mil euros mais em Portugal do que em Espanha. 10 mil euros em impostos. Ah, e os espanhóis têm salário mínimo. 526 euros segundo os meus números mais recentes.

Mas há mais. Temos o imposto de circulação (selo), as portagens, a gasolina...

Mas e depois o dinheiro dos impostos é bem aplicado. Em medidas ambientais, em estradas melhores e mais seguras, na melhoria do ensino da condução...pois. Talvez na Dinamarca.

Portagens: Há quarenta anos que os portugueses pagam uma ponte ultrapassada. Fez-se outra, que até desviava o trânsito de uma zona importante da cidade de Lisboa e tal...e é exorbitante.
Para não falar nas auto-estradas. E há alternativas? Pois há. Em alguns casos, as SCUT. Que os senhores do governo cessante queriam cobrar. Que os senhores do actual governo ainda equacionam cobrar.

Gasolina: Os mesmos senhores que queriam cobrar portagens nas SCUT fizeram o favor de liberalizar o preço da gasolina. Como os senhores das gasolineiras até já fazem pouco dinheiro, como até não combinam entre si os preços (cartéis não são só os colombianos), está provado que foi uma excelente medida. A somar a mais impostos, mais que em Espanha, por exemplo, o resultado é o do costume.

Parquímetros: Cobrados por empresas ilegais. Como as pessoas perceberam que a EMEL, por exemplo, não tinha legitimidade legal para passar multas, deixaram de as pagar. Como tal, esses senhores passaram a bloquear e a rebocar carros. Extorsão pura. Mas o que esperar de uma cidade que permite os "arrumadores", senhores que ganham a vida retendo os carros como reféns? Bem, mas a própria EMEL não é mais que uma firma de arrumadores organizados.

Ambiente: E os impostos são usados em medidas ambientais? Pois, tanto que somos o único país da UE que taxa mais a gasolina que o gasóleo (mais poluente).

Estradas: E os impostos são usados na construção de melhores estradas? Para quem já passou no IP4 e IP5 a pergunta é uma anedota trágica.

Mas com tudo isto, chegamos à conclusão. Tive uma discussão com uma amiga que me dizia que o carro é um luxo. É o que pensam os nossos governantes. Eu também pensaria assim se tivesse alternativas. Mas não tenho. Não tenho transportes públicos bons e baratos. Quanto à qualidade, recomendo a leitura do blog "Alcateia de Loucos" onde o meu amigo Hugo Alves faz uma interpretação bem engraçada, mas real, de uma viagem num autocarro da Carris. E para quem vive fora de Lisboa, então...sem palavras.

Mas vamos taxar os automobilistas. Porque o carro é um luxo. Ao preço por que pagamos os carros em Portugal, é mesmo. E, já agora, a relação entre tudo isto e as mortes na estrada? Há a educação e a falta dela. Pois é. Mas isso reflecte-se no número de acidentes. Agora se há muitos acidentes que resultam em morte, se calhar é porque os portugueses quando batem, batem de Renault Clio e não de Mercedes.

Mas de carroça, como o país, a coisa corria muito melhor.

quarta-feira, abril 06, 2005

Vida II

Para evitar confusões, vou retirar todas as considerações genéricas de uma entrada anterior e colocar uma questão "à" referendo: Deve uma mulher que interrompe a gravidez até (digamos) às 12 semanas, sofrer sanções?"

Ou então à bruta: Deve uma mulher que interrompa a gravidez até às (mais uma vez o prazo) ir para a cadeia e ser duplamente castigada (porque o aborto também é uma pena)?

Se se quer evitar o aborto, criem-se condições de acompanhamento nos hospitais, com psicólogos, assistentes sociais, criem alternativas e informem as pessoas da sua existência. Se não se pode criar as condições para toda a gente ter os filhos que quiser, quando quiser então dêem-lhes alternativas. Asseguro que o número de abortos diminuiria drasticamente. E isso é o que todos querem.

Agora, e é só isso que estou a dizer, mandar as pessoas para a prisão é absurdo. A sociedade que promulga e apoia leis como esta é necessaria e implicitamente hipócrita. Não é uma questão religiosa. É uma questão de pão e educação, duas coisas que faltam (muito) neste país.

E para esclarecer os meus amigos comentadores, não sou "bloquista" nem acho que as mulheres sejam as únicas com o poder de escolha sobre o destino do feto. Nunca disse isso. Mas ver no aborto uma forma de "eugenia social" para acabar com os "inadequados" é, no mínimo, um argumento puramente demagógico muitas vezes invocado por aquela franja político-partidária que ideologicamente se posiciona nos antípodas do BE. E os extremos tocam-se e misturam-se. Na máxima expressão tornam-se fanatismos.

domingo, abril 03, 2005

Campeões

Uma recordação da minha amiga e campeã Susana Barroso. Esta grande mulher mostra todos os dias que a vida é uma luta que só se vence...vivendo.
E esses é que são os campeões, os que não se rendem, os que não baixam o jogo, mesmo quando as cartas que o Universo lhes dá são das mais baixas do baralho. Força, esperança, fé, amor. Ainda há quem se lembre o que é isto? É tão triste ver tanta gente imersa nas suas preocupações mesquinhas e sem tempo para agradecer o tanto que têm. A minha amiga Susana Barroso gostaria de ter a mesma força. Mas tem um músculo muito mais poderoso. Mesmo que os médicos digam que vai enfraquecer: o coração. Posted by Hello

quinta-feira, março 31, 2005

Vida

O direito à vida. Eis um conceito mais uma vez em voga.

Em Portugal, discute-se o aborto. Uma questão da qual se diz ser fracturante. Porque todos têm uma posição. Porque ninguém muda de campo. Porque todos acham que têm razão.

E como todos têm uma posição, eu tenho a minha: sou a favor da despenalização do aborto.

Porque sou contra a hipocrisia.

Porque sou contra a injustiça que a actual lei cultiva.

Porque não suporto as senhoras católicas que aparecem nas revistas, vestidas pelas melhores casas francesas e italianas, a pregar sentenças sobre
vidas que nascem ou se perdem num mundo do qual elas só conhecem através dos relatos das empregadas.

Porque há mulheres que morrem ou ficam mutiladas.

Porque há mulheres que têm os corpos invadidos por curiosos armados de instrumentos mal esterilizados, escondidas em quartos sujos.

Porque a sociedade não as deixa sair desses mesmos quartos sujos, penalizando-as, castigando-as por algo a que são forçadas pela ignorância, pela pobreza.

Direito à vida. E Vida será o mesmo que existência? Penso que seja algo mais que isso.

Direito à vida. Acabo de ver o presidente de uma nação responsável por milhares de mortos no Iraque insurgir-se contra a libertação do corpo de uma mulher que há muito havia partido. Como se pode ser tão flexível sobre algo. Só quem não tem espinha o pode fazer.

Direito à vida. Adoro crianças e adoraria, um dia, ser pai. Mas isso tem algo a ver? Só para os ignorantes, os hipócritas ou os burros como George W. Bush.

quarta-feira, março 30, 2005

Escravatura e máscaras de argila

Descansem as mulheres. A igualdade chegou. A parte final do século XIX e todo o século passado foram feitos pela luta das mulheres pela igualdade. Hoje, finalmente, a guerra está a ser ganha.

A ideia bateu-me como um martelo quando dei por mim a ler uma série de folhetos subordinados ao tema da cosmética masculina. Biotherme, Nickel, Lab Series, Clarins, Shiseido, enfim, uma bateria de nomes que entram assim de rompante no meu quotidiano. Eles são os esfoliantes, os hidratantes, os anti-rugas, os cremes de dia, os cremes de noite, e, a minha favorita, a máscara de argila.

Agora sim, estou-me a ver a aspirar a casa, de roupão, num sábado de manhã e com uma máscara de argila no focinho. Só me lembro do teledisco dos Queen.

É verdade que a necessidade é a mãe da invenção, mas o que se passa com este fenómeno é a criação de necessidades. Que homem (ou mulher) precisa de tanta coisa para se sentir bem e saudável? Já para não falar na tanga dos cremes para "adelgaçar a cintura". Pelo amor de Deus! Passei anos a gozar com os cremes anti-celulite das mulheres, um mito para obrigar as senhoras a gastar dinheiro, sem qualquer retorno. E agora querem impingir-nos essas coisas? Valha-nos Deus!

Bem, ao cabo de tanta leitura, fiquei na mesma. O problema é que, de manhã, quando desço no elevador, olho para o espelho e dou por mim a olhar para as linhas dos cantos dos olhos.

Enfim, como as gajas.

domingo, março 20, 2005

Sexo com uma lutadora de sumo

Antes que alguém queira corrigir, eu antecipo: o sumo é só para homens. E ainda bem.

Mas eu explico. À beira dos 30 anos comprei uma prancha. Ontem, na companhia de dois amigos fiz-me ao mar em Carcavelos. Entrei com alguma relutância, a água não é das mais limpas. Mas entrei.

Depois de alguma luta para passar a rebentação, habitual em quem ainda não domina a técnica de "mergulho de pato" e que, portanto, é sistematicamente empurrado pela rebentação de volta à praia, tive a minha recompensa. O mar estava pintado daquele verde-cinza profundo que oscila até ao azul-cobalto. As ondas rareavam mas eram cheias. E algumas, de quando em quando, eram mesmo poderosas.

Estava a falar com um dos meus amigos quando fui surpreendido por uma dessas raras preciosidades: uma parede com franja branca de espuma e uma boca cavernosa. Disse "até já" aos meus parceiros e comecei a remar. A sensação foi a do costume: incrível.

Uma força viva e imensa que pega em nós como um palito de gelado. Mas errei. A trajectória não foi a melhor e passei do topo do edífício para a barriga do monstro. Fui engolido. A prancha puxava para um lado, enquanto as pernas eram empurradas em direcções opostas, dobradas em ângulos impossíveis.

Felizmente, sempre me senti à vontade na água e não entro em pânico. Basta suster o fôlego e esperar que o urso verde se canse de brincar connosco. Subi para respirar e vi que estava à beira da praia. A sensação é de exaustão. Vista "a posteriori" é como fazer amor com uma lutadora de sumo: ora estás em cima e seguro, ou estás dentro e debaixo, quase sufocado naquela enorme massa.

Ah, sim, voltei a remar de volta mas ontem não voltei a apanhar outra onda assim.

terça-feira, março 08, 2005

Dias

Dia da Mulher. Sinto-me na obrigação de sublinhar que nada me move contra as mulheres. Bem pelo contrário.

Aliás, é precisamente por ser a favor das mulheres que me quero insurgir contra o "Dia da Mulher". Depois do dia da árvore, do dia dos avós, do dia da criança, do dia do velho, do dia dos jardineiros e do dia dos comedores de "sushi", eis o dia da mulher.

Essa coisa dos dias de qualquer coisa tem graça e fundamento quando falamos de minorias, o que não é o caso. Que eu saiba, segundo os números mais recentes, as mulheres estão mesmo em maioria.

A existência de um "Dia da Mulher" faz tanto sentido como a de um "Dia do Homem". E não há, pois não?

Enfim, hoje deu-me para aqui, o que fazer. Mas será só a mim que isto faz confusão?

quarta-feira, fevereiro 23, 2005

Também tu, Baía?

Há coisas do diabo. Numa altura em que se fala tanto de boatos e tal...

Bem, que tal darem uma espreitadela a uma certa vivenda na zona de Penafiel? Talvez fiquem tão surpreendidos como eu fiquei quando soube que aí reside a razão pela qual Vítor Baía se separou da mulher.

Ah, e razão faz a barba.

segunda-feira, janeiro 24, 2005

Terra do Nunca

Ontem fui ver um dos melhores filmes que já tive o privilégio de assistir. "À procura da Terra do Nunca" como lhe chamam por cá é um exemplo magistral de como se pode contar uma história emocionalmente poderosa de forma soberbamente contida.

É raro, mas às vezes tenho de concordar com o meu amigo Hugo.

sexta-feira, janeiro 21, 2005

Inveja

Recomendo vivamente a leitura do livro de José Gil "Portugal, Hoje: o Medo de Mudar". Li a entrevista que este pensador (considerado um dos maiores 25 pensadores do mundo pelo "Nouvelle Observateur") deu à revista Pública do último domingo e fiquei esclarecido.

"Vivemos paralisados pela inveja", afirma o autor, que coloca este sentimento bem acima desta condição: é algo que faz parte do próprio sangue deste povo.

E, de facto, ao reflectir no que diz José Gil, desde cedo que somos vítimas desta cultura da mediocridade. Desde os bancos de escola, os melhores alunos são reprimidos, marginalizados e só são integrados e aceites quando deixam de brilhar. É a cultura do lodo.

Inveja. Em vez de ganharmos força e motivação com o sucesso dos outros, em vez de procurar imitar o seu exemplo, arrumamo-los com rótulos, insultos, ou a assassina ironia de quem sabe que em Portugal todos vivemos com medo e sensibilidade à flor da pele. Porque este é um país verde, imaturo, sufocado durante anos pelo Salazarismo. Mas não só. É um medo atávico que prefere diminuir os outros à sua própria insignificância.

E é por isso que o país não anda para a frente? Versão Reader's Digest: Sim. Não só, mas claramente também.

quinta-feira, janeiro 13, 2005

O castigo da normalidade

Não há pena maior, castigo mais duro e condição mais desgraçada que a de ser normal. Infelizmente, parece que é a isso que, cada vez mais, estou fadado.

Subi a encosta da vida convencido que seria algo de extraordinário, que a minha vida seria qualquer coisa de marcante e que pairaria muito acima da mediocridade dos "normais".

Mesmo nas alturas em que todo o ser humano reza para ser o mais igual ao seu vizinho, ostentei as minhas diferenças com orgulho, como se a mera inadaptação fosse uma marca de água da grandiosidade que me esperava ao fundo do túnel.

Entretanto, fiz 30 anos, uma data que sugere balanços. Alguns amigos colocam-me a coisa nestes termos: "Tens casa, carro, dinheiro e um bom emprego e uma miúda que gosta de ti. Porque é que dizes que não és feliz? porque é que dizes que te falta algo? Falta?"

Falta. A diferença. Falta a tal marca de água, falta a chama e a crença de que nasci para ser diferente, superlativo.

Estou cada vez mais normal. Cada vez mais presa da normalidade assassina que esfuma as linhas do rosto e a chama dos olhos e do peito, que torna rombas as facas dos dentes.

Tenho trinta anos. Aos quarenta, o animal ressurge, dizem. Esperemos que o acordar da minha besta não se manifeste pela compra de um descapotável.

terça-feira, janeiro 11, 2005

No olho do ciclone

Confesso: estou mal habituado. Moldado ou distorcido por uma maturação complicada, posso dizer que me tornei um vinho encorpado, de cor vermelho-rubi (clubística e politicamente) e um aroma profundo e inebriante, matizado de taninos suaves e um ligeiro sabor persistente a teimosia.

Bem, piadas à parte, sou o que sou, bem ou mal, graças às dificuldades; por não dar nunca nada como adquirido e lutar pelo que quero.

E agora? Agora atravesso um estranho momento de calmaria. Sem dramas, sem dificuldades de maior além das que tento imaginar, estou lentamente a perder propriedades.

Ou se calhar estou no olhbo do furacão, atento à vida que circula transtornada à minha volta. À vida dos outros, porque da minha apenas digo que estou aborrecido. Um bocadinho.

segunda-feira, janeiro 03, 2005

Ano novo...

Aqui está 2005.

Confesso que cada vez tenho menos fascínio por essa coisa do ano novo. É conveniente que haja um calendário que nos lembre da passagem do tempo mas estou a habituar-me a catalogar as gavetas da minha vida em função de eventos marcantes. Talvez porque tenho tido muitos.

Adiante, é apenas uma proposta. Não deve ser das mais práticas, mas nunca fui conhecido por ser prático.

PS: Para alguém que conheço, 2005 é um bom exemplo. Será o ano em que nasce sua filha. Só isso deveria chegar, não?

Parabéns

quinta-feira, dezembro 02, 2004

Justiça

À hora que escrevo estas linhas, corre a notícia, ainda não confirmada, que Pinto da Costa foi notificado na sequência do caso "apito dourado". Dizem ainda que o "Papa" está em Espanha. Azar do caraças!

Ao cabo de 20 anos de roubos declarados, conspirações e todo o tipo de jogadas sujas, o reinado de Pinto da Costa está, finalmente, a chegar ao fim.

Escrevo isto sem ponta de clubismo. Também aplaudiria se LF Vieira fosse preso. Aliás, ainda falta esse. Falo em nome do futebol. Há alguns anos, um presidente do Sporting veio falar do "25 de Abril do futebol"; parece que, finalmente, os tanques estão na rua.

terça-feira, novembro 30, 2004

Viva a Democracia!

quinta-feira, novembro 18, 2004

Intimidade e sim, ovos mexidos

Temos medo. O sexo, mais conhecido nestas páginas como "ovos mexidos" (ver "post" com o mesmo título) é bom. Afirmação pouco polémica. Tão pouco que a sabedoria "hollywoodesca" já a sintetizou: "Sexo é como pizza: mesmo quando é mau, é bom".

Então não é de sexo que temos medo. Ok, concedo que até haja quem tenha medo de sexo, mas isso é uma questão dos que ainda não o começaram e dos que estão com medo que acabe. Coisas do tempo. Daquele que temos e do que ainda nos resta, dependendo da perspectiva.

Mas no meio, entre os inícios e os finalmentes, há os entretantos, os dos ovos mexidos. E é aí que entra o outro medo, o egoísta: medo da intimidade.

O segredo do bom sexo (dizem, que eu não percebo nada disso) é o esquecimento, a anulação da consciência. Esquecermo-nos de quem somos perante outra pessoa; esquecer o pudor, a inadequação. E aí as hormonas ajudam.

O problema é quando passa a "magia" química: nús, umas vezes em cama alheia, outras com alguém que, vendo bem, é praticamente um estranho, estamos paradoxalmente sós.

Lembro-me da história de um amigo que percebeu a real dimensão do erro quando depois de uma noite tórrida, a parceira de idílio erótico o convidou para o seu duche. O problema foi que ele estava urinando e a moça entra casa de banho adentro, sem respeito por aquele momento...íntimo.

Pois é: intimidade. É esse o cerne do problema. É que, nestes dias de propaganda generalizada, de corpos perfeitos enlaçados, o sexo não é, não pode ser, a medida da intimidade.

A intimidade faz-se na partilha de coisas simples mas secretas. É deixar entrar outrém no pequeno e secreto espaço em que nos habituámos a viver. E não é fácil. Para muitos de nós, o proverbial armário onde guardamos os "esqueletos", ou a partilha de uma casa de banho, não é tarefa simples. E é aí, nesse tão menosprezado campo de batalha que se ganham ou perdem relações.

Formulado de maneira sintética: "Posso ir contigo para a cama mas, por favor, não me vejas mijar."

Amén

quarta-feira, novembro 10, 2004

Silêncio de ouro

Parado para obras. Deixei passar as eleições presidenciais norte-americanas, os desvarios governativos do túnel do Rossio, da anunciada taxa para a entrada de automóveis em Lisboa, até do real peso da (alegada) redução das taxas do IRS.

Tudo porque estou em obras.

Quando as coisas mudam bruscamente e o meu mundo parece virado de pernas para o ar (ou finalmente deixa de estar), então mais vale parar para pensar. A palavra pode, de facto, ser de prata. Mas, amigos, em "certas e determinadas situações"...o silêncio é mesmo de ouro.