sexta-feira, julho 15, 2005

Dez para as nove e meia

Rasgas o peito e a vaidade
Vestes a fria pele do lagarto
da cor do desgosto
mal curado
As manhãs da vida parecem distantes
e o fim ao virar de uma esquina rugosa
que acena desbragada
dos confins da depressão

Olhas para os espelhos
que quebraste
para as portas que não fechaste
e aumenta a confusão
Os métodos que não seguiste
perseguem-te e tentam
marcar na tua nova pele de
lagarto-da-cor-do-desgosto
o cunho da normalidade

A normal normalidade normalizadora
que é pior que nada, mas o próprio esmagador
nada

Trânsito, filhos, café instantâneo
torradas com margarina fina
que delícia
E os ombros que descaem
E os olhos que embaciam
prisioneiros
do nevoeiro sujo
das palavras sujas
desta vida suja
em que afocinhas
e te esfregas

Os lençois suados de lágrimas
e semen que te puxam para baixo
que te seduzem para o escuro
são a doce armadilha, o intenso mosto
a toca de um homem com pele de lagarto
da cor do desgosto

segunda-feira, julho 11, 2005

(Des)equilíbrios

As férias acabaram. Uma constatação por demais evidente quando te vês reintegrado na monótona procissão rodoviária até à capital.

Enquanto percorria a Segunda Circular, instalado na minha modesta carripana, fui fazendo contas às tarefas que tinha pela frente: esgalhar um artigo sobre a campanha portuguesa de qualificação para o Mundial de voleibol; digerir mais algumas ideias de trabalho, limpar a minha caixa de e-mail e, já agora, acabar com o meu blogue.

Pois é. A verdade é que nunca me senti muito à vontade em despir-me em público. Algo que se tem tornado cada vez mais penoso nos últimos tempos.

Também nunca fui gajo para perder o meu precioso tempo a dedilhar banalidades em cima de generalidades. Se, aqui e ali, o fiz o peço desculpa.

E se digo que me tenho despido em público, a verdade é que este "público" são amigos, conhecidos e alguns estranhos.

O problema é que na vida tudo muda e essas categorias são tudo menos fixas.

Aquele a quem hoje chamas amigo, pode muito bem ser um estranho. Ou então gostarias que fosse. A verdade é que de conhecido, és obrigado a perceber, tem muito pouco.

Tudo isto gira à volta de um conceito escorregadio: o equilíbrio. Palavra que sugere estabilidade, solidez, equidade, a verdade é que, na vida, e no que às pessoas diz respeito, o equilíbrio é tudo menos sólido, mas antes fluido, adaptável.

E é na falta dessa adaptabilidade, que surgem os desequilíbrios. Desequilíbrios de quem não se adapta, de quem não vive bem com a mudança. Porque não tem capacidade, ou coragem, para o fazer.

Confesso que também padeço, por vezes, desse mal. Às vezes desculpo-me com essa deficiência com as circunstâncias atribuladas da minha vida. Mas também quem se pode gabar de ter uma vida fácil? Acho que ninguém.

Assim, bem ou mal, com muitos trambolhões, cabeçadas e hesitações, tiros no pé e muitas segundas oportunidades e ajudas, lá fui levando a água ao meu moinho. Como toda a gente. Ou não?

Uma das razões que me levam a considerar encerrar aqui esta participação virtual, talvez mesmo a mais forte, é perceber que aquilo que deveria ser um espaço de reflexão, de troca de ideias e até, porque não, de tentativas mais ou menos conseguidas de fazer literatura, está a transformar-se numa praça de troca, não de ideias, mas de insultos, de recadinhos (e o diminuitivo refere-se à mesquinhez dos textos e seus autores, e porque não, à menoridade intelectual) e mal destiladas invejas.

Não quero entrar nesse jogo. Não vou entrar nesse jogo. Não tenho feitio nem paciência.

Esta página está com a cabeça no cepo. Como a minha paciência.

quarta-feira, junho 08, 2005

Pés de barro

Durante a vida de um homem, existem algumas questões que pairam insistentes. Nuvens etéreas que, de quando em quando se fazem sentir, como um arrepio...

No meu caso, uma dessas questões tem a ver com...(rufar dos tambores)...os pés.

A primeira vez que tomei conhecimento deste problema fundamental foi graças a uma mulher. Que não gostava dos pés e tal. Desvalorizei. Mas mais tarde voltei a encontrar esse "problema", com outra mulher. Modelo fotográfico, atleta, gira e tal, corpo escultural e...pés feios. Feios? Ela dizia que sim, mas quem estava a olhar para os pés?

E como toda a problemática da pedicultura me foi apresentada por mulheres, cheguei a pensar que fosse uma daquelas coisas de gaja, como a síndrome pré-menstrual e as revistas que dizem coisas como "conquiste o seu homem na cama".

Puro engano.

De repente, ao conversar com alguns amigos daqueles bem machos que bebem cerveja ao litro e curtem futebol, recebi um soco no estomâgo: "Pés? Eh pá, muito importante. Digo-te mais, era incapaz de fazer o que fosse com, deixa ver...a Angelina Jolie por exemplo (silêncio reverentemente religioso) se ela tivesse os pés feios. Só de imaginar uns pés feios a tocar-me..."

Ok, este foi o caso mais extremo. Mas o que é certo é que depois, após apurada investigação, descobri toda uma tribo de adoradores de pés, de amantes de sandálias, de fanáticos dos saltos altos.

Gosto de pensar que sou dotado de apurado sentido estético, logo até distingo o que é isso de um pé bonito. Mas será assim tão relevante?

E as mãos? E os cotovelos? E os pulsos? Sei lá, de repente, todo um universo anatómico pouco explorado se abre diante dos meus olhos. Não como partes discretas bem integradas num todo que se quer harmonioso, mas como elementos valiosos "per se".

Tudo isto porque hoje o 24 Horas trazia na manchete que Daniela Cicarelli tinha "pés feiosos". Sim? e daí?

Será que a beleza, esse valor esguio e vaporoso, depende da "perfeição" (outro conceito perigosíssimo) anatómica de coisas como os pés?

A beleza é uma coisa estranha. Uns perseguem-na obsessivamente, outros não. Uns pensam que são belos sem o ser quando quem o é geralmente nem percebe. Porque a verdadeira beleza não pode depender da perfeição de uns pés. Não pode.

E depois existem ainda outros casos: os daqueles que pensamos que são belos. E, curiosamente, eles também pensam que o são; e vivemos todos nessa entorpecedora ilusão. Até lhes olharmos para os pés e percebemos que são feios...de barro.

terça-feira, maio 31, 2005

Guerra das Estrelas

Estávamos em meados da década de 80, no tempo em que ainda ia a matinées. O local, um cinema da Linha do Estoril. Tinha ido acompanhar a minha mãe numa visita a um familiar e, aborrecido de morte, lá cravei uns trocos para ir ver um filme de que ouvia falar há anos e que estava em reposição. Era a Guerra das Estrelas.

Passaram-se anos desde que me foram apresentados o jovem Luke Skywalker, o rebelde Han Solo, o sábio Obi Wan ou a irreverente princesa Leia.

Sábado passado arrastei a minha namorada para ver o Episódio III da Guerra das Estrelas. Foi a ponte para aquela já distante tarde de 80 e tal.

Foi também uma porta aberta para uma série de questões e temas que me apaixonaram nos três primeiros episódios da série (que também são os últimos, perceba-se lá isto).

A corrupção dos regimes democráticos e dos homens que, afinal, os compõem; o amor, a morte, a relação entre pais e filhos e a redenção dos pais pelos filhos, a proximidade entre os opostos. Conspiração, intriga, fosso de gerações.

E aqui chegamos às críticas que facilmente enchem as páginas da especialidade. Que é incoerente, que existem incorrecções científicas e tecnológicas. Que os robôs não ficavam obsoletos apesar dos anos, se não haveria ecografias ou outro tipo de processos para determinar se eram gémeos ou não, etc, etc, etc.

Pois é. A mania de olhar para as árvores em vez de contemplar a floresta. Amigos, esqueçam as naves, os robôs e os alienígenas. No séc. XVI William Shakespeare escreveu peças com fadas e outros seres fabulosos. Há algum crítico que fale contra o mestre?

Não digo que a "Guerra das Estrelas" seja digna de Shakespeare, mas o homem não desdenharia uma história destas. Só que com fadas em vez de robôs.

quinta-feira, maio 26, 2005

As costas dos ponteiros

Trabalhar em equipa tem destas coisas. E eu odeio. Bom ou mau, gosto de ser responsável pelos meus actos.Depois de amanhã sai uma reportagem/perfil com a vida do treinador José Rachão.

Boa ou má reportagem, não me cabe dizer. Agora, quando um imbecil da revisão troca a expressão "os ponteiros voltam atrás" por um "os ponteiros viram-se para trás"!!! Ai fico irritado, pois claro que fico. É que o nome do imbecil que passou dois dias a compor aquela merda de trabalho está em letras garrafais por cima daquele pedaço de esterco. E o imbecil é, adivinharam, este vosso servo.

Porra! como detesto incompetentes. Assim, amigos, não quero saber dos cerca de 90 mil gajos que lêem a Record DEZ e vão pensar que este Carlos Mariano é um "atrasado mental". Basta saber que vocês sabem que este gajo é mesmo um atrasado mental, ok, mas que sabe que os ponteiros não têm costas.

sexta-feira, maio 13, 2005

Pobre país pobre

-- Ténis para jogar ténis?
-- Sim, eu sei que soa mal mas percebe o que quero dizer, não é?
-- Claro, mas não temos?
-- Não têm? Mas então...?
--Experimente na Sport Zone. É que sabe, o ténis não é um desporto muito...

Este diálogo teve lugar entre mim e um assistente de uma loja dita de desporto no Centro Coimercial Colombo. Antes disso já tinha virado o Vasco da Gama (três modelos de ténis distribuídos entre a loja da Nike e a Sport Zone); o Olivais Shoppping (ah, temos os Adidas Stan Smith [nota: modelo com trinta anos e mais apropriado para passear]) e finalmente o Colombo onde apenas na Sport Zone (e isto inclui a Foot Locker) encontrei alguns modelos, quatro, para ser preciso, e apenas em alguns números. Mais ou menos o mesmo cenário que no El Corte Inglés.

Ok, quem aguentou ler até aqui já se convenceu da frivolidade deste texto. Contudo, não quero aqui falar do drama do menino queque que não conseguia encontrar uns ténis, que hôrrooore!

Não, estou a escrever isto porque nunca tinha sentido tão veementemente o quão terceiro mundista é um país em que se diz que o ténis "é para ricos".

Um par de ténis custa cerca de 50 euros. Uma raquete razoável custa outros cinquenta. Um "pack" de quatro bolas custa cerca de 10 euros. E uma hora num "court" sai mais barato do que uma hora de snooker num qualquer café. Isto é para ricos?

Vivemos num pobre país de pobres...de espírito. Os nossos melhores jogadores de ténis flutuaram algures nos Top 200 mundial. Tivemos um número um de juniores, Cunha e Silva, que aos 18 anos era um ano mais velho que o campeão de Wimbledon da altura, um tal Boris Becker.

Entretanto, acabo de escrever o perfil de Rafael Nadal, um jovem de 18 anos que é o grande candidato a ganhar Roland Garros e a, em breve, ocupar o topo do "ranking" ATP. Ah, e é espanhol. Uma realidade tão próxima no mapa e, no entanto, tão irremediavelmente distante.

Enfim, e isto só me bateu a sério quando quis comprar uns ténis. Incrível.

Em suma:

Viva o país do futebol.

quinta-feira, abril 14, 2005

CCB? -Dêem-nos música

Os cínicos costumam dizer a respeito a política qualquer coisa a respeito das moscas e da merda. Não sei se sim se não.

O que eu sei é que, merda ou não, há coisas que, de facto, não mudam. Há coisa de uma década indignava-me com a "derrapagem financeira" (belo eufemismo) do Centro Cultural de Belém. Mais que o despesismo, criticava um governo que pensava que o evidente défice cultural do país se resolvia com projectos megalómanos.

Muito tempo passou, vários governos se foram com a espuma dos dias, e, no entanto, hoje inaugura-se mais um CCB. Só que como as coisas mudam, este chama-se Casa da Música e é no Porto.

Gaba-se a arquitectura, fala-se das maravilhas que este projecto vai trazer à vida cultural do país, etc, etc.

Só sei que um projecto com orçamento previsto para 40 milhões de euros (oito milhões de contos dos antigos) apresenta hoje uma factura de 100 milhões, ou seja, vinte milhões dos entretanto extintos contos. Pois, porque as coisas mudam...

Posto isto, algumas perguntas:

Quantos teatros se constroem com 100 milhões?

Quantas bibliotecas?

Quantas escolas?

Quantos empregos para
professores, educadores, músicos, actores, se podem criar?

Isto é tudo CCB -- Centralização Cultural para Burros.

Porque a cultura não é isto.

quinta-feira, abril 07, 2005

De carroça

Há um problema grave neste país: a mania de resolver as questões na flor em vez de na raíz.

Um dos exemplos mais óbvios tem a ver com os automóveis. Os automobilistas deste país são a grande vaca leiteira do Estado.

Na aquisição de automóvel, entre IVA e IA, os portugueses são dos que mais se esforçam. Basta dizer que, na Europa, apenas os Dinamarqueses pagam mais para ter carro. Em Portugal o salário mínimo é de 374,70 euros. Na Dinamarca, não há salário mínimo mas recordo-me de ter lido uma reportagem acerca de um emigrante cubano na Dinamarca que ganhava cerca de dois mil euros a servir às mesas. Enfim...

A título de exemplo, um VW Golf 2.0 TDI custa cerca de 10 mil euros mais em Portugal do que em Espanha. 10 mil euros em impostos. Ah, e os espanhóis têm salário mínimo. 526 euros segundo os meus números mais recentes.

Mas há mais. Temos o imposto de circulação (selo), as portagens, a gasolina...

Mas e depois o dinheiro dos impostos é bem aplicado. Em medidas ambientais, em estradas melhores e mais seguras, na melhoria do ensino da condução...pois. Talvez na Dinamarca.

Portagens: Há quarenta anos que os portugueses pagam uma ponte ultrapassada. Fez-se outra, que até desviava o trânsito de uma zona importante da cidade de Lisboa e tal...e é exorbitante.
Para não falar nas auto-estradas. E há alternativas? Pois há. Em alguns casos, as SCUT. Que os senhores do governo cessante queriam cobrar. Que os senhores do actual governo ainda equacionam cobrar.

Gasolina: Os mesmos senhores que queriam cobrar portagens nas SCUT fizeram o favor de liberalizar o preço da gasolina. Como os senhores das gasolineiras até já fazem pouco dinheiro, como até não combinam entre si os preços (cartéis não são só os colombianos), está provado que foi uma excelente medida. A somar a mais impostos, mais que em Espanha, por exemplo, o resultado é o do costume.

Parquímetros: Cobrados por empresas ilegais. Como as pessoas perceberam que a EMEL, por exemplo, não tinha legitimidade legal para passar multas, deixaram de as pagar. Como tal, esses senhores passaram a bloquear e a rebocar carros. Extorsão pura. Mas o que esperar de uma cidade que permite os "arrumadores", senhores que ganham a vida retendo os carros como reféns? Bem, mas a própria EMEL não é mais que uma firma de arrumadores organizados.

Ambiente: E os impostos são usados em medidas ambientais? Pois, tanto que somos o único país da UE que taxa mais a gasolina que o gasóleo (mais poluente).

Estradas: E os impostos são usados na construção de melhores estradas? Para quem já passou no IP4 e IP5 a pergunta é uma anedota trágica.

Mas com tudo isto, chegamos à conclusão. Tive uma discussão com uma amiga que me dizia que o carro é um luxo. É o que pensam os nossos governantes. Eu também pensaria assim se tivesse alternativas. Mas não tenho. Não tenho transportes públicos bons e baratos. Quanto à qualidade, recomendo a leitura do blog "Alcateia de Loucos" onde o meu amigo Hugo Alves faz uma interpretação bem engraçada, mas real, de uma viagem num autocarro da Carris. E para quem vive fora de Lisboa, então...sem palavras.

Mas vamos taxar os automobilistas. Porque o carro é um luxo. Ao preço por que pagamos os carros em Portugal, é mesmo. E, já agora, a relação entre tudo isto e as mortes na estrada? Há a educação e a falta dela. Pois é. Mas isso reflecte-se no número de acidentes. Agora se há muitos acidentes que resultam em morte, se calhar é porque os portugueses quando batem, batem de Renault Clio e não de Mercedes.

Mas de carroça, como o país, a coisa corria muito melhor.

quarta-feira, abril 06, 2005

Vida II

Para evitar confusões, vou retirar todas as considerações genéricas de uma entrada anterior e colocar uma questão "à" referendo: Deve uma mulher que interrompe a gravidez até (digamos) às 12 semanas, sofrer sanções?"

Ou então à bruta: Deve uma mulher que interrompa a gravidez até às (mais uma vez o prazo) ir para a cadeia e ser duplamente castigada (porque o aborto também é uma pena)?

Se se quer evitar o aborto, criem-se condições de acompanhamento nos hospitais, com psicólogos, assistentes sociais, criem alternativas e informem as pessoas da sua existência. Se não se pode criar as condições para toda a gente ter os filhos que quiser, quando quiser então dêem-lhes alternativas. Asseguro que o número de abortos diminuiria drasticamente. E isso é o que todos querem.

Agora, e é só isso que estou a dizer, mandar as pessoas para a prisão é absurdo. A sociedade que promulga e apoia leis como esta é necessaria e implicitamente hipócrita. Não é uma questão religiosa. É uma questão de pão e educação, duas coisas que faltam (muito) neste país.

E para esclarecer os meus amigos comentadores, não sou "bloquista" nem acho que as mulheres sejam as únicas com o poder de escolha sobre o destino do feto. Nunca disse isso. Mas ver no aborto uma forma de "eugenia social" para acabar com os "inadequados" é, no mínimo, um argumento puramente demagógico muitas vezes invocado por aquela franja político-partidária que ideologicamente se posiciona nos antípodas do BE. E os extremos tocam-se e misturam-se. Na máxima expressão tornam-se fanatismos.

domingo, abril 03, 2005

Campeões

Uma recordação da minha amiga e campeã Susana Barroso. Esta grande mulher mostra todos os dias que a vida é uma luta que só se vence...vivendo.
E esses é que são os campeões, os que não se rendem, os que não baixam o jogo, mesmo quando as cartas que o Universo lhes dá são das mais baixas do baralho. Força, esperança, fé, amor. Ainda há quem se lembre o que é isto? É tão triste ver tanta gente imersa nas suas preocupações mesquinhas e sem tempo para agradecer o tanto que têm. A minha amiga Susana Barroso gostaria de ter a mesma força. Mas tem um músculo muito mais poderoso. Mesmo que os médicos digam que vai enfraquecer: o coração. Posted by Hello

quinta-feira, março 31, 2005

Vida

O direito à vida. Eis um conceito mais uma vez em voga.

Em Portugal, discute-se o aborto. Uma questão da qual se diz ser fracturante. Porque todos têm uma posição. Porque ninguém muda de campo. Porque todos acham que têm razão.

E como todos têm uma posição, eu tenho a minha: sou a favor da despenalização do aborto.

Porque sou contra a hipocrisia.

Porque sou contra a injustiça que a actual lei cultiva.

Porque não suporto as senhoras católicas que aparecem nas revistas, vestidas pelas melhores casas francesas e italianas, a pregar sentenças sobre
vidas que nascem ou se perdem num mundo do qual elas só conhecem através dos relatos das empregadas.

Porque há mulheres que morrem ou ficam mutiladas.

Porque há mulheres que têm os corpos invadidos por curiosos armados de instrumentos mal esterilizados, escondidas em quartos sujos.

Porque a sociedade não as deixa sair desses mesmos quartos sujos, penalizando-as, castigando-as por algo a que são forçadas pela ignorância, pela pobreza.

Direito à vida. E Vida será o mesmo que existência? Penso que seja algo mais que isso.

Direito à vida. Acabo de ver o presidente de uma nação responsável por milhares de mortos no Iraque insurgir-se contra a libertação do corpo de uma mulher que há muito havia partido. Como se pode ser tão flexível sobre algo. Só quem não tem espinha o pode fazer.

Direito à vida. Adoro crianças e adoraria, um dia, ser pai. Mas isso tem algo a ver? Só para os ignorantes, os hipócritas ou os burros como George W. Bush.

quarta-feira, março 30, 2005

Escravatura e máscaras de argila

Descansem as mulheres. A igualdade chegou. A parte final do século XIX e todo o século passado foram feitos pela luta das mulheres pela igualdade. Hoje, finalmente, a guerra está a ser ganha.

A ideia bateu-me como um martelo quando dei por mim a ler uma série de folhetos subordinados ao tema da cosmética masculina. Biotherme, Nickel, Lab Series, Clarins, Shiseido, enfim, uma bateria de nomes que entram assim de rompante no meu quotidiano. Eles são os esfoliantes, os hidratantes, os anti-rugas, os cremes de dia, os cremes de noite, e, a minha favorita, a máscara de argila.

Agora sim, estou-me a ver a aspirar a casa, de roupão, num sábado de manhã e com uma máscara de argila no focinho. Só me lembro do teledisco dos Queen.

É verdade que a necessidade é a mãe da invenção, mas o que se passa com este fenómeno é a criação de necessidades. Que homem (ou mulher) precisa de tanta coisa para se sentir bem e saudável? Já para não falar na tanga dos cremes para "adelgaçar a cintura". Pelo amor de Deus! Passei anos a gozar com os cremes anti-celulite das mulheres, um mito para obrigar as senhoras a gastar dinheiro, sem qualquer retorno. E agora querem impingir-nos essas coisas? Valha-nos Deus!

Bem, ao cabo de tanta leitura, fiquei na mesma. O problema é que, de manhã, quando desço no elevador, olho para o espelho e dou por mim a olhar para as linhas dos cantos dos olhos.

Enfim, como as gajas.

domingo, março 20, 2005

Sexo com uma lutadora de sumo

Antes que alguém queira corrigir, eu antecipo: o sumo é só para homens. E ainda bem.

Mas eu explico. À beira dos 30 anos comprei uma prancha. Ontem, na companhia de dois amigos fiz-me ao mar em Carcavelos. Entrei com alguma relutância, a água não é das mais limpas. Mas entrei.

Depois de alguma luta para passar a rebentação, habitual em quem ainda não domina a técnica de "mergulho de pato" e que, portanto, é sistematicamente empurrado pela rebentação de volta à praia, tive a minha recompensa. O mar estava pintado daquele verde-cinza profundo que oscila até ao azul-cobalto. As ondas rareavam mas eram cheias. E algumas, de quando em quando, eram mesmo poderosas.

Estava a falar com um dos meus amigos quando fui surpreendido por uma dessas raras preciosidades: uma parede com franja branca de espuma e uma boca cavernosa. Disse "até já" aos meus parceiros e comecei a remar. A sensação foi a do costume: incrível.

Uma força viva e imensa que pega em nós como um palito de gelado. Mas errei. A trajectória não foi a melhor e passei do topo do edífício para a barriga do monstro. Fui engolido. A prancha puxava para um lado, enquanto as pernas eram empurradas em direcções opostas, dobradas em ângulos impossíveis.

Felizmente, sempre me senti à vontade na água e não entro em pânico. Basta suster o fôlego e esperar que o urso verde se canse de brincar connosco. Subi para respirar e vi que estava à beira da praia. A sensação é de exaustão. Vista "a posteriori" é como fazer amor com uma lutadora de sumo: ora estás em cima e seguro, ou estás dentro e debaixo, quase sufocado naquela enorme massa.

Ah, sim, voltei a remar de volta mas ontem não voltei a apanhar outra onda assim.

terça-feira, março 08, 2005

Dias

Dia da Mulher. Sinto-me na obrigação de sublinhar que nada me move contra as mulheres. Bem pelo contrário.

Aliás, é precisamente por ser a favor das mulheres que me quero insurgir contra o "Dia da Mulher". Depois do dia da árvore, do dia dos avós, do dia da criança, do dia do velho, do dia dos jardineiros e do dia dos comedores de "sushi", eis o dia da mulher.

Essa coisa dos dias de qualquer coisa tem graça e fundamento quando falamos de minorias, o que não é o caso. Que eu saiba, segundo os números mais recentes, as mulheres estão mesmo em maioria.

A existência de um "Dia da Mulher" faz tanto sentido como a de um "Dia do Homem". E não há, pois não?

Enfim, hoje deu-me para aqui, o que fazer. Mas será só a mim que isto faz confusão?

quarta-feira, fevereiro 23, 2005

Também tu, Baía?

Há coisas do diabo. Numa altura em que se fala tanto de boatos e tal...

Bem, que tal darem uma espreitadela a uma certa vivenda na zona de Penafiel? Talvez fiquem tão surpreendidos como eu fiquei quando soube que aí reside a razão pela qual Vítor Baía se separou da mulher.

Ah, e razão faz a barba.

segunda-feira, janeiro 24, 2005

Terra do Nunca

Ontem fui ver um dos melhores filmes que já tive o privilégio de assistir. "À procura da Terra do Nunca" como lhe chamam por cá é um exemplo magistral de como se pode contar uma história emocionalmente poderosa de forma soberbamente contida.

É raro, mas às vezes tenho de concordar com o meu amigo Hugo.

sexta-feira, janeiro 21, 2005

Inveja

Recomendo vivamente a leitura do livro de José Gil "Portugal, Hoje: o Medo de Mudar". Li a entrevista que este pensador (considerado um dos maiores 25 pensadores do mundo pelo "Nouvelle Observateur") deu à revista Pública do último domingo e fiquei esclarecido.

"Vivemos paralisados pela inveja", afirma o autor, que coloca este sentimento bem acima desta condição: é algo que faz parte do próprio sangue deste povo.

E, de facto, ao reflectir no que diz José Gil, desde cedo que somos vítimas desta cultura da mediocridade. Desde os bancos de escola, os melhores alunos são reprimidos, marginalizados e só são integrados e aceites quando deixam de brilhar. É a cultura do lodo.

Inveja. Em vez de ganharmos força e motivação com o sucesso dos outros, em vez de procurar imitar o seu exemplo, arrumamo-los com rótulos, insultos, ou a assassina ironia de quem sabe que em Portugal todos vivemos com medo e sensibilidade à flor da pele. Porque este é um país verde, imaturo, sufocado durante anos pelo Salazarismo. Mas não só. É um medo atávico que prefere diminuir os outros à sua própria insignificância.

E é por isso que o país não anda para a frente? Versão Reader's Digest: Sim. Não só, mas claramente também.

quinta-feira, janeiro 13, 2005

O castigo da normalidade

Não há pena maior, castigo mais duro e condição mais desgraçada que a de ser normal. Infelizmente, parece que é a isso que, cada vez mais, estou fadado.

Subi a encosta da vida convencido que seria algo de extraordinário, que a minha vida seria qualquer coisa de marcante e que pairaria muito acima da mediocridade dos "normais".

Mesmo nas alturas em que todo o ser humano reza para ser o mais igual ao seu vizinho, ostentei as minhas diferenças com orgulho, como se a mera inadaptação fosse uma marca de água da grandiosidade que me esperava ao fundo do túnel.

Entretanto, fiz 30 anos, uma data que sugere balanços. Alguns amigos colocam-me a coisa nestes termos: "Tens casa, carro, dinheiro e um bom emprego e uma miúda que gosta de ti. Porque é que dizes que não és feliz? porque é que dizes que te falta algo? Falta?"

Falta. A diferença. Falta a tal marca de água, falta a chama e a crença de que nasci para ser diferente, superlativo.

Estou cada vez mais normal. Cada vez mais presa da normalidade assassina que esfuma as linhas do rosto e a chama dos olhos e do peito, que torna rombas as facas dos dentes.

Tenho trinta anos. Aos quarenta, o animal ressurge, dizem. Esperemos que o acordar da minha besta não se manifeste pela compra de um descapotável.

terça-feira, janeiro 11, 2005

No olho do ciclone

Confesso: estou mal habituado. Moldado ou distorcido por uma maturação complicada, posso dizer que me tornei um vinho encorpado, de cor vermelho-rubi (clubística e politicamente) e um aroma profundo e inebriante, matizado de taninos suaves e um ligeiro sabor persistente a teimosia.

Bem, piadas à parte, sou o que sou, bem ou mal, graças às dificuldades; por não dar nunca nada como adquirido e lutar pelo que quero.

E agora? Agora atravesso um estranho momento de calmaria. Sem dramas, sem dificuldades de maior além das que tento imaginar, estou lentamente a perder propriedades.

Ou se calhar estou no olhbo do furacão, atento à vida que circula transtornada à minha volta. À vida dos outros, porque da minha apenas digo que estou aborrecido. Um bocadinho.

segunda-feira, janeiro 03, 2005

Ano novo...

Aqui está 2005.

Confesso que cada vez tenho menos fascínio por essa coisa do ano novo. É conveniente que haja um calendário que nos lembre da passagem do tempo mas estou a habituar-me a catalogar as gavetas da minha vida em função de eventos marcantes. Talvez porque tenho tido muitos.

Adiante, é apenas uma proposta. Não deve ser das mais práticas, mas nunca fui conhecido por ser prático.

PS: Para alguém que conheço, 2005 é um bom exemplo. Será o ano em que nasce sua filha. Só isso deveria chegar, não?

Parabéns