quarta-feira, março 22, 2006

Ridículos

O medo é das forças mais poderosas da psique humana. Eu tenho medo de muita coisa: medo de vespas, de alturas, medo de estar sozinho no mar, enfim, medo de muita coisa; alguns medos têm um fundo mais ou menos racional, outros nem por isso.

Todavia, há um medo que se sobrepõe a todos: medo do ridículo. E como se cai no ridículo, perguntam vocês?

De muitas maneiras. A pior, todavia, é mentir descaradamente, com mesuras e gentilezas, tecendo teias de hipocrisia tão diáfanas e transparentes como as das aranhas.

Detesto a hipocrisia, a falsidade, a lata de quem nos passa a mão pelo pêlo quando na realidade prefere ver-nos pelas costas. Ou não nos ver.

Só tenho pena de ser tão burro que só percebo a armadilha quando já lá caí. Várias vezes.

Enfim, acho que também lá cair tanta vez tem o seu quê de ridículo. E sendo assim já o fui. Também várias vezes. Porque há crimes em que a vítima é tão culpada quanto o criminoso.

quinta-feira, março 16, 2006

Fim de tarde em Pozarevac

Estávamos em 2003. Ia como enviado especial à Jugoslávia para fazer a reportagem da participação do V.Guimarães numa eliminatória da "Top Teams Cup" de voleibol.

O destino era uma pequena localidade a cerca de 10o km de Belgrado chamada Pozarevac. Não sabia nada da terrinha, mas pressenti logo à chegada um ambiente estranho, opressivo. Primeiro pensei que talvez fosse o nevoeiro de tabaco à entrada do pavilhão, mas não, era qualquer coisa mais; o silêncio comprometido, o olhar dos mais velhos, que fixavam os estrangeiros como isso mesmo "estrangeiros". Não conseguíamos esquecer a nossa condição.

A atmosfera lembrava a época áurea do terror em Hollywood. Parecia quase normal que nos aparecesse o Boris Karloff ou o Christopher Lee enfeitados capa negra e caninos postiços.

Havia qualquer coisa. Como uma comichão que incomoda mas que não conseguimos localizar. Até que a peça que faltava no "puzzle" surgiu, da maneira mais prosaica: Uma tarja a anunciar uma festa numa discoteca local. Parecia estranho que houvesse uma discoteca num sítio tão cinzento. E no meio da conversa, a intervenção de um local:

--"É a discoteca do filho do Milosevic."

-- "De quem? Do Slobodan Milosevic?"

-- "Sim, esse mesmo. Nasceu aqui, não sabia?"

-- "Não, não sabia, mas agora faz sentido. Só não sei se foi a terra que transformou o tipo se foi a sina do tipo que marcou a terra."

Pozarevac. Nunca mais esqueci o nome, por muito que tentasse. E agora veio outra vez à baila. Como o local onde um dos demónios da História nasceu e onde será enterrado.

Pois, nunca mais esqueci Pozarevac. Esperemos que o Mundo também não esqueça, e que coloque este nome para aí ao lado de Auschwitz.

Vamos comê-los

Devo dizer que estou desiludido. Mas não muito. Não me surpreende que o Benfica tenha resultados pouco conseguidos. Estamos a falar de dois jogos (um empate com a Naval e uma derrota, com culpas do árbitro, ante o Vitória de Guimarães) com equipas manifestamente inferiores e fechadas lá atrás ou, como diria Mourinho, com o "autocarro à frente da baliza".

Isto nasce da própria anatomia do Benfica: uma equipa montada de trás para a frente, apoiada numa defesa coreácea, um meio-campo forte se bem que pouco criativo, e um ataque móvel e flexível mas com dificuldade no ataque planeado. Ou seja, o que se convencionou chamar uma equipa de contra-ataque. É por isso que se deu tão bem com equipas teoricamente mais fortes: Manchester United e Liverpool.

Quanto ao Barcelona, importa dizer que é uma equipa com "tracção à frente", que esbanja talento do meio-campo para diante mas que apresenta algumas lacunas na defesa. Em suma, um adversário ideal para um Benfica com um Simão, um Geovanni e um Miccoli em boa forma, apoiados na defesa brasileira e num meio-campo com Petit (obrigatório) e Beto ou Manuel Fernandes.

Tudo isto para dizer uma coisa: vamos comê-los. Agora só falta dar um tiro no joelho do Ronaldinho.

sexta-feira, março 10, 2006

Sorteio ingrato

Que porcaria de azar. Tinha que nos calhar o Barcelona para os quartos-de-final da Liga dos Campeões. É uma pena uma equipa com a categoria do Barça ter que ficar já pelo caminho.

quinta-feira, março 09, 2006

Vermelho e Negro

Vermelho e Negro. Duas cores que além de combinarem muito bem, reflectem o dia de hoje. Vermelho para o meu Benfica (cujo meio-sucesso não vou para já festejar por preferir esperar pela final) e negro de luto. Luto pelo 25 de Abril que o herdeiro (i)moral de Salazar subiu hoje ao poder.

quarta-feira, março 08, 2006

Benfica!!!

Amanhã escrevo alguma coisa acerca disto, mas agora estou quase a chorar.

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Adeus, caracóis de prata

Lembras-te quando me levavas, pequeno e tímido, pela mão, nas tuas digressões pela cidade? O sítio que gostava mais era o mercado, "a praça", como ainda se chamava ao edifício mágico recheado de cores fortes, inundado pelo cheiro pungente e inconfundível do peixe, fruta e flores, todos casados numa atmosfera densa mas cristalina, partida aqui e ali pelo grito do pregão.

Depois, era a passagem pela Aurora florista, sempre à espera que a Belinha, a filha da simpática e rechonchuda senhora aparecesse. As febres da adolescência ainda estavam distantes, mas já pressentia naquela presença fresca um esboço das paixões que haveriam de sacudir o meu corpo adulto.

Inevitável também as visita ao senhor Isidro, "o bananeiro", comprar fruta, e ao depósito de pão da D. Marília para ir buscar a meia dúzia de papo-secos do costume, já para não falar nos deliciosos suspiros que se desfaziam na boca e ajudaram a uma infância e adolescência, bem,...robusta.

Foi também à porta da D. Marília que me ensinaste, à força do único estalo que me lembro, em 31 anos, ter recebido da tua mão (e se os merecia). Em causa estava um boneco do Super-Homem com pára-quedas. Foi a primeira e última birra de que me lembro.

Nunca me deste o tal boneco com pára-quedas, mas salvaste-me de cair muitas vezes. Foi a tua paciência e o teu carinho que me ensinou a amar as letras. Era um prazer ouvir-te ler-me as histórias do clube do rato Mickey que chegavam mensalmente pelo correio. Anos mais tarde, foste tu que me compraste o "Evangelho Segundo Jesus Cristo", o meu primeiro livro de adulto, longe dos clássicos de aventuras do Tom Sawyer, dos Três Mosqueteiros, ou do universo de Júlio Verne.

Lembro-me de, durante uma dessas digressões de compras quotidianas, me ter perdido de ti. Assustei-me e fui à tua procura. A primeira coisa que vi foram os teus caracóis prateados, sempre compostos e bem juntos num penteado disciplinado, como tu. A figura austera, sempre vestida de preto, num luto eterno pelo avô que não cheguei a conhecer, tinha guardada dentro dela um coração que amava o netinho como um filho nascido fora de tempo. Talvez por isso, às vezes dava comigo a chamar-te "mãe". Dizia que era engano, mas, se calhar, não.
Deus, o alívio que foi ver os teus caracóis de prata.

É essa a imagem que quero guardar de ti. Não quero sequer recordar muitas vezes a última vez que os nossos olhos se cruzaram, quando estavas já semi-paralisada e era eu a dar-te o comer à boca, devolvendo um gesto muitas vezes repetido no passado, quando o Carlos Mariano era apenas uma bola rechonchuda no teu colo; uma promessa de gente. Uma promessa que tenho medo de não ter cumprido como desejarias.

Não sabia que era o Adeus, avó, não sabia.

Mas foi. Perdoa mas não consigo ir ao hospital. Não consigo ir ver a tua casca, ali deitada na maca, suportada por máquinas e alimentada por tubos. Os médicos dizem que o AVC foi forte de mais, que o cérebro está morto e é só o coração que teimosamente resiste. Mas sempre fomos assim, né, querida? Dois corações teimosos que não sabem desistir.

Mas podes descansar, podes ir, o meu baterá por ti...mãe.

quarta-feira, janeiro 25, 2006

memória curta

Portugal é um país cheio de qualidades mas com um grande defeito: os portugueses.
Só assim se explica que 10 anos depois, o mesmo povo desmemoriado volte a eleger quem lhe fez tanto mal. É o grande amor que temos pelos ditadores. O povo português está cheio de saudades do Salazar e como o botas já a bateu, elegem o seu clone algarvio.

Eu por mim, apetece-me emigar para um país mais civilizado. Talvez o Burkina Faso.

sexta-feira, janeiro 06, 2006

Aos novos velhos amigos

Não queria começar este "post" com um lugar comum, mas, às vezes, é impossível evitar por isso, lá vai: A vida é uma montanha russa.

O ano de 2005 foi um ano especial porque (re)reencontrei (e não, não é erro, ela percebe), alguém que em tempos me marcou de forma muito significativa.

O reencontro foi atribulado, afinal, foram 15 anos e quando ela desapareceu do meu mapa (literalmente, pois sei agora que a moça esteve na Escócia, imagine-se), era pouco mais que uma criança com muita coisa para resolver e muito para crescer. Felizmente, o (re)reencontro foi mais suave. Ok, também teve algumas particularidades estranhas, mas também este ponto terá de ficar para uma qualquer biografia não autorizada :)

O certo é que hoje creio que posso dizer com alguma segurança que agora que os nossos caminhos se voltaram a cruzar, nunca mais vou permitir que ela desapareça assim do meu mapa. Até porque o meu mapa, assim como eu, cresceu significativamente.

Outra pessoa que reentrou no meu quotidiano também é um (re)reencontro. Este camarada, cúmplice, sacana, salafrário, judeu, amigo, irmão, também resolveu sair do meu mapa geográfico e foi para, imagine-se, Cabo Verde, mais precisamente para a ilha do Sal.

O reencontro foi inesquecível. Estava este vosso amigo em "stress" a tentar convencer um recepcionista de hotel a deixar-me usar a linha de fax para enviar um serviço, quando percebi uma figura sinistra que estava refastelada num sofá do "lobby". E só me apercebi da sua presença quando a dita personagem se levantou e se dirigiu para mium com um ar esgazeado. Não distingui imediatamente a sua identidade por tão improvável que seria a coincidência. Improvável mas possível. Era o dito salafrário! Abraços para aqui e gargalhadas para acolá, muitas perguntas depois percebi que o bandido estava a trabalhar em Cabo Verde, numa empresa de aluguer de automóveis. Perfeitamente instalado e adaptado.

Trocámos endereços de e-mail e a coisa ficou por aí. Só que há dois dias por outra coincidência recebi um e-mail do meu amigo. Está vivo, de boa saúde e respeitavelmente instalado, ainda, no Sal. Diz que só vem a Portugal entre Maio e Outubro, que o resto do ano na pátria lhe parece a Sibéria. De resto, continua o mesmo.

15 anos. 15 anos não são nada.

Com tudo isto, há uma frase que me martela insistentemente na cabeça: Afinal, há coisas que nunca mudam. Mesmo.

segunda-feira, janeiro 02, 2006

Ano Novo

Mastigadas as passas, emborcado o champanhe, vieram os abraços e os beijos. Acabou 2005, vem aí 2006.

Sensação estranha esta, a de parar para pensar. Estes truques do calendário fazem-nos cair na tentação de traçar objectivos e balanços. Como foi o ano que passou, o que esperamos para o ano que acaba de nascer.

Para 2006, apenas a certeza de que terei de ser operado. Nada de grave, mas muito chato. Sobre 2005, muita coisa. É normal ter mais a dizer sobre o passado do que sobre o futuro, é por isso que os velhos têm sempre muitas histórias.

2005 foi um ano muito bom: o primeiro ano de independência na minha casa; um ano de sucesso profissional, em que vi crescer um projecto editorial de grande pujança e que tenho o orgulho de integrar; um ano cheio de amor e amizade, em que reencontrei velhos amigos, em que conheci outros, em que percebi que outros ainda não o eram e que não merecia a pena lutar por quem não se mexe por nós; um ano de boas e más notícias; o ano em que comecei a entrever um bem-estar que há muito procuro.

Para 2006, bem, vou ser operado. Já sei que estou a ser chato e irritantemente medricas mas o que é que querem? É a única certeza para 2006 e, isso sim, é irritante.

quarta-feira, dezembro 28, 2005

Tumor

Tumor. A palavra é assustadora porque de tantas vezes ter sido utilizada como um eufemismo para cancro, acabou por lhe ficar umbilicalmente ligada.

Pois, mas a verdade é que tenho um. Um tumor. As palavras do dentista deixaram-me num transe meio pânico mas rapidamente explicou que não havia indícios de malignidade. Ou seja, nada aponta para que seja, pois, cancro.

Mas assusta.

Dizem agora que tenho que fazer uma operação em São José. Coisa com anestesia geral. "Implica abrir-lhe o palato e extrair a massa, o quisto"...pois, o tumor.

Assusta, pois assusta.

O médico diz que não corro risco significativo mas que terei mesmo de tratar isto o mais rapidamente possível. Diz para não me preocupar muito, mas para me preocupar. E estou preocupado.

Estou muito preocupado.

Que o pós-operatório será complicado, com 15 dias de "muito mal-estar", o que traduzindo quer dizer dor severa e dificuldades em alimentar-me, que só poderei "comer caldos e alimentos moles". Mas, sinceramente, nem me importo. Quero esta massa fora do meu corpo, este...tumor.

Confesso: estou com medo. Rio, brinco com isto mas estou com medo. "Não há sinais de malignidade." Uma única frase que me dá segurança, mesmo contra a que a completou: "Mas só teremos a certeza absoluta quando abrirmos." Pois...medo.

quinta-feira, dezembro 15, 2005

Luce vers Tenebrae

Uma carta que não chega (sim, porque ainda há quem escreva cartas), uma foto que assombra uma casa, uma memória que escorre pelos recantos da alma.

O velho inimigo assume muitas formas e tem muitas caras. É por isso que nos apanha quase sempre quando não estamos preparados, quando não dá jeito, quando o seu potencial para nos virar a vida do avesso é maior.

sexta-feira, dezembro 09, 2005

Ídolos com pés de ouro

Portugal parou de boca aberta quando, na quarta-feira passada, Cristiano Ronaldo ergueu bem alto o ded
o médio da mão direita, em direcção aos adeptos que o assobiavam.

Muita gente ficou espantada. Mas perguntol porquê? Houve quem dissesse que se "se consegue tirar o homem das barracas, não se espere que se consiga tirar as barracas do homem". Não vou por aí.

O problema é que quando falamos de futebolistas deste nível falamos, na maior parte das vezes (Rui, és uma brilhante excepção), falamos de jovens com etapas de crescimento obliteradas, com dinheiro a mais, educação a menos e egos sobredesenvolvidos.

Espera-se que estes jovens sejam exemplos de conduta, exemplos de sucesso. Porquê? Porque são excelentes a jogar futebol. Mas mais uma vez a amnésia ataca. São excelentes apenas a jogar futebol. Só isso. Não são ídolos com pés de barro mas ídolos de barro com pés de ouro.

PS: Já agora, um dia destes hei-de vos contar a história de um desses milionários da bola que pediu um portátil de míseros 2500 euros para dar uma entrevista. Não vos digo quem é, apenas que é o mesmo tipo que quando ainda viajava de avião de carreira levava a própria mãe em classe económica, enquanto o próprio viajava confortavelmente instalado em executiva.

quinta-feira, novembro 24, 2005

O sexo dos anjos

Fui recentemente surpreendido por um forum na SIC Notícias subordinado ao tema: "Padres homossexuais". Aparentemente, o Vaticano emitiu um documento a recusar a ordenação de padres homossexuais.

Ora bem, são coisas como esta que me recordam porque é que não sou católico praticante. A distinrta lata destes senhores que se acham no direito de barrar uma qualquert potencial vocação baseados num preconceito ignóbil e profundamente hipócrita. Então e o que fazer aos muitos homossexuais padres? E, já agora, aos outros tantos "Padres Amaros" que aí andam, que mantém relações conjugais não sancionadas?

Falamos de uma Igreja que pretende como assexuados os seus padres, afinal o que interessa se o homem em causa (e o facto de ser só homens também tem que se lhe diga) é heterossexual ou não? Não pode explanar a sua sexualidade, o que, aliás é, isso sim, contra-natura.

Outra curiosidade foi a de uma participação de uma senhora que a Igreja católica poderia impor pré-requisitos para o sacerdócio. O que significa que a heterossexualidade deveria ser um pré-requisito. Para quê? E depois vêm todos os outros preconceitos e disparates que poluem a cabecinha de tanta gente.

Falamos de uma Igreja cujo fundador espiritual quereria para todos os Homens, ou será que quando Ele morreu na cruz "pelos pecadores", deveria ter acrescentados para os cronistas bíblicos: "ah, mas atenção, só os heterossexuais?".

terça-feira, novembro 22, 2005

Democracia oca

A base da democracia é a escolha. Óbvio. Mas para escolher é preciso ter dados. Não se deve tomar uma determinada opção ou enveredar por um certo caminho porque nos parece mais agradável, deve-se optar, isso sim, pelo mais correcto.

Democracia sem conhecimento, e este implica educação, é um sistema sem sangue, sem entranhas; é oco.

No tempo da ditadura, cultivava-se o analfabetismo entre as massas populares como garantia de perpetuação do sistema; hoje o mesmo acontece por desleixo, o que é ainda pior.

O que significa que nas próximas presidenciais damos por pessoas a votar em Cavaco Silva com os argumentos que "o sacana do bochechas está velho, não gosto do Manuel Alegre e o Louçã, sei lá, não conheço". Não, não é ficção mas um diálogo real, daqueles que se ouve, com certeza, em muitos lares daquele que se convencionou chamar o "Portugal real".

Estou farto deste país de ignorantes. Será que além dos sucessivos incompetentes no governo, ainda vamos ter de levar com o Cavaco Silva na presidência?

quinta-feira, novembro 17, 2005

Produtividade

Produtividade. Eis um conceito esquisito em Portugal. Esquisito porque tem muitas perspectivas, dependendo do lugar que se ocupa na cadeia socio-laboral.

Os patrões queixam-se que os empregados produzem pouco e por isso não lhes podem pagar muito.

Os empregados dizem que como são mal pagos não têm motivação nem condições para produzir mais

Os sucessivos governos lamentam a pouca produtividade do aparelho económico português, queixam-se que nos faz ficar mal na estatísticas europeias, mas enfim, como cobram impostos proporcionalmente mais elevados do que no resto da Europa, tanto lhes dá.

Uma pescadinha de rabo na boca: não produzimos, não recebemos, não recebemos, não produzimos. Mas, curiosamente, há algumas empresas que florescem no meio do estrume deste país.

As empresas de Comunicação Social são exemplo mais que perfeito deste peculiar silogismo. Aproveitam o excesso de recursos humanos que as universidades fabricam todos os anos (independentemente da qualidade do ensino, que é invariavelmente baixa, e é-o desde o ensino básico), para poderem manobrar os aumentos de forma indecentemente avarenta. Não lhes interessa a qualidade do produto mas o quanto podem lucrar com ele.

É por isso que se vê tanta barbaridade, tanta falta de qualidade. E não falo em nenhum género específico, pois este é um fenómeno transversal que não poupa títulos, nem sequer os ditos "de referência".

Estou farto de palmadinhas nas costas, elogios e promessas. É oficial, estou a planear uma mudança de rumo. Assistente editorial numa famosa casa livreira parece-vos bem, não?

Vamos ver.

quarta-feira, novembro 02, 2005

Amena cavaqueira

Era uma vez um país que adorava ditadores. Amou um durante 40 anos e teve que esperar que ele caísse de podre para largar cravos nas ruas. O povo desesperou pelo seu regresso durante vinte anos e fizeram-lhe a vontade. O ditador regressou, não numa manhã de nevoeiro, nem do Norte de África. Veio do Algarve, a fazer a rodagem do carro novo até à Figueira da Foz. Aí nasceu o rebento laranja podre e o povo rejubilou.

O ditador reinou durante quase uma década, encheu o país de cimento e de elefantes brancos, mas também apodreceu no lugar. Um punhado de resistentes veio para a rua gritar. Também lá estive a gritar contra uma prova fascista, outros foram para a ponte e o país abanou a laranjeira e a coisa caiu, mais uma vez de podre. Com um tabú pelo meio. O ditador tentou regressar mas o povo não deixou e ele foi para a caverna, esperar.

O século virou, outros poderes subiram à cadeira de onde o primeiro ditador tinha caído. Os homens do governo eram outros, a cor também era outra, mas quem manda são sempre os mesmos.

Agora, o ditador que estava escondido na caverna quer voltar. E o povo, saudosista dos ditadores, parece disposto a aceitar o chicote. Contra ele levanta-se um rei velho, um poeta, um operário e um professor que falça muito alto.

Não aparece ninguém para matar o dragão e a cavaqueira continua, amena, para mais um regresso do ditador. E não há cadeira que nos salve.

terça-feira, novembro 01, 2005

Porque foi inventado o bolo de chocolate

O dia nem começou mal, com aquela confortável sensação de feriado. É certo que venho trabalhar na mesma, mas estes dias têm, ainda assim, um sabor diferente.
Mas depois, sem perceber bem o que se estava a passar ou porquê, a força começou a escorregar. Aquela sensação de estar a mover-me num poço de alcatrão, espesso e negro, invadiu-me. Primeiro, de mansinho, depois, com a subtileza de um martelo a esmagar uma parede de vidro. Ah, pois, é dia de Todos os Santos.
Tenho-me na conta de tipo racional, cristão sim, mas à minha maneira: crente mas sem ligação à instituição eclesiástica, gosto de pensar que cada homem tem um templo em si mesmo. Logo, nem ligo ao calendário religioso. Não? Bem, acho que há coisas que se nos entranham na pele sem darmos por isso, e quando temos tanto da nossa história pessoal do outro lado da linha, é quase inevitável.

Um dia mau, e apesar de ser tantas vezes acusado de ser um fanático de uma dieta que não contempla doces nem outros "bichos", hoje é daqueles dias que percebo porque é que alguém inventou coisas como o Whisky ou o bolo de chocolate.

quinta-feira, outubro 20, 2005

Sabe bem

Se existisse um "ranking" de profissões ingratas, o jornalismo figuraria de certeza entre as primeiras cinco, sendo que nem me passa pela cabeça quais seriam as outras quatro. Não vou sequer falar dos salários que por aí se pagam (prometi que não ia escrever obscenidades neste espaço sagrado de reflexão), não, vou antes concentrar-me no difícil equilibrismo a que nos obriga esta profissão que não poucas vezes é caracterizada como missão. Missão no sentido religioso mas por vezes também militar.

Encontrar a verdade e publicá-la equilibrando valores como o respeito pela privacidade e o legítimo interesse público é cada vez mais difícil, e há até uma indústria montada na promiscuidade entre a esfera pública e a privada. Mas, enfim...ao contrário do que li há uns tempos, nem todo o jornalismo "é a mesma merda". Há jornalismo e há outras coisas. E se existe a tentação de distinguir o trigo do joio a partir dos títulos, deve dizer-se que a maior diferença faz-se pelos nomes de quem assina e não pela instituição que lhes paga o ordenado. Enfim, há bons jornalistas, há maus jornalistas e há escribas que não são nem uma coisa nem
outra.

"But I digress", o que eu queria mesmo falar era de outra coisa, de outro problema bem mais corriqueiro, mas que penaliza bastante gajos inseguros como eu: a falta de reconhecimento. Nos meus primeiros dias a trabalhar para um diário de divulgação nacional, uma das lições que imediatamente aprendi resumia-se a uma frase muitas vezes repetida: "Não te preocupes se não te disserem nada acerca do teu trabalho, é sinal que estava bom; porque se estivesse mau, então sim, vinham falar contigo."

E assim estive perdido durante alguns anos. De vez em quando recebi alguns elogios, alguns recados de senhores que apesar de não conhecer pessoalmente sabia que teriam importância. Contam-se pelos dedos de uma mão: o dia em que João Marcelino "gostou muito" de um dos meus primeiros trabalhos como enviado especial, um trabalhito modesto nas competições europeias de basquetebol em Valencia. Um elogio que me ficou na memória pelo que significou na minha então embrionária carreira. Já na altura o agora todo-poderoso director do "Correio da Manhã" e director-editorial da "Sábado" era pouco menos que Deus no meu jornal e a sua palavra transformou-me de estagiário despassarado em "jovem promessa". Um estatuto que teimou em permanecer apenso ao meu nome apesar de cada vez menos jovem...

E depois veio a DEZ. Mais que uma revista, um espaço de análise, de comentário e, sobretudo, reportagem, a minha menina dos olhos. Cresci muito neste último ano e meio a trabalhar com uma equipa fantástica. Privar com alguns dos melhores jornalistas desportivos do país e mesmo com aquele que considero o melhor (António Tadeia), permitiu-me crescer e assumir a promessa com que me haviam ungido. Embora o diga sem falsas modéstias que nesta profissão nunca se sabe tudo. Será assim em muitas actividades, mas nesta mais que em nenhuma outra.

Mas sim, no meio disto tudo, sempre a trabalhar e sempre sem reconhecimento, sempre sem a confiança que um crónico inseguro como eu padece, todos os diasa provar que sou bom. A mim e ao mundo. Em cada palavra, em cada parágrafo, em cada vírgula, o jogo entre uma carreira e a prateleira. Não é por nada que há tantos profissionais desta área em consultas na Av. do Brasil...

Uma luta inglória mas que, de vez a vez, tem descanso: quando acabamos um trabalho ou quando ligamos para um conhecido comentador e recebemos do outro lado um "Eh pá, li um seu trabalho muito bom no outro dia. Geralmente nem reparo em quem assina mas neste caso até voltei ao início para ver quem era. Muito bom, sinceramente."

Pois é, às vezes esquecemos os maus salários, as muitas horas e tudo o resto. Porque há dias assim. Sabe bem.

segunda-feira, outubro 10, 2005

Chuva na Frente Oriental

O dia nasceu chuvoso, talvez para limpar a merda que atingiu as nortenhas Gondomar, Felgueiras e a solarenga Oeiras. Em dias como este, acordo com a declarada esperança que a água que cai em barda seja suficiente. Mas nunca é.

Da madeira e ar das colunas da aparelhagem, a guitarra de Jack Johnson materializa-se e deambula sem destino pelas paredes do apartamento, colorindo-as de azul marinho.

Saio da janela e troco a água que cai lá fora pela água quente do chuveiro. Respiro o vapor e o cheiro a lençóis mornos que abandona de mansinho a minha pele.

Pequeno-almoço tomado, hora higiénica no ginásio cumprida e preparo a saída: tiro as peças da armadura têxtil com que vou atacar o dragão quotidiano, recolho as chaves de casa, as chaves do carro, o comando da garagem, o telemóvel, a caneta, os óculos escuros...a parafernália de objectos com que tenho de me armar e saio para a batalha. Para a chuva que não vai limpar tanto esterco.

Já perto do trabalho, o habitual exame dos jornais revela que tudo está na mesma no país. Tudo na mesma na Frente Oriental. E a Leste do Paraíso também.